Quem precisa das artes?

Texto de Grant DiCianni publicado originalmente na Crosswalk

Cresci em uma família de artistas que frequentavam uma igreja fundamentalista, por isso sempre ouvi coisas contraditórias sobre as artes. Para nossa família, a arte era a forma como meu pai ganhava a vida. Era a maneira pela qual a maioria dos meus brinquedos favoritos, programas de TV, comida e outras coisas chegavam até nós. Televisão, filmes e videogames eram uma forma básica de diversão para nós. Nunca víamos as coisas ruins – a lista “o que não pode ver” era mais longa do que a lista “o que pode ver”. Sempre tivemos vários meios de comunicação visual como parte de rotina diária.

No entanto, muitos dos meus amigos da igreja tinham muito menos acesso às artes do que eu. Várias famílias de nossa igreja não tinham televisão. Era uma escolha deles. Apresentações multimídia e artísticas nunca aconteciam durante os cultos. Para fazermos um show musical dirigido aos jovens da igreja, tivemos de pedir aprovação do conselho para mudar a iluminação. Somente assim as pessoas realmente poderiam ver os músicos. Era uma igreja grande e rica. Meu pai era um dos diáconos.

O conflito básico naquele tempo e que ainda enfrentamos em nossas igrejas e famílias até hoje, resume-se à questão: as artes são boas ou ruins?

Antes de examinar esse ponto, precisamos nos perguntar: “O que é arte?” Esta é uma dúvida antiga, mas por enquanto vamos apenas colocar tudo junto. As artes visuais: ilustração, pintura, animação, filmes etc. As artes performáticas: música, dança, teatro etc. Para nossa discussão, vamos resumir todas elas sob o título “as artes”.

Ao longo dos anos, ouvi de muitas pessoas, inclusive de muitos pastores, que “as artes são más!”. Elas são “ruins”, “não-cristãs”, principalmente porque os temas apresentados no meio artístico eram sempre algumas das coisas mais malignas, nojentas, perversas e antirreligiosas que já vi. Não vou perder tempo listando os títulos, mas da última vez que minha esposa e eu procuramos um filme para assistir, notei que “dar sua alma para o diabo” era um tema comum (e nem olhamos na seção de terror). Quase fiquei doente. Depois de ver aquilo, fica difícil reclamar de cristãos que desejam proteger suas famílias de certas coisas classificadas como “entretenimento”.

As artes têm sido usadas, especialmente nos últimos 150 anos, para propagar o impensável, glorificar o indesejável e encorajar o profano. Mas durante 500 anos antes disso, as artes eram usadas quase que exclusivamente para glorificar a Deus. Alguém se lembra do Renascimento? Foi um movimento que intentou proclamar as verdades da Escritura de forma visual para um público iletrado. E as músicas? Algumas das melhores e mais claras proclamações do Evangelho, de encorajamento bíblico, e de louvor ao Nosso Salvador foram (e ainda são) escritas em forma de canções. Alguns dos pastores, missionários e evangelistas mais influentes tiveram algum tipo de despertamento espiritual em que Deus usou alguma obra de arte ou música para atingir seus corações. Atualmente, temos programas de TV e peças de teatro evangélicas. Filmes como À Prova de Fogo e A Paixão de Cristo, músicas como o Messias de Handel e a obra de Don Moen, além de muitos outros artistas e produções, têm ganhado dezenas de milhares (talvez milhões) de almas para o Reino.

Como as artes podem ser tão perversas e, ao mesmo tempo, levar tantos a conhecer Cristo como Salvador?

Um teólogo chamado Calvin Seervald disse certa vez: “Qualquer área da qual os cristãos se retirarem vai para o inferno”. Você pensa que Hollywood já chegou lá ou ainda está no meio do caminho? E os desenhos animados? E a indústria da música? Uma amiga de minha esposa leu recentemente para ela a letra de uma música que sua filha escuta. Era algo tão sexualmente explícito que eu me apavorei. Mas isso não faz as artes ruins.

Então, qual é a resposta para nossa pergunta? As artes não são inerentemente boas ou más. Tudo depende do modo como são usadas. Elas podem glorificar a Deus, mostrar às pessoas sua necessidade de um Salvador, ou podem macular o sacrifício de Cristo, promover a maldade, e empurrar pessoas para o inferno. O que você prefere que elas façam?

Quero dar um último exemplo sobre o poder das artes. Há alguns anos, trabalhamos com uma igreja muito grande com o objetivo de incorporar um pouco de arte cristã em seus cultos. Eles juntaram nosso material com o sermão e imprimiram no boletim. Alguns dias depois, pedimos para ver como foi o resultado. A resposta foi significativa. Eles disseram que normalmente após um culto todo mundo largava o boletim e ia embora (estamos falando de milhares de folhas). Porém, depois do culto daquela semana eles não tinham nenhum boletim para guardar. Por quê? As pessoas os levaram para casa a fim de ter uma lembrança visual da mensagem que havia sido apresentada.

Não se engane: o mundo conhece o poder das artes melhor do que nós, especialmente as artes visuais. É por isso que tantos grupos criam filmes, músicas, vídeos e TV com uma mensagem contra Deus e contra a família. É por isso que os anúncios na TV são dez vezes mais caros que publicidade no rádio. Por isso que as empresas de cerveja gastam centenas de milhões anualmente em publicidade na TV, e uma pequena fração em publicidade impressa e no rádio. O visual exerce uma força poderosa. Como podemos utilizar essa força poderosa para o bem e para a glória de Deus?

Recentemente, conversamos com um executivo de Hollywood e ele disse: “Se soubéssemos que cristãos prestigiariam bons filmes cristãos, faríamos mais deles”.

Eu e minha família, juntamente com nosso grupo artístico Tapestry Productions, e muitos outros como nós, temos nos dedicado às artes durante muito tempo, usando-as para anunciar Cristo de maneira poderosa e com excelência. Nossa declaração de missão diz: “Indo por todo o mundo… através da arte!” Meu pai já me disse muitas vezes que uma parte do seu chamado é “recuperar a arte para Cristo”. Mas como podemos recuperá-la, se tantos cristãos ainda não a compreendem e se recusam a se envolver com ela?

Tradução: Jarbas Aragão
ilustração: Paulo Brabo

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