Odeie a arte cristã… mas ame o artista?

Texto de Tyler Huckabee publicado originalmente na Relevant

Como reagir quando os cristãos produzem arte ruim

“Você acha que vamos conseguir?” Perguntei a meu amigo Brad no banco de trás. Tínhamos acabado de deixar uma atriz pornô no trailer de sua família e estávamos agora dirigindo uma minivan alugada pelo centro de Los Angeles em uma noite chuvosa de janeiro, à procura de um lugar para comer. Brad estava no banco da frente com meu amigo Jon. A esposa de Jon e eu estávamos no banco de trás, ambos interessados na resposta de Brad, afinal ele era o único de nós com alguma experiência em fazer televisão.

“Não sei”, ele disse, enquanto os limpadores rangiam contra o pára-brisa. “Realmente não sei. O programa é bom, mas são tantos cristãos…”. Nesse momento ele parou para olhar para o mapa. Estávamos perdidos.

“Muitos cristãos são viciados na mesma velha porcaria.”

***

Antes de Los Angeles e o programa de televisão, eu era apenas outro artista cristão numa igreja legal de Chicago, blogando furiosamente sobre o estado desesperador da arte baseada na fé.  Era recém-formado e conhecia Rob Bell tão bem quanto conhecia as músicas do Radiohead. Frequentei uma Escola Bíblica conservadora o suficiente para me tornar um cínico no último ano. E conhecia filmes interessantes o suficiente para achar a arte religiosa insuportavelmente “única”.

A arte cristã era simplista e intencionalmente ignorante do sofrimento do mundo. Era tão ansiosa por finais felizes e sentimentos calorosos, sempre pronta para resolver qualquer conflito com um versículo da Bíblia e a oração de um pecador. A arte cristã era puro clichê e retocada, com medo de mostrar o pecado em toda sua estética angustiante. Sempre em preto e branco. Intolerante. Etnocêntrica. Unidimensional. Extravagante. Sujeitada a tentativas equivocadas por ser vagamente “nervosa”. Infantil. Chata. Acima de tudo, muito dela era simplesmente burra.

Agora, embora eu permaneça com muitas dessas críticas, não estou mais convencido que pensar assim me transforma em algum tipo de prodígio da arte cristã. Alguns anos atrás, quando eu e meus amigos recebemos a chance de fazer sozinhos um pouco de “arte baseada na fé” – ou seja, criar um programa de televisão espiritualmente relevante  – não pensamos que seria tão difícil.

Como roteirista do programa, pensei que tudo que precisava ser era realista, autêntico e relevante, e ele praticamente se escreveria sozinho. Esse era realmente o plano: viajar o país encontrando histórias interessantes e contá-las honestamente. Era o oposto do formato religioso enlatado. Não teríamos medo de finais complicados; não faríamos nada fora dos limites; e apenas veríamos onde Deus apareceria na coisa. Batizamos o programa de Footnote [Notas de Rodapé], compramos algumas câmeras e fomos para as ruas, confiantes de que a revolução tinha começado.

Não é novidade para essa geração, munida com diversos diplomas, pensar que tem algum conhecimento secreto sobre como solucionar os problemas do mundo. Pode não ser novidade para eles fazer isso com uma arrogância impetuosa, embora eu não saiba nada sobre isso. Mas (agora) sei que oferecer “todas as respostas” significa cometer um monte de erros.

Começo a pensar que meu sarcástico desprezo pela arte que veio antes de mim não era muito melhor do que as fogueiras dos acampamentos cristãos nos quais vi jovens queimarem seus CDs de rap e de heavy metal. Estava destruindo o trabalho de outra pessoa só porque não se enquadrava em minha ideia de espiritualidade. Não que eu não tenha boas razões para fazer isso (aqueles líderes de acampamento deviam ter as suas), mas blogs que apenas criticam tentativas infelizes de produzir programas cristãos de TV não levam em conta que a crítica pela crítica é tão banal e simplista quando a arte ruim. Além de ser muito mais preguiçosa.

Não estou dizendo que não devemos criticar uma obra de arte ruim quando a vemos. Pelo contrário, gostaria que mais pessoas fizessem isso. O que estou tentando fazer é colocar um final em nossa tendência de ficar sempre “no banco de trás”, enquanto os outros estão conduzindo. Fico imaginando que poderíamos consertar tudo, se alguém parasse para nos ouvir. Posso ter algumas ideias boas, mas se tudo o que faço é perguntar por que as pessoas responsáveis pelo filme Prova de Fogo não fizeram certas coisas corretamente, pareço um daqueles torcedores gordos que ficam gritando para o atacante do seu time chutar a bola mais forte. A única coisa mais fácil que fazer um trabalho ruim é criticá-lo.

Foi isso que descobri quando tive a oportunidade de fazer um programa de televisão. Era um programa inexperiente, mas honesto, que desejava apresentar a espiritualidade de uma forma autêntica. Não foi nada fácil. Algumas vezes, era impossível.

Na verdade, quando sentamos para assistir o primeiro bloco do episódio piloto, nós detestamos tanto que até choramos. Ainda que, depois de algum tempo, realmente criamos algo que nos deixou orgulhosos, foi muito mais difícil que imaginava. Francamente, exigiu mais do que pensávamos que tínhamos para dar. Mais dinheiro, mais tempo, mais talento, mais energia, mais criatividade e mais paciência. Em alguns momentos olhei para trás, para todos os filmes cristãos e programas de televisão que costumavam me dar ânsia de vômito e me perguntava: “Como, afinal, eles fazem isso?”

Não vou negar que certos livros ou programas de televisão ainda fazem meus olhos se revirar com tanta força que correm o perigo de saltar para fora de minha cabeça. Mas não os vejo mais como inimigos.

Meus inimigos são o tédio, o desespero e a crueldade. Meu inimigo é a apatia. E o inimigo do meu inimigo é meu amigo, por mais fora de sintonia ou clichê que eu possa achar que ele seja. E, juntos, vamos fazer essa tal de arte cristã dar certo. De alguma forma.

Tyler Huckabee é o roteirista principal do programa Footnote e blogueiro nas horas vagas

Tradução: Agência Pavanews

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