Quando a Apologética perde a razão

Texto de Mário Freitas publicado originalmente no Fé Ativa

Certa vez, assisti a uma palestra do treinador Bernardinho, da seleção brasileira masculina de vôlei, sobre princípios de liderança. O palestrante, líder mundialmente reconhecido e dono de um currículo esportivo quase irreparável, trouxe conselhos e desafios a um grupo de empresários, empreendedores e curiosos (meu caso). Um deles me marcou.

Bernardinho falou que sua paixão pelo vôlei se dá pelo fato de ser este um esporte com pouco contato físico. Sendo assim, o treinador precisa armar seu time apesar do adversário. Não há como neutralizar fisicamente o jogo do adversário, mandando caçar, por exemplo, o jogador mais talentoso do outro time com alguma jogada violenta. Não há como impedir o adversário de jogar. Se ele for superior, ele vai ganhar. É preciso planejar e trabalhar, apesar de quem está do outro lado da rede.

É assim no mundo corporativo. Alguém que quer vender seu produto precisa fazê-lo independente do concorrente – não se pode impedir o concorrente de vender. É preciso superá-lo, mas não é possível neutralizá-lo. Mas, o que dizer sobre o Reino de Deus?

É assim que funciona também. Há igrejas e movimentos crescendo em torno de um evangelho vazio, barato, e com pouco de Cristo em sua essência. Vemos práticas mercantilistas e mercenárias assolando o ambiente da fé. Por outro lado, há a igreja séria, ética, comprometida com os valores do Reino. Para crescer, essa última não pode neutralizar a primeira. Os marketeiros da fé, esses gananciosos e mal intencionados, sempre estarão por aí. É preciso que a verdadeira igreja se estabeleça apesar deles.

Tenho vários amigos apologistas. Eu os reconheço como apologistas, e vejo seriedade no que fazem. Mas tenho andado preocupado com a nossa apologética. Com o advento dos blogs, a defesa da fé tornou-se ainda mais acessível, e muitos articulistas da apologética se levantaram. Creio que isso seja válido. Por esta causa, sei que o presente artigo deve acabar gerando certa polêmica. Mas meu objetivo aqui, de forma desarmada e despretensiosa, é que observemos a apologética que temos praticado. Portanto, não tenho objetivos polêmicos, mas pacíficos. Passo assim a apontar alguns dos riscos que percebo temos corrido na nossa apologética recente. Quem sabe, isso pode causar em nós todos um despertamento positivo.

1) A Apologética perde a razão quando enfatiza o ataque

A apologética é basicamente a defesa da fé, e não o ataque às outras formas de crença. Originalmente, o pensamento apologético deve apresentar sobriamente o evangelho diante de qualquer ataque ou crítica que questione a validade do cristianismo e de seus valores elementares. A apologética verdadeira se dá em arenas como o debate entre cristianismo e secularismo, o debate entre fé e ciência, entre outros.

Creio que precisamos estar atentos aos falsos profetas, como a Escritura manda fazer. Creio ainda que não devamos tolerá-los. Nossas igrejas precisam estar protegidas, sim. Mas a verdadeira apologética não se constitui da busca por alvos de ataque, mas por uma proteção genuína às verdades basilares da fé cristã.

2) A Apologética perde a razão quando perde o amor na sua forma

O termo apologética é oriundo da palavra apologia, do grego. Originalmente, quer dizer simplesmente defesa verbal. Aparece no Novo Testamento 8 vezes, a saber: Atos 22:1; Atos 25:16; 1 Coríntios 9:3; 2 Coríntios 7:11; Filipenses 1:7; Filipenses 1:17; 2 Timóteo 4:16 e 1 Pedro 3:15. Esse último é o texto que mais reconhecidamente aborda a questão da apologética bíblica nos padrões que geralmente aceitamos para o termo.

“Antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15).

Note três princípios elementares no texto.  A apologética, que é a resposta a todos quantos nos pedem a razão da esperança, deve ser feita: a) Como fruto da santidade; b) Com mansidão; c) Com temor.

A verdadeira apologética é oriunda da santidade, da busca de Deus. Segundo, ela deve ser feita com brandura, com mansidão, sem agredir. Vale lembrar que aqueles que pensam diferente de mim continuam sendo dignos do meu respeito. Por último, muitos perdem o temor quando se propõem a criticar. Isso não pode acontecer. Devemos continuar temendo a Deus ao tecer cada comentário.

Ou seja, a apologética bíblica não pode ser meramente fruto da discordância, ou proveniente de qualquer outra motivação. Muitos dos textos apologéticos recentes denunciam, até mesmo por seus títulos, que emanam da ira e do descontentamento com o progresso das falsas estruturas evangélicas. É irritante mesmo, mas nosso motivador para a defesa da fé precisa ser outro.

3) A Apologética perde a razão quando deixa de focar no essencial

A apologética originalmente visa defender a fé de qualquer ataque ou crítica que questione a validade do cristianismo e de seus valores elementares. O que temos a defender, em verdade, são os elementos basilares do cristianismo. Defendamos o credo. Defendamos que Jesus nasceu da virgem, viveu entre homens e como homem, morreu por nossos pecados e ressuscitou. Defendamos que Ele vive, assentado à destra de Deus, e que Ele volta.

Para mim, deixa de ser apologética quando o nosso foco é o carro que o apóstolo tal comprou, o cruzeiro onde a banda tal cantou, ou a roupa que a pastora fulana usou. Posso não gostar, não concordar, achar exagerado. Só não posso perder o foco. A verdadeira apologética defende teses acerca do cristianismo, não vive de antíteses.

CONCLUINDO…

Portanto, é preciso que paremos para pensar sobre a nossa apologética. Alguém já disse que a tolerância é a mãe das heresias. Eu concordo. Mas a intolerância, impiedosa e sem amor, pode ser a mãe de ministérios pouco eficazes na expansão do Reino. Curiosamente, esses movimentos sectários só crescem à medida que vão sendo criticados. Hans Burke dizia que “o meu inimigo vive da energia que eu dou a ele”.

Alguma coisa vai errado com a nossa apologética, isso é um fato. Que Ele tenha misericórdia de nós.

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