A consistência histórica dos dons carismáticos

Paulo Brabo

– Posso entrar? – ela diz, e no instante seguinte já está dentro.

Adália tem trinta e sete anos. É o tipo intimidador de mulher que tem o corpo esguio e aprumado de quando tinha vinte, e usa vestidos justos e acalorados para não deixar qualquer dúvida disso. O rosto anguloso é tão bonito quanto naquele tempo, mas com uma sobrancelha mais atrevida e um sorriso mais largo. Quando acontece dela sorrir, o que não é o caso agora.

Enquanto o mulherão desaba no sofá cruzo os braços e viro-me para o espelho da parede, para uma rápida conferência: encontro sorrindo com um vago beicinho um cara que é três ou quatro mais novo do que ela, o tipo do sujeito que foi sempre magro demais mas agora está amadurecendo bem, os anos fornecendo o necessário e atrasado recheio às carnes. Ao mesmo tempo em que está ficando bonito o sujeito está ficando careca: mais um lembrete de que no mundo nada é de graça.

Jateado na base do espelho está o meu logotipo: um planeta Terra, e sobre ele uma Bíblia aberta, como se fosse um telhado invertido; com um pé em cada página do livro está um homem de terno apontando uma arma diretamente para a frente, em posição de James Bond; acima dele paira uma cruz e acima dela uma pomba, englobada por um arco-íris circular do qual projetam-se línguas de fogo que se abrem em feixe logotipo abaixo; onde as línguas de fogo atingem as páginas da Bíblia levanta-se do papel um anjo; onde atingem a Terra nasce ali uma igreja. De cada lado do logotipo há uma letra, F e B; o Brandão insiste que querem dizer “Facebook”, mas que prefiro pensar que representam meu nome, Fabrício de Barros. É um logotipo simples, mas tem a minha cara.

Ajusto o sorriso e ignoro deliberadamente a careca do homem no espelho. Não faz diferença: eu e Adália sabemos que fomos desde sempre irresistíveis. É praticamente nossa descrição de cargo.

– Enquanto você estava fora o secretário executivo da convenção esteve aqui – ela começa a falar olhando para o maço de papéis que tem nas mãos em vez de para mim, sinal inequívoco de que existe entre nós alguma pendência de que não estou certo de lembrar, – e deixou o dossiê do caso de Londrina.

– Muito bem, vamos então aos detalhes – descruzo os braços e sento-me para limpar a Taurus 9mm que está desmontada em cima da mesa. É melhor ignorar as manhas e permanecer profissional, se não quiser que o briefing seja interrompido pelos inevitáveis quinze minutos de suor e reconciliação. Acabei de sair do banho, a camisa está limpa, e nesse calor é difícil manter sob controle o efeito do desodorante.

Adália cruza as pernas com deliberação, como se existisse numa página dupla, e folheia devagar o dossiê.

– Mega-igreja, configuração usual, público A-B. Entre as doze maiores da convenção. O secretário disse que nunca tivemos caso mais importante.

– Mas quanto vale exatamente a igreja?

– Treze pastores – ela desce uma coluna de texto com os dedos, erguendo uma sobrancelha quando acha necessário. – Seis congregações. Dois mil e trezentos membros. Programa na TV, o pacote básico. Passivo de quase um quarto de milhão. E entradas mais do que proporcionais.

– Treze? Uma igreja com mais pastores do que Jesus tinha discípulos. Nunca é bom sinal.

– Acredite, eu sei – ela me olha nos olhos pela primeira vez, e deixamos que as memórias se assentem em silêncio entre nós.

– E qual é o caso? – sou eu a quebrar o momento, voltando a limpar o cano da pistola.

– Começou com uma atividade de fim de semana; chamava-se originalmente Magazine mas logo mudaram o nome para Arrebatados! Com o ponto de exclamação.

– E do que se tratava?

– Pense um Big Brother para crentes. Montaram no centro da arena de esportes uma casa com paredes de vidro, todos os aposentos vigiados por câmeras de vídeo, com transmissão pela internet. Um grupo de doze membros da igreja ficava confinado na casa do Arrebatados! da noite de sexta-feira até segunda pela manhã.

– Não saíam nem para assistir os cultos? – fico admirado com a mera possibilidade.

– Participavam por um telão colocado no santuário, davam depoimentos, aquela história. E eram avaliados todos os domingos pelo seu comportamento: o quanto eram vistos orando, lendo a Bíblia, repartindo a comida e as horas de internet. O mais perverso tinha de sair da casa mas não era visto como “eliminado”: era deixado para trás. E na sexta-feira seguinte um novo membro da igreja entrava na casa para substituí-lo.

– Então não terminava nunca?

– Era pra terminar quando o público decidisse que nenhum dos remanescentes merecia ser eliminado, mas não chegou a chegar nesse ponto. Em fevereiro passado entrou na casa o nosso problema.

Ela estende três páginas impressas e uma foto pixelada, presos por um clipe.

– Caio de Jesus. Caio nunca é um bom presságio.

– Trinta e dois anos, auditor, casado, duas filhas. Na madrugada de domingo do seu primeiro fim de semana na casa, seu amigo Caio teve uma visão. Deus estava usando o Arrebatados! de Londrina para escolher novos doze discípulos, que deveriam julgar as nações no fim do mundo agora em 2012.

– E naturalmente todos refutaram a visão à luz da Bíblia.

– E naturalmente todos acreditaram. Caio explicou que a partir daquele dia não poderiam sair da casa nem mesmo durante a semana, até que o armagedom pessoal de cada um estivesse completo. Explicou ainda que para ganhar o prêmio os candidatos teriam que vencer todas as tentações: homens e mulheres da casa teriam de tomar banho juntos, confessar suas fantasias um ao outro e dormir pelados na mesma cama para demonstrar a sua pureza.

– Não há como negar que há uma consistência histórica nos dons carismáticos – opino, ajustando a mola do ferrolho e começando a remontar a Taurus. Adália me olha por um instante. Digamos que já havíamos visto o mesmo espírito exigindo as mesmas coisas.

– A controvérsia se estendeu durante semanas, blá-blá-blá, até que o pastor da igreja resolveu dar um basta na coisa e fechou sumariamente a casa. O que aparentemente demonstrou que ele era o Anticristo.

– É claro.

– O problema é que a essa altura metade da igreja já estava apoiando o profeta Caio. Para resumir: com o apoio dos seus Onze, o profeta convocou uma assembleia, conquistou a maioria, mudou o estatuto da igreja e expulsou como impenitente toda a ala moderada. E, desnecessário dizer, reinstaurou a casa.

– Mais uma vitória para a democracia.

– Para conferir acesse www etc.

Ela deixa que o dossiê caia sobre a mesa de centro e reclina-se no sofá olhando diretamente para mim. A esta altura já juntei o cano ao ferrolho e o ferrolho ao chassi; termino acoplando o carregador com um sensato clique.

– Estou supondo que nossa missão seja recuperar a igreja para a convenção, rever o patrimônio perdido e expulsar do templo o falso profeta e os sectários.

– E derrubar a casa – ela lembra. – Espero que dessa vez possamos usar explosivos.

Tento ignorar a provocação, mas não devo esquecer o que prometi.

– Já acionamos o Brandão?

Ela olha sem ver para o relógio de pulseira fina nas costas do pulso.

– A esta hora ele já deve estar em Londrina fazendo o trabalho dele.

– Muito bem, Adália – congratulo, congratulando-me secretamente por ser tão gentil.

Nesse momento entra sem bater o nosso cliente, Januário Cembrino, secretário executivo da convenção. Quarenta e tantos anos, sempre de terno e gravata, Januário e é um sujeito muito baixo e compacto, o tipo de homem que Adália gosta de chamar de portátil. Tem rosto quadrado, os cabelos curtos e encaracolados de imperador romano e a pele castanha de índio brasileiro. Adália estaria perdidamente apaixonada por ele se já não estivesse por mim.

– Fabrício, espero que Adália já tenha lhe colocado a par de tudo – ele se deixa cair sem vontade na cadeira na minha frente. – E da importância do caso.

Deixo sobre a mesa a pistola e o lenço de flanela que estava usando para dar o polimento final. Só então produzo meu melhor sorriso.

– Ora, boa tarde pra você também. Mais entusiasmo, Januário, você sabe muito bem que vamos tirar você de mais essa. Tenha um pouco de fé.

– Espero que sim – ele limpa a testa com o lenço.

– Agora, tenho de reconhecer que é um caso difícil. Preciso saber se tenho a sua permissão para usar todos os recursos. Línguas de fogo? Dons carismáticos? Cai-cai? Unção do riso? Água de Jerusalém?

– O que for necessário – ele cede.

Estendo o braço e aperto a mão dele de determinada maneira.

– O que for necessário – ele me olha muito sério.

– Então vamos, Adália, que o campo é o mundo.

Levantamos os três, pego as chaves do carro e Adália já colocou o dossiê na minha mochila. Guardo com todo o cuidado a pistola dentro da gaveta, pego a minha Bíblia e logo estamos longe dali.

fonte: A Bacia das Almas

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