Bri

Ilustração de Sofia Pacitti Ilustração de Sofia Pacitti

 

Essa é sobre o pequeno brinco que escorregou da orelha de uma menina ao se desprender da tarracha.

Curiosamente  –  não me pergunte como – ele passou a falar, pensar e ser capaz de andar por lugares muito mais interessantes do que a velha caixinha de jóias.  Por isso a vida para ele começou naquele exato momento.

Ainda meio zonzo com a queda, deu uma soprada na poeira que o cobria – já notou que brincos sempre caem em um canto poeirento? – espirrou duas vezes e decidiu que precisava ir a um parque com árvores , sol e se possível, passarinhos.

Foi fácil sair rolando pela porta da sala, depois pelo elevador e cair na calçada.  Ao ver uma vovó empurrando o carrinho de bebê , imaginou que ela pudesse estar indo ao parque.  Assim que eles se aproximaram, deu um pulinho exatamente para dentro do carrinho, acomodando-se em uma sacola cheia de brinquedos de borracha, fraldas descartáveis e um babador, objetos que só vira de longe.

Ah, o ar puro. Que sensação maravilhosa o vento fresco, que bom estar fora da caixinha!

O carrinho seguia na calçada e tudo lhe parecia espantoso, como dezenas de formigas em fila indiana que carregavam folhas e depois sumiam por um buraquinho no chão. Viu também um cachorro vira-lata que caminhava garboso com ares de quem vai resolver algo muito importante. Viu senhoras de vestidos coloridos arrastando seus chinelos e conversando em voz alta.

Fascinado, observou uma borboletinha de asas arroxeadas, quase transparentes, que veio voando baixinho, baixinho, até pousar perto da sacola com brinquedos e fraldas, bem ao seu lado. Ela também parecia espantada com ele, pequeno e tão brilhante quanto as pedrinhas no fundo do riozinho do parque. Para todos os efeitos, nesta história o riacho do parque tinha águas limpas e transparentes, nada parecido com a maioria dos rios urbanos de hoje em dia.

“A senhora me desculpe a franqueza”, o brinco disse à borboletinha, “mas eu nunca vi cor tão linda como a das suas asas.  Posso chamá-la de Brô?”

A borboleta fez uma mesura com as asinhas e respondeu com voz de ultrassom: “ Bem, eu também nunca tinha visto uma pedrinha com essa pontinha espetada, e mesmo assim você é mais brilhante do que todas as pedrinhas do rio.  Vou chamá-lo de Bri!”

O brinco percebeu que haviam chegado ao parque, escorregou do saco de brinquedos, deu uma quicada na terramacio e pediu à borboleta que lhe mostrasse o riozinho de pedras brilhantes, onde também as crianças molhavam os pés e jogavam pedacinhos de pão para atrair os girinos que brincavam ao fundo.

Foi fácil chegar ao rio pela concentração de passarinhos no céu e pelas risadas das crianças que vinham de lá. Bri ia pulando e Brô (a borboleta) sobrevoando, um mais afobado que o outro, até que deram de cara com o reflexo do sol batendo na água tremida. “Isso é que é vida!”, pensaram ao mesmo tempo Bri e Brô.

Enquanto a borboleta voltava ao ar, Bri experimentou ir ao fundo do rio e ver o que acontecia lá embaixo, inclusive descobrir muitas outras pedrinhas – brilhantes como ele – rolando pra lá e pra cá com o movimento da água.

Agradeceu entusiasticamente a ajuda de Brô no passeio.  Aí, pela primeira vez na sua curta vida, sentiu aquela felicidade tamanha. Não conseguia imaginar melhor lugar do mundo para morar do que lá no fundinho, cheio de reflexos, girinos, sombras de pássaros e água aconchegante por todos os lados.   Com curiosidade infantil, sua mente flutuava por todo aquele espaço líquido, cheio de energia e cores.

Assim a história termina.  Mesmo para um brinco falante, não é todo dia que alguém se depara com tantas descobertas e se dá conta de que a plenitude possa se apresentar tão simples.  Mesmo depois de levar um tombo e cair, zonzo e esquecido, em um canto cheio de poeira.

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