Deus, nós precisamos de amigos ateus

Frank Fredericks, no Huffington Post

Na melhor das hipóteses, o discurso de cristãos evangélicos e ateus sempre foi totalmente oposto. Seja Richard Dawkins chamando a fé de “a grande fuga”, ou inúmeros cristãos usando “ateu” como uma ofensa pejorativa, o nível sempre tende a cair. De fato, geralmente a discussão se reduz a uma torrente de argumentos de lógica própria ou simples discussão apologética. Eu abomino essas conversas com o mesmo desdém que reservo ao ver o fogo cruzado entre políticos de partidos que se atacam mutuamente em público.

Acredito que nós precisamos revolucionar o modo como interagimos. Como cristão evangélico, reconheço que a minha comunidade muitas vezes equivale o ateísmo à pedofilia, com algum buraco negro espiritual, que suga qualquer traço de compaixão ou de moralidade. Mesmo nos círculos inter-religioso, onde a paz e a tolerância deveriam estar na agenda do dia, os ateus são frequentemente vistos com desconfiança – muitas vezes sequer são convidados.

Agradeço a Deus pelos ateus. Durante meus anos de faculdade na Universidade de Nova York, tive excelentes oportunidades de travar diálogos poderosos com os ateus que me desafiaram a falar francamente sobre minha fé. Eu aprecio e valorizo como meus amigos esses ateus que encorajam a investigação. Mesmo que essa possa não ter sido a intenção deles, apenas fortaleceu minha fé. Quando eu era capaz de começar a eliminar os pontos vazios do discurso, espero que eles também tenham tido um vislumbre do amor de Cristo a partir de um evangélico que não estava pregando a condenação ou ofereceu um panfleto dobrado em três sobre como eles precisam de Jesus em sua vida.

A questão é que os cristãos precisam parar de ver os ateus, sejam seus vizinhos, colegas de trabalho, ou mesmo membros da família, como pessoas moralmente perdidas, eternamente condenadas, ou como um possível novo convertido.

A base disto é a suposição, defendida por muitos líderes cristãos, que as pessoas religiosas têm o monopólio sobre a moralidade e os valores. Ou seja, em certo sentido, você não pode ser bom sem Deus. Isto é preocupante em vários níveis. Embora à primeira vista pareça teologicamente seguro assumir isso para o conceito tradicional de salvação, a maioria ainda não se deparou com a idéia problemática que, dependendo das decisões nos seus últimos momentos de vida, Hitler poderia estar no céu e Gandhi poderia estar no inferno. Isso deveria ser preocupante para nós.

Além disso, as ramificações culturais e sociais sempre levam a uma relação de antagonismo. A Bíblia está repleta de exemplos de pessoas que não eram religiosas (cristãos ou judeus), que fazem o bem aos olhos de Deus. Não deve nos chocar vermos ateus ensinando seus filhos a serem íntegros ou a se voluntariar para distribuir uma sopa comunitária.

Enquanto eu reservo a maior parte da minha frustração a quem abusa da minha fé, os ateus não são inocentes neste paradigma tectônico. Ao invés de escolher o caminho inclusivo de discordância respeitosa, muitas das maiores vozes do ateísmo consideram mais agradável depreciar a fé, satirizar a religião, e desconsiderar o seu valor cultural e sociológico. Na verdade, muitos consideram que é seu dever espalhar suas crenças com o mesmo fervor preconceituoso do qual fugiram em seu passado religioso. Sabendo que muitos vieram a se considerar ateus por causa de uma rígida educação religiosa, eu não julgo seu desprezo e frustração.

No entanto, como um veneno nas veias, isso nos impede de avançar para termos um discurso mais produtivo. Logo, muitas vezes em que as tradições religiosas e não religiosas lutam com a grande questão de nossa origem e destino, ou a própria natureza do homem, essas discussões acontecem separadamente, sem um envolvimento que seja frutífero e intrigante. Eu sei que muitos desses ateus teriam algo produtivo para trazer a esse debate, se decidissem parar de atirar pedras na janela e preferissem sentar à mesa conosco.

É isso que proponho aos meus amigos cristãos e ateus: Se nós, cristãos, desafiarmos a nós mesmos, nossas comunidades e congregações, a tratar os ateus como membros íntegros das nossas comunidades, na busca pela verdade, os ateus vão reconhecer o valor da fé para aqueles que acreditam, mesmo quando eles respeitosamente discordam? Com o ateísmo tornando-se rapidamente a segunda maior tradição filosófica em partes da Europa e da América, as duas comunidades têm uma maior necessidade de um entendimento mútuo, Ou seja, descobrir como podemos trabalhar coletivamente para resolver os maiores problemas que enfrentamos. O melhor começo seria reconhecer que não estamos falando sozinhos nessa conversa.

Não sabe como e onde podemos começar? Vamos juntos alimentar os famintos, vestir os nus, e proteger a dignidade humana. Ainda que o serviço à comunidade para eles pode ser algo totalmente racional, também estou certo que não teremos problema em ver Jesus junto conosco também.

Leia sobre o lançamento da bíblia humanista/ateísta AQUI

Tradução de Agência Pavanews.

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