O especulador do futuro


CARRO DOS JETSONS: Automóveis flutuantes serão verdade até 2100

Texto de Felipe Pontes publicado originalmente na revista Galileu

Você é acordado por um barulho vindo das paredes do quarto, que acendem do chão ao topo, como imensos televisores. Nelas, um rosto feminino o avisa de uma reunião de emergência no trabalho e o apressa a ir até o banheiro. Enquanto lava o rosto, centenas de sensores microscópicos espalhados pela pia, espelho e privada analisam moléculas em seu hálito e fluidos corporais para checar sinais de doença. Células relacionadas a qualquer tipo de tumor expelidas pelo seu corpo acionariam um alarme. Mas, tirando o seu bafo matinal, parece estar tudo bem.

Outros sensores, acoplados à sua cabeça, leem frequência cerebral e fazem com que a força do pensamento seja o suficiente para mudar a temperatura do quarto, fazer tocar sua música favorita e mandar um robô preparar o café da manhã. Com os mesmos sinais cerebrais, você faz o computador central da casa tirar móveis do seu caminho até a cozinha, por meio de poderosos ímãs. Após a refeição, suas lentes de contato se conectam à internet num piscar de olhos e projetam as principais notícias do dia em sua retina. Ao terminar de se arrumar, um comando mental faz com que o carro o espere em frente à porta. Ele não tem rodas e flutua levemente por conta do pavimento, feito de um supercondutor magnético. Você ainda tira uma pestana enquanto o automóvel dirige sozinho, escolhendo o melhor caminho entre o trânsito até o escritório.

Isso não é um roteiro de filme de ficção científica, mas um resumo das tecnologias que farão parte de nosso cotidiano até 2100, de acordo com um dos mais proeminentes físicos da atualidade. Fazem parte do livro Physics of the Future (Física do Futuro, sem edição no Brasil), lançado em março por Michio Kaku, um dos pais da teoria dos campos de cordas (que tenta unificar as explicações físicas sobre o Universo). Graduado com as maiores distinções acadêmicas na Universidade de Harvard e com Ph.D. em Princeton, o americano de origem nipônica Kaku, 64 anos, é um cientista pop, digamos, com três best-sellers publicados e uma série de participações em documentários, além de figura fácil no rádio e na televisão. Para listar em seu livro cerca de 80 tecnologias que deverão ser desenvolvidas nas próximas nove décadas, ele compilou informações de 300 entrevistas com alguns dos pesquisadores mais conceituados em várias áreas da ciência.

Só entraram na obra estudos que já contam com protótipos e que respeitem leis fundamentais da física. “Não sou um escritor de ficção científica. Tudo o que menciono é baseado na realidade”, diz Kaku. O futuro da computação, da nanotecnologia, da medicina e da energia é descrito com detalhes em 416 páginas, mas o americano sabe que seus palpites não são exatos. “É impossível acertar tudo. Mas essas são as previsões mais próximas de darem certo, cientificamente falando.” No século 22 de Kaku, e mesmo antes dele, viveremos como deuses gregos. “Como Zeus, você moverá objetos com a mente e sairá desfilando por aí com sua carruagem voadora, do mesmo jeito que Apolo. E, como Vênus, seu corpo será perfeito e intocável pelo tempo”, diz, se referindo a avanços da genética. Para ele, conseguiremos fabricar órgãos, pernas e braços usando informações do nosso DNA, o que nos permitirá viver mais de 150 anos com corpinho de 30. Um elevador de nanotubos de carbono ultrarresistentes nos conduzirá em viagens à Lua e, a partir de outros avanços na genética, o cientista também vê a possibilidade de criar animais míticos como o Pégaso (um cavalo alado) e ressuscitar o neandertal.

Apesar desse tipo de previsão, Kaku rebate qualquer menção a um possível exagero em seus palpites. Para enfatizar o quanto é possível evoluir em um século, pede para tentarmos reconstituir a vida como ela era em 1900. Ele lembra que não existia rádio, ninguém imaginava filmes do jeito como os vemos hoje, o carro ainda era chamado de “carruagem sem cavalos”, fazendeiros não pensavam em usar tratores e a ideia de uma máquina que poderia voar como um pássaro era coisa de malucos.

Para o físico, até pessoas ligadas à ciência subestimavam seu potencial. Ele cita o comissário Charles Duell, do escritório de patentes dos Estados Unidos, que em 1899 declarou: “Tudo que poderia ter sido inventado já foi inventado”. Kaku também lembra que em 1943, Thomas Watson, presidente da IBM, acreditava que o mercado mundial tinha espaço para, talvez, cinco computadores. “Nós acumulamos mais conhecimento científico nas últimas décadas do que em toda a história.” Se ao menos o físico estiver certo em um dos palpites, teremos até nossos 150 anos para conferir o quanto de suas previsões foram acertadas.

foto: Divulgação/Discovery Science
dica: Natã Madeira

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