Brave New World

Helena Beatriz Pacitti

Miranda:
O wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is! O brave new world…

Prospero:
‘Tis new to thee.

(W. Shakespeare)

Miranda:
Ó maravilha!
Quantas criaturas formosas há aqui!
Como a humanidade é bela! Oh admirável mundo novo…

Próspero:
Novas? Para ti.

(livre tradução)

Ao Dadinho

Ando em constante estupefação.  Às vezes o ser humano me parece especial, quase divino.   Em outras situações, consegue mostrar sua face bestial, e mais cruel – lado regularmente estampado e vendido como entretenimento nas páginas dos jornais. O que me parece igualmente bestial e cruel.

Em um mundo perfeito, como diria Bertrand Russel, cada ser sensível seria para os demais objeto do mais repleto amor, constituído de prazer, benevolência e compreensão inextricavelmente combinados.  Mas esse nosso mundo é o real, não o perfeito.  Nele subsistem seres diante dos quais não podemos sentir nenhum deleite.  Não é novidade.  Caim e Abel, Esaú e Jacó, “O irmãos Karamazov”, Davi e Saul, Dr Jekyll and Mr Hyde: toda história está está repleta de contradições de caráter e comportamento.

Talvez não devesse, mas ainda sou cheia de fé nas pessoas.  Pode soar como besteira na escala cósmica ou ingenuidade na escala humana.  Essa crença também não provém de nenhum tipo especial de conhecimento, mas simplesmente do desejo.  Escrevi outro dia a um amigo que espera, na ala de isolamento de um hospital, seu segundo transplante de medula  óssea ‘pegar’: o milagre em que agora acredito é quando alguém decide viver a vida com coragem, simplicidade e o reconhecimento de pequenas alegrias, pequenas belezas e pequenas melhoras.  Não sei como vai acontecer.  Mas é o que lhe desejo.

Dois dos maiores escritores de todos os tempos, Dante e Shakespeare, lidavam bem com temas repletos de conspirações, amor e vingança, contrapondo os piores instintos do homem a figura etérea e espiritualizada de genuínas aspirações humanas.  Lendo The Tempest, por exemplo, descobri a adolescente Miranda deslumbrada com algo que jamais havia visto antes, ou seja: seres humanos simplesmente normais.  Seu fascínio evidenciou-se na exclamação que se tornou, séculos depois, o irônico título da obra prima de Aldous Huxley: ‘ Oh, admirável mundo novo…’ Mas – faço questão de repetir – o espanto inicial foi de pura ingenuidade e contentamento.

Estou escrevendo estas coisas depois de alguns dias difíceis e de notícias muito ruins vindas do Rio de Janeiro e de outras partes do mundo real. Escrevo porque há luto e pesar nas pessoas, porque a face cruel surgiu novamente.  Escrevo porque hoje é Domingo, que prenuncia uma nova semana.  Porque preciso a não me acostumar a ver a dor alheia e secretamente pensar: “Ainda bem que não foi comigo.”

Escrevo porque preciso crer no milagre, e ainda que não o explique, intensamente é o que desejo. Porque a vida é muito curta para se desejar errado.

fonte: Timilique!

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