Diversão pode ser a chave da sobrevivência humana

Publicado orginalmente por Albert Nerenberg em Montreal Gazzete
Tradução de Agência Pavanews

Diversão não é apenas diversão, de acordo com a ciência. Considerada inútil, trivial e muitas vezes perigosa, a diversão possivelmente possa nos deixar melhores, mais inteligentes e detenha a chave de nossa sobrevivência.

Seres humanos algumas vezes são retratados como monstros, gananciosos, violentos e destruidores da Terra. Nós começamos as guerras, poluímos os rios, e algumas vezes até chutamos os gatos. Mas temos um outro lado. Nenhum outro animal consegue usar os números como fazemos. Faça uma reunião para 500 gorilas e tome cuidado, pois haverá sangue. Coloque ali mais algumas centenas de chimpanzés e alguns deles certamente serão mortos e terem o rosto mastigado.

Na verdade, somos “animais” que gostam de festa. Você pode colocar milhares de pessoas dentro de um estádio para ver uma estrela do rock e mandá-los embora algumas horas depois. Meio milhão de pessoas viram Simon & Garfunkel no Central Park, em setembro de 1991. Na virada do ano de 1994, aproximadamente 3.5 milhões de pessoas lotaram o maior concerto ao ar livre da história. Foi a apresentação de Rod Stewart na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro. Agora esse mesmo Rio está se preparando para a grande “Festa das Olimpíadas” em 2016.

Sim, nós vivemos num planeta festivo. Milhões de pessoas assistem aos desfiles de Carnaval todos os anos e ninguém morre por se divertir demais. Claro, o álcool e a violência matam, mas eles continuam por aí com festa ou sem. Há algo de extraordinário em relação a festas públicas e particulares que ocorrem sem parar em todo o globo. Se você desconsiderar a superlotação, a embriaguez, o sexo casual, o uso de drogas, música excessivamente alta, ainda assim é surpreendente o quanto elas podem ser benéficas. Celebrações humanas normalmente são pacíficas.

Sim, outros animais formam grandes rebanhos e bandos enormes. Mas você nunca verá 80.000 zebras sentarem educadamente para assisir um concerto, ou, 10.000 leões dançando juntos sem que haja uma carnificina. Animais selvagens conseguem fazer muitas coisas que nós não podemos, mas eles não sabem festejar.

É verdade que algumas festas podem ser perigosas. Em geral, as que têm gente demais, são mal iluminadas e, por vezes, ilegais. Pessoas gostam tanto de festas que correm riscos de morte, prisão ou ver ira dos pais por participarem ou darem uma festa. Oktoberfest. Carnaval. Véspera de Ano Novo. Festanças de aniversário. Festivais. Shows beneficentes. Festas de Natal. Festa se tornou tão importante que passou de substantivo para verbo.

Mas por que nos reunimos em salas escuras, ingerimos substancias que nos deixam confusos e pulamos para cima e para baixo durante horas? A resposta rápida é: ninguém sabe.

Surpreendentemente, apesar de as festas ocorrerem o tempo todo, há pouco estudo sobre o assunto. Talvez a coisa mais próxima de um “professor de festas” é Peter Stromberg, um professor de antropologia na Universidade de Tulsa, e autor do livro “Caught in Play: How Entertainment Works on You” [Pegos Brincando: Como o Divertimento mexe com você]. Seu livro diz que festas e a diversão estão cada vez mais poderosas, variadas e viciantes.

“Não há falta de investigação sobre a celebração e o ritual de diferentes povos. O que não se faz normalmente é aplicar essa investigação às festas normais de todos os dias nas sociedades ocidentais, apesar de sua importância óbvia”, disse Stromberg em uma entrevista recente.

Stromberg escreveu recentemente um texto para a revista Psychology Today intitulado “Party On, Dude” [Continue festejando, camarada], sugerindo que a festa pode ser algo bem mais significativo do que a maioria de nós imagina. Ele vai mais longe, afirmando que as festas podem ser a fonte da imaginação humana. Stromberg não é tendencioso, pois raramente vai a festas. Mas entende que festas, rituais e celebrações abrem a porta para novas idéias e experiências. Antes das festas, a vida era principalmente a busca pela sobrevivência.

“Festas e celebrações passam às pessoas a idéia de que há (algo) mais além de sua experiência cotidiana. Em tais eventos, sentimos emoções que não estamos acostumados e nos vemos fazendo coisas que realmente não tínhamos a intenção de fazer.”

Stromberg credita ao pai da moderna sociologia, Émile Durkheim, a sugestão de que rituais humanos e celebrações foram um fator chave no desenvolvimento da civilização. Ele acredita que o mundo moderno está colocando mais e mais pressão sobre as pessoas, mas oferece uma compensação por oferecer muitas maneiras de se divertir e festejar. Hoje em dia, nós temos festas de boas-vindas, festas de blocos, festas temáticas, festas de despedidas, festas de elenco, festas de lançamento, pré-festas, pós-festas e raves, para lembrar de algumas.

“As coisas malucas que as pessoas fazem nas festas é um resultado da crescente sensação de que eles estão em outro plano de existência”, disse ele. “As regras normais não se aplicam e você pode relaxar e desabafar.”

De acordo com Stromberg, existem dois tipos de festas:

O primeiro tipo são as festas em que você pode reforçar ou promover os valores, como reuniões religiosas, festas empresariais ou festas de Natal. Geralmente, essas festas comunicam: “Deus gosta de nós”, “Tivemos um bom ano”, “Somos uma empresa grande” ou “Isso é um ótimo produto”.

Depois, há as festas que Stromberg chama de “rituais de inversão.” Estas nos permitem agir à noite de modo oposto à como nos comportamos durante o dia.

Nas festas de reversão, as pessoas ricas podem se vestir como se fossem pobres e os pobres como se fossem ricos; pessoas reprimidas poderiam agir de maneira mais liberal. Um grande exemplo disso foi a popularização da festa de Halloween para adultos, algo que sempre mobilizou mais as crianças. Todos nós provavelmente já vimos machões vestidos como mulheres de seios grandes, mulheres sexualmente reprimidas vestidas como prostitutas, pessoas anônimas fantasiando-se de celebridades. As festas podem ajudar as pessoas a exorcizar raivas e frustrações, sem causar danos reais. Mas isso não responde a pergunta de onde vêm as festas.
Frans de Waal, um renomado primatologista da Universidade Emory em Atlanta, e autor de Our Inner Ape [Nosso macaco interior], tem uma teoria. Ele diz que quando os pesquisadores trazem comida para os chimpanzés, eles entram em estado de “celebração”.

“Quando trazemos comida para eles dividirem, os chimpanzés começam a beijar, gritar e abraçar e até mesmo dar tapas uns nas costas dos outros”, disse ele. “Talvez antes do jantar dos humanos, um beijo, assobios, abraços e até tapinhas sirvam a um propósito semelhante. “Isso reduz as tensões antes que o alimento chegue”, disse De Waal. “Com os chimpanzés, depois da “celebração”, qualquer um pode alimentar mais a vontade.

Enquanto as celebrações básicas podem existir até entre macacos, o homem levou isso para um nível totalmente novo. No início, os humanos aprenderam rapidamente que viveríamos muito mais tempo se nos reuníssemos em grupos, e esses grupos encontraram força e confiança no movimento. Os primeiros humanos caminharam juntos, comiam juntos e dançavam juntos à noite.

Os humanos provavelmente celebravam seus deuses e festejavam, ao mesmo tempo ampliando o perímetro de segurança e de confiança, e criando danças cada vez mais sofisticadas para manter os predadores e grupos humanos inimigos afastados. Mas a festa estava apenas começando. Os seres humanos desenvolveram uma habilidade relativamente invisível entre animais – o ritmo.

Um grupo de socialização entre chimpanzés rapidamente competirá pelo domínio sexual, formando nesses ajuntamentos rígidas hierarquias e violentos confrontos de acasalamento. Pesquisas anteriores sobre os rituais de dança e de celebração apresentam a mesma suposição sobre os seres humanos. Um grupo de dança é supostamente apenas um grande ritual de acasalamento. Possivelmente, ao compensar o nosso potencial para a competição básica e agressão com rituais de partilhar, presentear, beijar e dar tapinhas, tudo isso tenha mudado.

Ao contrário de nossos ancestrais, os seres humanos desenvolveram uma cultura para lidar com o desconhecido e a empolgação com novas experiências e definiram tudo isso com uma batida ritmada. Isso preparou o caminho para o surgimento de grandes cidades e da cultura de mercado, onde as pessoas negociavam com estranhos para benefício mútuo.

“Portanto, pode-se dizer que os rituais de êxtase humano e celebrações são o próprio fundamento da sociedade humana”, disse Stromberg.

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