A entropia da instituição

Paulo Brabo

Foi no dia do lançamento do O que eles estão falando da igreja; conversávamos, os autores que iam chegando, ao redor de uma mesa da cantina do Mackenzie e eu fiz uma das minhas intervenções usuais contra a instituição. Imediatamente, com doses iguais convicção e provocação, o Alessandro Rocha (que eu havia conhecido naquele momento) reagiu apaixonadamente:

– Mas o que é você está dizendo, Brabo? Até parece que você não sabe que a Bacia é uma igreja! Já faz algum tempo que venho pensando em escrever sobre isso, que a Bacia das Almas do Paulo Brabo é uma instituição e que é sem dúvida uma igreja.

E com essa verdade despiu-me ali mesmo, embora tenha tido a gentileza de não delatar-me diante do auditório quando “compomos a mesa” um ao lado do outro alguns minutos mais tarde.

Fazendo isso, o Alessandro (que de resto, e inclusive por isso, descobri naquele dia ser um cara absolutamente notável) abriu uma ferida que venho tentando tratar pelo menos desde meados de 2007. Em retrospecto, foi justamente a convicção de que estava criando uma igrejinha que me fez recolher deste sáite a caixa de comentários, para evitar (ou pelo menos retardar) a ilusão de que formávamos aqui alguma espécie de “comunidade”.

Embora exista oficialmente desde 2004, a Bacia não tomou fôlego até o dia em que fomos encontrados e levados a sério pelo Volney Faustini, isso talvez em algum momento de 2005. Nesse intervalo escrevi protegido e abençoado pela convicção de saber: publico “e ninguém lê” (como me disse naquela época minha irmã Alice, para me incentivar).

O que venho ponderando desde 2007, porque venho lutando contra ela de forma mais ou menos consciente desde aquela época, é essa curiosa e avassaladora tendência humana a institucionalizar (e assim anular) as boas intenções, tendência que mostra-se mesquinha o bastante para se materializar até mesmo em mim, que dou testemunho aberto contra ela, e entre aqueles que afirmam concordar comigo quando digo isso.

Acabei tendo de concluir que a institucionalização tem sua própria entropia, sua própria e particular lei da gravidade. Uma das leis da termodinâmica explica que os sistemas deixados por si mesmos tendem ao caos e à desordem; isso explica, para dar um exemplo que é uma enorme simplificação, porque a mais impecável das casas tende a ficar suja e bagunçada a não ser que você dispenda energia lutando contra essa tendência irreversível. Mas a termodinâmica explica também que a desordem é uma tendência irresistível precisamente porque é na desordem – ou mais, propriamente, na “perfeita desordem interna” – que os sistemas encontram o equilíbrio. Uma casa limpa e arrumada é difícil de manter (isto é, requer para manter-se o dispêndio periódico de energia) justamente porque é uma casa limpa e arrumada é coisa tão evidentemente contrária ao luxuriante caos que se encontra de modo natural no mundo físico.

Esse é o ritmo das coisas no universo físico, mas os sistemas culturais criados pelo homem conformam-se à tendência inversa. Deixados por si mesmos, os sistemais humanos tendem não ao caos (e portanto ao equilíbrio), mas à ordenação, à petrificação e à sistematização. As iniciativas humanas tendem à institucionalização. Os mais selvagens e bem intencionados dos ideais humanos tendem a ser sequestrados a apropriados para sustentar a ordem e a permanência do sistema; nessa entropia inversa, Jesus passa a ser usado como credencial de impérios e Che Guevara se reduz a uma estampa numa camiseta de marca.

A fim de se lutar contra essa tendência dos sistemas humanos à institucionalização é necessário o dispêndio periódico – melhor seria dizer contínuo – de energia. Os movimentos humanos mais vivos e vitais tendem à mumificação e à esterilidade, e essa tendência só pode ser domada enquanto lutamos deliberadamente e continuamente de modo a manter acesa a sua subversão. Num sistema físico, requer-se o dispêndio de energia para se manter a ordem; num sistema cultural, requer-se o dispêndio de energia para se evitá-la. A energia que nos mantém à salvo da petrificação cultural se chama espírito.

Os sistemas humanos tendem à ordem porque em grande parte acreditamos que é a ordem – a iniciativa civilizadora de lutar contra o caos, a decadência e a deterioração – que nos torna humanos. A contradição está em que, embora se alimente dessa intenção tipicamente humana de perpetuar o que é bom, a instituição acaba perpetrando a morte prematura da vida que se propunha a preservar. Consequentemente, para lutar contra a instituição, isto é, para lutar a favor da vida e gerar a raríssima semente da ressurreição, é preciso abraçar – continuamente, deliberadamente, subversivamente – a morte.

Permitam-me então anunciar às claras o que deveria ser evidente, que a Bacia está morrendo e há muito tempo, que está em franco declínio e que sua a única chance de exercer a sua vocação é precisamente morrendo e fechando as portas. Periodicamente dispendo alguma energia na tentativa de retardar o processo humano, que está também em mim, de transformá-la numa instituição. Assim recolho os comentários, assim recuso-me a dar qualquer entrevista, assim declino a todos os pedidos para visitar igrejas e fazer palestras. Trata-se de conduta muito artificial, isto é, requer muita energia, e a requer sempre. Mas ninguém pode lutar contra uma tendência que mata sem dispor-se a morrer periodicamente.

Fique então declarado que a Bacia vai acabar, que está definhando aos poucos e que seu momento final está cada vez mais próximo. Se tudo der certo, eu mesmo e o corpo que fala por mim sobreviveremos a ela, porque nada vale o preço de institucionalização alguma.

E enquanto estou dispendendo a energia necessária para desiludi-lo, meu caro e impenitente leitor, será conveniente lembrá-lo e lembrar-me de quem na realidade sou. Dois livros amarrados às pressas não bastam para esconder os fatos: não sou escritor, não tenho curso superior e duvido continuamente ser o que sempre digo que sou, ilustrador; o testemunho que posso dar é que sou um cara, um ser humano, com tudo de maravilhoso e de mesquinho e de contraditório que a palavra implica. Quando você se sentir tentado a pensar no meu nome ou nas minhas ideias com um mínimo que seja de autoridade ou de solenidade – “como afirma Paulo Brabo”, – esta é a precisa hora de você rever os seus conceitos e de lembrar com quem e de quem está falando.

Nesta confissão sazonal será preciso lembrar que interessam-me não só as pérolas mas também os porcos. Minha alma não fixou residência nas ideias sobre Jesus, na história da igreja na contradição das teologias; frequento com obsessão igual ou maior – e com igual superficialidade – tudo que diz respeito a arqueologia, filologia, ufologia, cinema, software, Segunda Guerra Mundial, sexologia, história, literatura, filosofia indiana, antropologia, fotografia, canetas, cadernos, música pop e brega, histórias de terror, psicologia, neurologia, relíquias de santos, exploração espacial, pintura, filmes de monstro, história da arte, ficção científica, cabala judaica, vodu, alquimia, biologia, culinária árabe, indiana e italiana, aldeias medievais, nudismo, azulejos, literatura de cordel, assassinatos em série, espadas, criptozoologia, antropofagia e nazismo, bem como todas as revistas e embalagens e arquitetura e programas de rádio e selos e arte em ferro e músicas de baile, desde que não sejam da nossa época.

Sou um cara muito tímido mas sinto-me perdidamente atraído por aglomerações humanas, especialmente aquelas mais arbitrárias e transitórias, coisas como feiras, rodeios, exposições-feiras, filas de refeitório e manifestações políticas. O calor altera o meu humor sempre para o pior, mas sinto-me irresistivelmente atraído pela praia no verão – porque é ali que estão as pessoas, e porque emprestam seu charme e sua bendita contradição ao que sem elas seria meros sol, sílica e água salgada, três coisas que uma infinidade de outros planetas além do nosso seriam capazes de oferecer.

Já fui visto por pessoas vivas cavando poços mortos, fazendo salada de frutas, pulando fogueiras, roubando galinhas, beijando homens, despindo mulheres, matando animais, andando descalço em shopping centers, tomando banho pelado em rio, visitando prostíbulos, entrando em boates, saindo de motéis, dando conselhos matrimoniais a sacerdotes, conversando com prostitutas, furando filas, fazendo sexo, dando cursos de vendas, registrando empresas, contratando advogados, fazendo serenatas de amor, esquecendo datas importantes, aceitando tratamento preferencial, cobrindo telhados de casas, criando publicidade para vender produtos de que ninguém precisa – algumas dessas coisas com atenuantes, outras com agravantes, algumas vezes de graça, outras por dinheiro, o que não muda o fato de que me mantenho disposto a fazer um saudável número delas, não necessariamente nesta ordem.

Tudo que já falei e fiz, bem como tudo que deixei de fazer, pode ser mal entendido e será mal entendido e pode muito tranquilamente ser usado contra mim. Não fiz nenhum voto de pobreza, de silêncio ou de castidade, e provavelmente não os recomendaria a ninguém. Com o passamento de Krishnamurti, não deve haver guru que lute de modo mais consciente para se manter antiguru: para se manter menos sério, mais promíscuo, menos confiável, menos estável, mais inclassificável, menos coerente.

Que essa enumeração sirva para lembrar não só que para não ser uma instituição é preciso manter-se uma pessoa, mas que para não ser uma instituição é preciso manter-se um corpo.

fonte: A Bacia das Almas

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