Estudantes lutam para defender identidade gay em universidades cristãs

A luta de aceitação pelos alunos gays e lésbicas se fortalece em dos lugares onde menos se poderia esperar: escolas bíblicas e universidades cristãs. Afinal, as crenças defendidas por elas ainda veem a homossexualidade como pecado.

Décadas depois que o movimento pelo reconhecimento dos direitos dos homossexuais tomou de assalto a maioria das instituições de ensino americanas, os gays e lésbicas que estudam em escolas cristãs começam a querer “sair do armário”. Recentemente, começaram a exigir o direito de proclamar sua identidades e rejeitam as sugestões de buscar ajuda para suprimir seus desejos sexuais.

Muitos desses estudantes cresceram em lares cristãos e desenvolveram sua identidade sexual somente depois de iniciar o ensino superior. Não raro, após anos de tormento interior. Eles fazem parte de uma nova geração de jovens evangélicos que, acima de tudo, tem opiniões muito mais brandas sobre a homossexualidade que os seus antepassados.

Diante das proibições de exibir um “comportamento homossexual”, muitos estudantes sabem que andar de mãos dadas com um parceiro, por exemplo, ou postar uma foto em um site gay poderia comprometer seus estudos ou até resultar em uma expulsão.

Alguns dos poucos colégios religiosos liberais, como a Universidade Belmont, de Nashville, que tem origem batista, relutantemente permite a formação de grupos de estudantes homossexuais.  Foram anos de intenso debate, e de a universidade já ter sabidamente forçado uma professora lésbica a demitir-se.

Mas a Baylor, maior universidade religiosa do país, com 15.000 alunos,  se recusa a aprovar um fórum de discussão sobre sexualidade.

“A Baylor espera que os alunos não participam de grupos que advoguem uma compreensão da sexualidade contrária aos ensinamentos bíblicos”, disse Lori Fogleman, porta-voz da Universidade fundada e gerida por batistas.

Apesar da rejeição, mais de 50 alunos continuam a fazer reuniões semanais para defender sua identidade sexual. Eles continuarão buscando o reconhecimento que viria com um status formal, disse Samantha A. Jones, presidente do grupo.

“O corpo discente em geral está pronto”, disse Saralyn Salisbury, namorada de Jones e também estudante da Baylor. “Mas a administração e os diretores ainda não”.

Foto: Samantha (esq) e Saralyn (dir)

Na Universidade Cristã de Abilene, no Texas, vários alunos são abertamente homossexuais, e muitos outros estão pedindo por mudanças nos bastidores.

“Queremos tratar destas questões complexas, e dar ajuda e orientação aos estudantes que estão lutando contra a atração pelo mesmo sexo”, disse Jean-Noel Thompson, vice-presidente do departamento de vida estudantil da universidade. “Mas não vamos aceitar a defesa de uma identidade gay.”

Na Universidade Harding, no Arkansas, pertencente à Igreja de Cristo, uma meia dúzia de alunos e ex-alunos criaram uma revista on line com relatos das lutas enfrentadas pelos estudantes gays. A universidade bloqueou o acesso ao site pelos servidores da rede interna, mas a medida só ajudou a popularizá-lo no mundo das universidades religiosas.

A maioria das escolas evangélicas afirma que não pune os alunos que admitem ter atração pelo mesmo sexo. Mas nos campi evangélicos, relações sexuais de qualquer tipo fora do casamento são proibidas para todos.

“Nossa universidade crê que existe uma uma grande diferença entre um estudante que está lutando contra seus sentimentos na vida privada e um aluno que, através de e-mails, do Facebook e em outros lugares diz: “Eu sou gay, este é o estilo de vida que defendo”, explica Jean-Noel Thompson.

A estudante Amanda Lee Genaro foi expulsa em 2009 da Universidade North Central, dirigida por uma instituição pentecostal. Segundo ela, porque havia se tornado mais segura de sua identidade gay. Ela lutava contra seus sentimentos até que participou em 2006 de uma reunião no campus feita pela Soulforce, grupo de alunos e ex-alunos gays de universidades religiosas que promovem debates sobre o assunto.

“Eu pensei: ‘Uau, talvez Deus ainda me ama apesar de eu gostar de mulheres”, lembra Genaro. Em 2009, depois de parar com o que chama de “terapia reparadora”, admitiu ter relacionamento com uma mulher e foi suspensa pela universidade. A condição para ela voltar seria rejeitar a homossexualidade. Genaro preferiu pedir transferência para uma escola não-cristã.

Esses estudantes dizem que muitas vezes são questionados sobre o motivo de continuar em escolas cristãs. A verdade é que muitos foram criados em lares cristãos e seus pais tinham a expectativa que eles fizessem parte de uma escola religiosa. Muitos já lutavam antes contra sua homossexualidade. “Eles chegam na escola”, como um deles explica, “esperando que a vida na faculdade os transformasse em heterossexuais. Mas depois percebem que isso não acontece, então desistem de mudar”.

Os alunos que se assumem dentro do campus dizem que é um alívio, mas que a vida continua difícil. Alguns dos estudantes gays acabam desiludidos com o cristianismo, tornando-se ateus, enquanto outros têm procurado igrejas mais liberais.

David Coleman foi suspenso pela Universidade North Central, durante seu último ano de estudos (2005), depois de ter distribuído panfletos anunciando um site pró-gay e admitiu ter relações íntimas (mas não sexuais) com outros homens. Hoje classifica o ambiente da sua antiga universidade de “violência espiritual”.

Hoje, aos 28, Coleman estuda no Seminário Teológico United, no Minnesota, administrado pela Igreja Unida de Cristo. Ainda sonha em se tornar pastor. “Eu tenho um chamado”, explica ele.

Agência Pavanews, com informações de The New York Times.

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