Guerra Santa-nás

Ed René Kivitz (texto escrito em 2003)

Nossa religião ensina que devemos ser inteligentes. Seja pacificador; seja cortês; obedeça a lei; respeite a todos; mas se alguém levanter a mão contra você, mande-o para o cemitério. [Malcolm X]

A não-violência não é uma passividade estéril, mas uma poderosa força moral que atua para a transformação social (…) A prática do amor aos inimigos é a única esperança para a sobrevivência da nossa civilização. [Martin Luther King Jr.]

Por trás da guerra dos Estados Unidos contra o Iraque existe uma outra guerra. A guerra do movimento cristão sionista contra o islamismo. O fim do maniqueísmo-ideológico-direita-esquerda fez com que as religiões se tornassem protagonistas na oferta de argumentos que movimentam a luta pelo poder geopolítico. Mais uma vez Deus está sendo invocado para justificar a guerra.

George W. Bush afirmou que “os terroristas odeiam o fato de podermos cultuar o Deus Todo-Poderoso da maneira que achamos adequada”, e que os Estados Unidos foram chamados a levar a dádiva da liberdade a “todas as criaturas humanas do mundo”, isto é “a liberdade de encontrar Deus também”. A confiança do atual presidente norte americano em Deus é o motor de propulsão de seu ímpeto de guerra. Na Oração Matinal Nacional, uma espécie de “conversa gospel ao pé do rádio”, teria declarado que “além de toda a vida e toda a História há uma dedicação e um propósito, determinados pela mão de um Deus justo e fiel”, numa alusão clara à razão de sua convicção da vitória de seu exército contra “o Mal na forma de Saddam Hussein”. A evidência mais contundente da motivação religiosa de George Bush é visível na declaração de seu amigo mais íntimo, o Secretário do Comércio Don Evans, ao dizer que a crença dá ao presidente algo mais do que confiança, “ela desperta nele um desejo de servir aos outros e um juízo bem claro do que é o Bem e o que é o Mal”.

Estamos, portanto, diante de uma nova cruzada e esta guerra visa fazer o Oriente se curvar diante da Cristandade. Desta vez, entretanto, as armas não são espadas, mas caças supersônicos e artilharia pesada. Apesar dos mais de 250 mil soldados norte-americanos e britânicos posicionados para invadir o Iraque, dificilmente haverá confronto corpo-a-corpo, mas sim o que Jimmy Carter chamou de “uma ação militar quase sem precedentes na história das nações civilizadas”, referindo-se à chuva de 3 mil mísseis Tomahawk sobre a população civil iraquiana indefesa.

Os protagonistas desta cruzada não são os soldados do império. Os cruzados atuais são uns poucos cristãos da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, que é fortemente influenciada pelo seu comprometimento com Israel, baseada na teologia escatológica dispensacionalista, berço e sustentação do movimento fundamentalista do sionismo cristão. Por incrível que pareça, a cartilha que serve como manual para a administração Bush não nasceu no Pentágono, e está longe de oferecer razões econômicas e geopolíticas para esta guerra. A cartilha é a Bíblia Sagrada, mais precisamente a Bíblia de Referência de Scofield, uma edição da Versão King James, com anotações feitas por Cyrus Ingerson Scofield, um ministro Congregacional, ordenado ao sacerdócio protestante, sem qualquer formação teológica, apenas três anos após a sua conversão.

Baseados em uma interpretação literal da Bíblia Sagrada, os dispensacionalistas acreditam que as profecias do Velho Testamento foram feitas a Israel como nação terrena e devem se cumprir literalmente no atual Estado de Israel. Acreditam que antes da vinda de Jesus Cristo nos eventos apocalípticos Deus levaria os judeus de volta à sua terra (Isaías 11.11–12.6; Ezequiel 20.33-44; 22.17-22; Sofonias 2.1-3), e isso já foi realizado com a existência do atual Estado de Israel. Defendem que antes de Israel entrar em sua definitiva prosperidade nacional, o anti-semitismo atingirá novas alturas, dessa vez em âmbito mundial, mas Deus protegerá o Seu remanescente de modo que antes da Segunda Vinda de Jesus “todo o Israel será salvo” (Romanos 11.26). Na verdade, a Segunda Vinda incluirá o propósito divino de libertar Israel fisicamente da perseguição mundial durante Armagedom (Daniel 12.1; Zacarias 12-14; Mateus 24.29-31; Apocalipse 19.11-21). Em outras palavras, os dispensacionalistas acreditam que o reino eterno de Deus será precedido pelo reino histórico de Israel, e isso implica pelo menos cinco eventos significativos: o retorno dos judeus da diáspora à Palestina, a retomada absoluta de Jerusalém, a reconstrução do Templo de Salomão (no local onde hoje está erigida a Mesquita de Omar), a restauração do sacerdócio levítico, e a conversão de toda a nação ao Messias Jesus Cristo.

Aí está a agenda oculta do atual governo norte-americano: a pretensão de George W. Bush e dos fundamentalistas sionistas que o apóiam, de atribuir aos Estados Unidos a responsabilidade de viabilizar historicamente os adventos do fim do mundo. Esse é o real significado de afirmações do tipo: “os Estados Unidos foram chamados a levar a dádiva da liberdade a todas as criaturas humanas do mundo – a liberdade de encontrar Deus também”, ou “além de toda a vida e toda a História há uma dedicação e um propósito, determinados pela mão de um Deus justo e fiel”. Em síntese, Bush acredita piamente que a vocação norte-americana – que “in God Trust” – para controlar o mundo é ordenação divina e que a guerra contra o Iraque é determinada pela mão de Deus.

Ninguém duvida que os Estados Unidos estão interessados nos vastos campos petrolíferos do Iraque. Já não há quem suspeite das intenções norte-americanas de estabelecer no Iraque uma democracia capaz de redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio. Mas estas razões não são fins em si mesmas. A busca a qualquer preço pela hegemonia política e econômica mundial se justifica pelo senso religioso de cumprir uma missão divinamente outorgada. Bush é muito mais perigoso do que se pensa, pois não é apenas um imperialista beligerante, mas principalmente um fanático religioso fundamentalista, que pretende fazer de sua guerra um conflito entre civilizações. De um lado, Alá, Maomé, o Alcorão e o Taleban, representando tudo quanto é atrasado, tenebroso e tirânico, já que “nenhuma nação de maioria muçulmana se situa entre as mais avançadas do mundo” conforme a imprensa ocidental faz questão de salientar. Do outro, o Deus de Israel, a Bíblia (especialmente o Velho Testamento), e os Estados Unidos, representando a modernidade, a prosperidade e a liberdade. Opiniões à parte, é explícito que a América do Norte se considera o ápice de uma sociedade justa sob a bênção do Deus cristão.

Todo esse barulho não é suficiente para abafar o grito das ruas. Nem mesmo a manipulação da Bíblia e de Deus em favor da guerra é capaz de calar o clamor pela paz. As multidões cristãs que marcham acenando lenços brancos são movidas e pela mesma fé no mesmo Deus dos belicosos. A diferença, ou pelo menos uma delas, está em sua teologia, isto é, a maneira como lêem a Bíblia Sagrada e a compreensão que têm do Evangelho de Jesus Cristo.

Há muitos cristãos, entre os quais me incluo, que não acreditam nas notas de rodapé que Scofield colocou na Bíblia para defender sua doutrina dispensacionalista. Também sou cristão, teólogo de tradição protestante, e pastor de uma Igreja Batista cuja gênese está ligada à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos. Mas não creio que o reino eterno de Deus tenha qualquer relação com o atual Estado de Israel. E também não creio que qualquer poder político temporal possa reivindicar a prerrogativa de ter recebido delegação de levar a liberdade de conhecer Deus a toda criatura humana.

De acordo com o Novo Testamento, a relação de Deus com a nação de Israel existiu até o advento do Messias. Jesus de Nazaré é apresentado como o Messias esperado, rejeitado por Israel e entregue às nações: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus” (Evangelho Segundo São João 1.11-13). Por esta razão São Pedro Apóstolo transferiu para os filhos de Deus, a saber, a Igreja de Jesus, os títulos que o Velho Testamento usava para referir-se aos filhos de Abraão, isto é, a nação de Israel: “Pois assim é dito na Escritura: ‘Eis que ponho em Sião uma pedra angular,escolhida e preciosa,e aquele que nela confia jamais será envergonhado’. Portanto, para vocês, os que crêem, esta pedra é preciosa; mas para os que não crêem, ‘a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular’, e, ‘pedra de tropeço e rocha que faz cair’. Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam” (Primeira Epístola de São Pedro 2.4-10). A conclusão de São Paulo Apóstolo é, portanto, óbvia: “Considerem o exemplo de Abraão: ‘Ele creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça’. Estejam certos, portanto, de que os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão. Prevendo a Escritura que Deus justificaria os gentios (não israelitas) pela fé, anunciou primeiro as boas novas a Abraão: ‘Por meio de você todas as nações serão abençoadas’. Assim, os que são da fé são abençoados junto com Abraão, homem de fé (…) para que em Cristo Jesus a bênção de Abraão chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé ” (Epístola de São Paulo aos Gálatas 3.6-14). Em palavras simples, a Igreja de Jesus Cristo – a unidade mística de todos os que crêem em sua natureza divina e identidade messiânica, e à sua autoridade se submetem – é o verdadeiro Israel de Deus. Jesus Cristo é aquele que abençoa em sua comunidade eterna, não apenas os israelitas, mas “gente de toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse de São João 5.9), pois “todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Epístola de São Paulo aos Gálatas 3.26-29).

A Igreja de Jesus, portanto, é protagonista dos processos históricos redentores. Aqueles que esperam o cumprimento literal das profecias do Velho Testamento a respeito de Israel em termos de uma nação e um Estado político temporal, isto é, o reino de Israel, estão equivocados em sua interpretação da Bíblia Sagrada. Tais profecias se cumpriram na restauração de Israel após o exílio babilônico, nos dias de Ciro, rei da Pérsia, a potência mundial da época, e Neemias, que reconstruiu os muros de Jerusalém, Esdras, que trouxe o povo de volta à Jerusalém, e Zorobabel, que reconstruiu o Templo de Salomão, Templo este em que Jesus, o Messias, entrou para chamar de “casa de meu Pai” e, movido por um zelo que o devorava, purificá-lo de toda a degeneração perpetrada pela tradição religiosa do judaísmo farisaico pós exílico (Evangelho Segundo São Mateus 21.12,13) .

Por esta razão, é a Igreja, e não qualquer Estado ou nação, que detém a prerrogativa outorgada por Jesus para “levar a dádiva da liberdade – a liberdade de encontrar Deus também – a todas as criaturas humanas do mundo”. Jesus deixou claro que seu reino não era deste mundo (Evangelho Segundo São João 18.36), isto é, não se confundia com os poderes temporais, e nesse caso, não pode ser expresso por um estado político, até porque “certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está dentro de (ou entre) vocês” (Evangelho Segundo São Lucas 17.20,21).

Jesus nunca falou de “reino de Israel”, mas sempre a respeito do “reino de Deus”. Um reino que o apóstolo São Paulo caracterizou com as expressões “justiça, paz e alegria” (Epístola aos Romanos 14.7). Um reino que foi inaugurado na história e será consumado na eternidade, que nós cristãos costumamos chamar de novo céu e nova terra, onde “não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Apocalipse de São João 5.9).

Transcrevo palavras exatas que recebi em mensagem circular pela Internet de um cristão discursando em defesa da guerra: “Os EUA estão enxergando MILHAS na frente do resto do mundo, aliás como estavam antes da 2ª. Guerra Roosevelt e Churchill (principalmente o segundo) ao tentar fazer o mundo entender o que Hitler estava fazendo. Hoje, tem-se como estatisticamente certo que 85% do terror mundial vem de fonte muçulmana. Vejam o exemplo da Indonésia, onde esses trogloditas transformaram, em menos de uma geração, um país que mesclava católicos, evangélicos e muçulmanos, numa nação “islâmica” na qual não há direito de pregação nenhuma – liberdades individual e religiosa ZERO. O que é que quer Satanás? Quem é o anticristo, que tentará nos forçar a renegar nossa fé? É só olhar o que está acontecendo na África sub-saariana, em países como a Nigéria, onde “hordas” de matadores muçulmanos descem do norte para massacrar aldeias inteiras de cristãos, “convertendo-os” ao islamismo… Assim, quando Bush tenta liderar o mundo no objetivo de atacar o Iraque, CREIAM-ME, é para baixar o preço do petróleo SIM! Quisera que tivéssemos petróleo a US$ 3,00 o barril. Desta forma não teríamos que aturar esses fanáticos sem razão, fazendo tudo o que estão fazendo em países como o Paraguai, onde já dominam várias cadeiras do parlamento e correm o risco de, em alguns anos, transformar, na marra, aquele país em República Islâmica do Paraguai. Há que se desarmar o Oriente Médio, SIM. Há que tirar-lhes o EXCESSO de dinheiro (que só beneficia os financiadores do terror e os ricos príncipes e sheiks). Há que se dar ao mundo algum equilíbrio”.

Triste abordagem. Esquece que nós cristãos não lutamos contra “carne e sangue” (Epístola aos Efésios 6.10-12). Os que são de “carne e sangue” não são descritos na Bíblia como inimigos contra quem devemos guerrear, mas de próximo, a quem devemos expressar amor mesmo às custas dos maiores sacrifícios pessoais. A defesa da guerra sob justificativa cristã não se recorda das palavras de Jesus, advertindo que o reino de Deus não se impõe à força, pela violência física e a guerra contra os que a ele se opõem, mas pela prática da justiça e da solidariedade, pelos gestos de bondade e fraternidade (Evangelho Segundo São Mateus 25.31-46). A violência e a guerra contrariam as recomendações de São Pedro Apóstolo aos cristãos: “sejam compassivos, amem-se fraternalmente, sejam misericordiosos e humildes. Não retribuam mal com mal, nem insulto com insulto; ao contrário, bendigam; pois para isso vocês foram chamados, para receberem bênção por herança… quem quiser amar a vida e ver dias felizes, afaste-se do mal e faça o bem; busque a paz com perseverança… mesmo que venham a sofrer porque praticam a justiça, vocês serão felizes… estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados de suas calúnias. É melhor sofrer por fazer o bem, se for da vontade de Deus, do que por fazer o mal … Porque é louvável que, por motivo de sua consciência para com Deus, alguém suporte aflições sofrendo injustamente. Pois, que vantagem há em suportar açoites recebidos por terem cometido o mal? Mas se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus. Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos. ‘Ele não cometeu pecado algum, e nenhum engano foi encontrado em sua boca’. Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça… Pois vocês eram como ovelhas desgarradas, mas agora se converteram ao Pastor e Bispo de suas almas” (Primeira Epístola de São Pedro 3.8-18; 2.19-25). O que se espera de um cristão quando sob perseguição é que se lembre das palavras de Jesus em seu sermão do monte: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Evangelho Segundo São Mateus 5.10-12).

Eis as razões porque considero que esta guerra dos Estados Unidos contra o Iraque não é santa. É uma guerra travestida de santa: santa-nás. São pelo menos três os equívocos que cometem os que pretendem dar ares de santa e reivindicar a bênção de Deus para a esta guerra. O primeiro é identificar ou confundir o reino de justiça e paz com um estado político (como por exemplo o Estado de Israel), em detrimento do reino de Deus. O segundo, é atribuir o protagonismo do reino de Deus a um estado político (como por exemplo a América do Norte), em detrimento da Igreja de Jesus Cristo, a saber, a comunhão mística e histórica de todos os que reconhecem a divindade e messianidade de Jesus e se submetem à sua autoridade. Finalmente, acreditar que um reino de justiça e paz se estabelece pela violência e ódio (como por exemplo a guerra entre USA e Iraque), em detrimento do poder do amor.

fonte: Blog do Ed René Kivitz

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