A fauna social

Ed René Kivitz

Vejo a Caras quando vou cortar o cabelo. Nem sei porque faço isso. Simplesmente faço. É meio automático, entro e vou procurando a edição mais nova na pilha de revistas. Outro dia, entre uma foto e outra me ocorreu de analisar a fauna social. Foi meio de repente. A ideia me chegou como para ser usada numa legenda de foto. Imaginei uma colagem de todas aquelas fotos da revista, tipo um painel, com a legenda: a fauna social. Logo em seguida começou a descer um texto, como se eu estivesse sendo vítima de um download involuntário. Sem muita elaboração comecei a classificar as personagens em categorias de acordo com três critérios: berço, grana e consciência. Dali em diante não parei mais de pensar na coisa e deu nisso que você está lendo.

Abri uma gaveta para “os que são”, isto é, os que têm berço, grana e consciência. São raríssimos. Quase não aparecem. Não fazem questão de aparecer, e inclusive tenho a impressão que se escondem. Na verdade, os que são não precisam aparecer. Não ganham nada aparecendo, e de fato só têm a perder com a exposição pública. Aparecem pela simples razão de serem inescondíveis. Quem é, não consegue passar despercebido. Cedo ou tarde é flagrado por um clik geral;mente intruso ou indiscreto. Esse pessoal é descolado, desencanado, simples sem ser simplório, chic sem ser esnobe, elegante, mas sem ostentação, rico sem afetação, culto sem ser pernóstico (perdoe a lista de pleonasmos).

Coloquei “os que pensam que são” em outra gaveta, a dos que têm berço e grana, mas não têm consciência. São vazios. Respeitados pelo dinheiro ou pelo sobrenome, se ficarem pobres (o que é difícil) serão descartados. Vivem rodeados de amigos de ocasião, alguns puxa sacos, um sem número de chupins e não poucos interessados em alguma migalha eventual. Estão na roda, mas são motivo de piada, e não desconfiam que posam de ridículos.

Na gaveta ao lado coloquei “os que morrem de vontade de ser”, os que ganharam dinheiro para entrar na roda dos que são, mas não têm berço nem consciência, e por isso nunca serão. Porque estão na mesma roda, pensam que são, mas não são, ou melhor, são. São patéticos.

Arrumei também uma gaveta para “os que já foram”, o pessoal que têm berço, mas perdeu a grana e não tem consciência, se é que um dia teve. Vive do sobrenome, dos contatos e das velhas amizades. Alguns razoavelmente conscientes da situação, estão se virando como podem, outros ainda desfilam com o nariz empinado e não se dão conta de que “o rei está nu”.

Há uma gaveta para “os que um dia serão”, mas ainda estão por aí e a gente não sabe deles porque ainda não são nem ficam querendo ser ou mostrar que são, pois senão jamais seriam. Perto deles fica uma gaveta especial, que reservei para os que nunca serão: os pobres, que geralmente trabalham para o resto da turma, muitos dos quais, inclusive com muita consciência, mas pela falta da grana nunca serão considerados entre os que são.

Encontrei um pessoal que não quis gaveta. São “os que não estão nem aí para essa coisa de ser ou não ser”, que também estão circulando, geralmente sem ser notados e sem a menor preocupação em se fazer notar. Alguns destes são, outros jamais serão. Têm em comum o fato de não estarem preocupados com o que os outros pensam que são, pois eles mesmos sabem quem são, e isso lhes basta. Alguns têm berço e grana, outros só têm a grana ou ainda só berço, e alguns poucos não têm berço nem grana. Mas todos têm consciência.

Fiquei imaginando o que passa na cabeça dessa gente toda. Quem são os mais felizes. Ou infelizes. Os que são, são, e os que não estão nem aí para essa coisa de ser ou não ser, na verdade são. Ou não se preocupam com a felicidade ou sabem que ser feliz é ter consciência, inclusive a consciência de não ser feliz, afinal, o que é mesmo essa tal felicidade?, perguntam sem esperar a resposta, pois querem mesmo uma vida digna. Os que já foram talvez se lembrem do tempo em que foram e provavelmente guardam magoas dos culpados pelo fato de não serem mais, ou amargam a culpa por se sentirem responsáveis por não serem. Imagino que alguns que já foram devem se sentir aliviados pelo fato de não serem mais, estarem fora da prisão, mas duvido que existam, pois se pensassem assim ainda seriam, e se consideravam o ser uma prisão é porque não eram.

A respeito dos que pensam que são, os patéticos, imagino coisas contraditórias. Às vezes acho que no fundo sabem que não são, e devem sofrer um bocado, mas sem perder a pose, e então merecem sofrer mesmo. Mas para falar a verdade, acho que os que pensam que são não pensam, ou não pensam em nada além de pensar que são, e nesse caso se parecem com um cachorro bobo alegre que a gente não precisa nem ter pena, pois são felizes porque pensam que são. O que a gente precisa é ficar por perto para o dia em que descobrirem que não são. Aí sim, talvez sofram e comecem a pensar, e pensar em outra coisa além de pensar que são, o que, aliás, é inevitável, terão que pensar também que de fato nunca foram.

Eu não queria estar na pele dos que morrem de vontade de ser. São réus de crimes inafiançáveis: sabem que não são, tanto é que morrem de vontade de ser, e justamente porque não são mas morrem de vontade de ser, desperdiçam o que são gastando o que têm e o que não têm tentando ser. Ganhariam mais se assumissem o que são, isto é, que não são o que morrem de vontade de ser, e assim poderiam desfrutar o que de fato são, e quem sabe um dia até poderiam vir a ser, mas aí teriam vindo a ser baseados no que são e não no que morriam de vontade de ser.

Fico a considerar que felizes mesmo são os que sabem que são, pois para esses já não importa se são ou não são, só importa o que sabem que são. E viva Hamlet. Ou Shakespeare, sei lá, eis a questão!

Ah, já ia me esquecendo de sublinhar que o texto é sobre a fauna social e não sobre a fauna humana. Em relação à fauna humana não existe classificação do tipo ser ou não ser. Na fauna humana todo mundo é. Inclusive aqueles que não acreditam que são.

fonte: Blog do Ed René Kivitz

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