Marina Silva: “Fé e ciência podem coexistir perfeitamente nas relações humanas”

Texto de Paulo Totti publicado originalmente no Valor Econômico

Como devo chamá-la? Ministra? Senadora?

– Senadora já passou, ministra já passou. Não precisa também me chamar de professora. Então, é Marina mesmo.

Essa acreana nascida num aglomerado de palafitas chamado Breu Velho está no bairro dos Jardins em São Paulo, no restaurante Dui, da chef Bel Coelho. Aos 53 anos, parece à vontade num ambiente em que executivos paulistanos preenchem em boa mesa o intervalo de dois turnos de trabalho.

Nada aqui lembraria os primeiros 15 anos de vida dura de Maria Osmarina Silva de Souza, hoje Marina Silva Lima, no Seringal do Bagaço, a 70 quilômetros de Rio Branco – a não ser, com boa vontade, a palmeira-anã às suas costas, por trás da parede envidraçada.

Acreditem, Marina Silva descontrai-se. Sorri sem gargalhar e, se for o caso, critica sem se exaltar. Conserva a tempestuosa facilidade de expressão das suas aparições públicas. “Era um agente político institucional, agora sou um agente político cidadão. Pensava que, sem mandato, a vida ficaria mais leve. Confesso que não tem sido leve até agora.” Faltam dois anos para Marina aposentar-se. “Acabamos com a aposentadoria especial. Conto o tempo de contribuição como todo o mundo: professora de ensino médio no Acre, vereadora, deputada estadual e senadora de dois mandatos. Agora vou ter que pagar avulso, né?”

“Agente político” é expressão originária da relação de Marina com organizações sociais, associada à formação de pedagoga, acostumadas ambas atividades ao uso de verbos peculiares como metabolizar, hegemonizar.

Agora que não mais ocupa um apartamento funcional, mantém sua casa em Rio Branco, alugou outra em Brasília e procura local para a sede da Fundação Marina Silva. Alguns dos jargões referidos acima estão sendo fartamente usados, Brasil afora, na sua mais nova campanha: “oxigenar” o Partido Verde (PV), a que aderiu em 30 de agosto de 2009, um ano depois de deixar o Ministério do Meio Ambiente e o PT. No ano seguinte, 19.638.359 brasileiros digitaram o seu número, 43, no primeiro turno da eleição para presidente.

– Não está sendo mais difícil conquistar maioria dentro do PV do que os eleitores brasileiros em 2010? Foram 19,33%, mais do que os 16,08% que levaram Lula ao segundo turno contra Fernando Collor em 1989.

– Se foi possível unir o partido para cumprir a primeira parte da agenda que ele mesmo havia aprovado, que era a candidatura própria, espero que seja possível cumprir a segunda parte, assumida quando me convidaram, que era a revisão programática e a reestruturação democrática do partido.

Para este “À Mesa com o Valor”, a assessoria de Marina escolheu o restaurante Dui, onde, segundo uma crítica de gastronomia na internet, as saladas são dos “deuses” e os risotos, “di-vi-nos”. Marina está alheia a tais entusiasmos. Eis o seu pedido: peito grelhado de frango orgânico, batatas ao murro, minilegumes, azeite e suco de laranja sem gelo. Das três minúsculas batatas cozidas e socadas com a mão pelo cozinheiro, sobrarão uma e meia no prato de Marina. Os dois assessores da ex-senadora preferem o suculento Saint-Pierre, com salada de quinia e pesto de hortelã.

“A senhora aceita uma saladinha de entrada? Sem queijo, sem manteiga, sem cogumelos Paris. É isso?”, pergunta Ana, a solícita atendente do Dui. “Poxa, você se lembrou de tudo. É isso mesmo”, responde Marina. “Comigo não precisa ser tão vigilante”, apressa-se o repórter. “Pode deixar, vou ser mais flexível”, diz Ana, anotando salada completa para o repórter – e também para a fotógrafa Ana Paula -, mais a posta alta de robalo com crosta de farinha panco, molho de castanhas de caju e uvas-passas brancas, em cama de palmito pupunha. Para compensar tanta luxúria sólida, suco de melancia.

“Em todo restaurante tenho que pedir não ponha isso, não ponha aquilo, queijo não, leite não, camarão não. Essa moça guardou tudo e só vim aqui uma vez!”, espanta-se Marina.

– Tanto cuidado tem alguma razão?

– Sou muito alérgica.

– A senhora então não aceitaria um camarão na moranga com leite de coco, oferecido pelo presidente do PV, Luiz Paulo Penna?

– Nossas divergências não chegam a tanto, com certeza. Somos civilizados. Mas queijo, camarão, é morte certa.

As condições de vida nos seringais do Acre deixaram sequelas. Numa família de 11 irmãos (3 morreram ainda infantes; e a mãe, dona Maria Augusta, quando a adolescente tinha 15 anos), Marina contraiu cinco malárias, três hepatites, uma leishmaniose (há dois anos, dengue), além de contaminação com metais pesados. “Tudo isso deve ter bagunçado meu sistema imunológico”, diz.

Agora Marina, ereta, passo firme, se sente bem, “graças a Deus”, à exceção de alguns picos de pressão durante a campanha eleitoral, tratados a partir de então com medicação diária de anti-hipertensivos.

– A senhora gosta de tomar remédios ou prefere homeopatia?

– Evito antibióticos, até porque sou alérgica a muitos deles. Mas, se for preciso, faço homeopatia, acupuntura e até tomo remédios. Não tenho preconceitos. Prefiro mesmo é uma alimentação saudável.

A ex-ministra não cozinha. “No máximo, baião de dois, pato no tucupi e farofa.” Aos 16 anos, no colégio das Servas de Maria em Rio Branco, onde foi para finalmente alfabetizar-se, a irmã Cristina queria ensiná-la a cozinhar. “Quando dava uma folga, ia cuidar das galinhas, dos jardins, da horta. Desde criança gostava mais das atividades da roça, cortar seringa, qualquer coisa menos ir para a cozinha.”

Marina também não fuma nem bebe. “Bebida alcoólica, só tomei Biotônico Fontoura com Emulsão de Scott. E era dose dupla. Minha avó me fazia limpar a colher. Fumar, foi só uma vez. Meu pai deixou um pedaço de cigarro que a gente chamava de ‘papelim’. Provei e quase morri de vomitar.”

A sexta-feira deste almoço encerrava uma semana de intensas articulações de Marina em São Paulo, que culminaram em uma grande reunião de simpatizantes de sua posição dentro do PV. Decidiram criar o Movimento de Transição Democrática e assumir o enfrentamento com a direção nacional do partido, que, sem consulta às bases, prorrogou por um ano o mandato do presidente Penna. Esse potiguar radicado em São Paulo, onde foi vereador e se elegeu deputado federal em 2010, empolga a máquina partidária há 12 anos, com apoio de diretórios regionais nomeados por ele próprio, sem eleição. Marina diz que não quer deixar o PV, mas quer um PV diferente.

Para Marina a campanha de 2010 contou com a adesão de milhões, “mobilizados espontaneamente para o projeto”. São pessoas “independentes, abertas, muito críticas” que não suportariam sequer uma aliança com uma superestrutura fechada, “petrificada”, como a atual. “O partido metaboliza isso ou corre o risco de não fazer jus ao seu próprio legado.”

Ela não deseja um partido de massas nem um partido de quadros. “Não acredito na velha ideia dos partidos que hegemonizam o conjunto da sociedade nem no partido de meia dúzia de iluminados que vai dirigir a sociedade.”

– Uma interrupção, Marina. A senhora conhece algum Estado onde o PV não apoie todos os governos ao mesmo tempo, o municipal, o estadual e o federal?

– [Breve pausa para meditação] Talvez seja injusto generalizar…. O PV no Rio de Janeiro, do [Fernando] Gabeira e do [Alfredo] Sirkis, não está no governo…

– É, o Sirkis deixou de ser governo quando o César Maia deixou a prefeitura.

– O PV é um partido aberto para fazer alianças. Não tem essa de recorte ideológico, esquerda e direita. O importante é que a participação num governo signifique compromisso programático. Se a agenda prosperar, é uma contribuição para o Estado e para a vida das pessoas. Se não prosperar, não tem porque ficar no governo. Sou contrária à cultura de cargos pelos cargos.

Marina prossegue de onde estava antes da interrupção. “O partido deve interagir com os diferentes segmentos da sociedade, fazer parcerias, ter uma atitude de retroalimentação. Não só em época de eleição. Para disputar o poder, primeiro é preciso ter ideias, projetos, senão vira disputa do poder pelo poder. Não é esse o nosso propósito. Para mim, pelo menos, não é.”

Encerrada a declaração de princípios, Marina, que é contra o voto em lista fechada e a favor do voto distrital, anuncia uma contribuição à reforma política: candidaturas avulsas. Em todos os níveis, desde as câmaras de vereadores à Presidência da República – “começando, talvez, por uma experiência de nível intermediário e ir aprofundando”.

– Qualquer um pode ser candidato?

– Tem que haver critérios. Plataforma registrada na Justiça Eleitoral, número determinado de eleitores que subscrevam essa plataforma. Tem que ter compromissos, não pode ser candidato de si mesmo, só porque tem dinheiro, exposição na mídia.

Marina diz também que não quer ser presidente do PV depois das mudanças. Aliás, fundadora do PT e da CUT no Acre, o primeiro lugar na hierarquia regional foi, enquanto viveu, do seu companheiro ambientalista Chico Mendes. “Nunca pretendi presidências de organismos partidários. E também nunca nomeei amigos ou parentes, em Brasília ou no Acre”. Seu marido, o técnico agrícola Fábio Vaz de Lima, trabalhou e ainda trabalha, “por méritos próprios”, nos governos do PT no Acre em projetos ambientais. “Preferiria que estivesse comigo em Brasília.”

Do casal de filhos do primeiro casamento, a psicóloga Shalom, de 29 anos, trabalha na Embrapa, em Brasília, “aprovada em concurso”; Danilo, de 28, é publicitário, também no Distrito Federal. Do casamento com Fábio, Moara, de 21, estuda direito na Universidade Nacional de Brasília (UnB) e Mayara, de 18, jornalismo na Católica de Campinas.

As primeiras letras Marina só foi dominar aos 16 anos, mas, depois do Mobral e de dois supletivos acumulados com a frequência de aulas normais do primeiro e segundo graus, aos 20 anos já estava na lista dos aprovados no vestibular para a faculdade de história da Universidade Federal do Acre. Seguiram-se uma especialização em psicopedagogia na Universidade Católica de Brasília e de teoria psicanalítica na UnB. A campanha presidencial do ano passado interrompeu a conclusão de uma nova especialização em psicopedagogia com a argentina Alicia Fernández. A mestra vem a Brasília para dar o curso de dois anos e o quarto e último módulo, a ser seguido em Buenos Aires, coincidiu com o auge do período eleitoral. Essa é uma tarefa que, entre palestras pelo Brasil e reuniões do PV, Marina quer concluir já em outubro.

– A tragédia do Japão reabre a discussão sobre energia nuclear. A senhora é da corrente ambientalista que, desde antes da criação do PV, há 21 anos, é contrária às centrais nucleares no Brasil. Acha que o debate deve ser reaberto?

– Acho o debate muito salutar. Como ministra, fui contra novas centrais. A energia nuclear, além de muito cara, não é segura, como ficou dramaticamente demonstrado no Japão. Na realidade brasileira não há necessidade de centrais nucleares. Nosso potencial é enorme em hidreletricidade, sol, vento, biomassa. Não tem porque investir o dinheiro do contribuinte para gerar essa energia que pode nos levar a situações de risco. Nem precisa de terremoto. Chuvas e deslizamentos já nos criam graves problemas de segurança. Acho o debate necessário e a melhor forma de dar-lhe consequência seria um plebiscito, perguntar aos brasileiros o que acham dessa fonte de energia no contexto de nossa realidade.

Marina reflete sobre o desastre do Japão e as lições que deixou para a humanidade. Constata, por exemplo, que o homem ficou tão confiante no avanço de sua tecnologia que se tornou arrogante. E agora ocorre uma “reconexão com a condição humana, com aquilo que somos de fato: seres potentes, mas não onipotentes; cientes, mas não oniscientes. De repente, vem a onda, mata milhares de pessoas, joga o navio em cima das casas, no meio da rua”.

– A senhora é profundamente religiosa. Foi católica, agora pertence à Assembleia de Deus. A senhora é criacionista?

– Essa é uma questão importada dos Estados Unidos. Não está na realidade dos brasileiros. Fui a uma escola adventista e me perguntaram se o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas adventistas. Respondi que sim, se também se ensinasse o evolucionismo. Daí fizeram uma tremenda exploração durante a campanha. Em verdade, numa escola que já ensinava apenas o criacionismo, sugeri que também se ensinasse a teoria de Darwin.

– Afinal, a senhora é criacionista ou evolucionista?

– Não preciso fazer essa escolha, fé e ciência podem coexistir perfeitamente nas relações humanas. Não preciso justificar cientificamente a minha fé. E não preciso de uma fé para negar a ciência. Acredito que Deus criou todas as coisas e isso me basta. Aliás, muitos grandes homens da ciência creem em Deus. E muitos que nada creem são testemunhos vivos do amor de Deus. Um exemplo? Freud, que nunca foi crente.

– Sobremesa? Café?

– Uma rodelinha de abacaxi. Café me dá taquicardia. Chá preto, chá da Índia, também. Até camomila me dá taquicardia.

– Mais duas perguntas, então. A primeira: por que não se pronunciou a favor de uma das duas candidaturas no segundo turno?

– Olha, é tentador se colocar como condutor de um contingente de pessoas que supostamente seriam levadas a dar vitória a alguém, ter a ilusão de que você decidiu a eleição. Difícil é ficar independente. Preferimos propor que os candidatos se comprometessem com as nossas posições. Eles concordaram, mas infelizmente não levaram isso aos debates do segundo turno. O resultado positivo foi que a eleita, presidente Dilma, se comprometeu a vetar o Código Florestal nos termos propostos pelo deputado Aldo Rebelo. Comprometeu-se com o povo brasileiro, não comigo.

– Como eram suas relações com a Dilma?

– No governo, a convivência com a ministra Dilma sempre foi respeitosa. Não me coloco como vítima. Tínhamos divergências, discutíamos de igual para igual, de forma equilibrada, tranquila, e quem decidia era o presidente Lula. Saí quando percebi que o ministro dos Assuntos Estratégicos, Mangabeiro Unger, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, e outros estavam levando o presidente a cometer o erro histórico de revogar as medidas de combate ao desmatamento na Amazônia. Saindo, ajudei a preservar as medidas, pois o presidente decidiu mantê-las. A ministra da Casa Civil não teve participação nessa história. Torço pelo governo dela. Se tiver um bom projeto para o Código Florestal, vou apoiar. E espero que tenha.

– E os primeiros cem dias de governo?

– É governo de continuidade, fica mais difícil ver diferenças. Acho que há algumas inflexões positivas, como essa da política externa, a visão mais crítica em relação ao Irã, destaque aos direitos humanos e às liberdades políticas. Lula, por sua própria história, era mais político, protagonizava o tempo todo. Dilma, com atitude mais gerencial do que de liderança, é mais discreta. Algumas pessoas veem isso como positivo, não é? Na agenda econômica o governo Lula não trouxe muitas mudanças, porque manteve o que estava em curso no governo de Fernando Henrique. A inflexão importante que Lula fez foi na agenda social. Li a entrevista da presidente Dilma ao Valor. Ela entra, ela mesma, em questões técnicas da política econômica. E aí há diferenças entre ela e Lula. Este se resguardava mais. Causa-me certa preocupação quando o presidente, ele próprio, se associa de antemão a uma tese e defende essa tese. Para quem teria de exercer o papel de mediador, de árbitro, talvez seja uma exposição relativamente grande. Mas é só intuição minha. Três meses é muito pouco para julgar. Eu não gostaria, se eleita, de ser avaliada em três meses.

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