Por um outro mundo possível

Ricardo Gondim

No século XXI, o mundo balança numa imensa gangorra cósmica. Os acontecimento sobem e descem numa velocidade alucinante; mal dá para tomar fôlego. Bem e mal se atropelam nas acrobacias econômicas, nos avanços da indústria bélica, nos transtornos energéticos, no desprezo ambiental. Respira-se um ar de suspense. Como castelo de cartas, tudo pode vir abaixo de um dia para o outro e, nas arquibancadas, metade do planeta engole o pavor da impotência. Intuímos que algo está fora do lugar.

Algo está errado com a religião que prevaleceu no Ocidente e que colocou o sacerdote engravatado a gesticular como dono da senha da abundância divina. Ele repete ad nauseam que bastam algumas cédulas para que as “bênçãos retidas por Satanás” deslanchem. São profissionais da religião que promovem uma espiritualidade que dá de ombros às mulheres com tigela na mão diante de funcionários das Nações Unidas; mulheres que imploram por um punhado de arroz para servir de refeição para os filhos esquálidos.

Algo está errado com o poderio militar que o mundo considera a solução para tensões étnicas, religiosas e culturais. O progresso da tecnologia a serviço da morte se tornou perdulário: não pergunta quantos quilômetros o tanque de guerra faz com um litro de combustível, mas, quantos galões para percorrer um quilômetro. Milhões de dólares parecem migalhas quando se trata de mísseis, porta-aviões ou caças supersônicos. Pouca comparação é feita entre o poderio esmagador de um exército e a escassez de gaze, esparadrapo e penicilina numa clínica de periferia urbana. Enquanto bombas caem, orientadas por raios laser, a vacina que erradicaria a malária não sai de estágios experimentais.

Algo está errado com o entretenimento midiático que criou uma nova safra dos ricos e famosos sem habilidade, virtude ou competência. A mediocrização da mídia sagra ícones vazios em grande velocidade. O apresentador de televisão, que não sabe nomear a capital da Alemanha, exibe diamantes como troféus. Resta perguntar: por que não se considera isso um acinte? Principalmente quando se sabe que aquela joia poderia suprir um vilarejo de água potável.

Algo está errado com um sistema econômico que dispõe de fábulas de dinheiro para socorrer grandes bancos da falência. Sabedor de que existe alienação e insensibilidade, o banqueiro fica livre para festejar o novo alívio financeiro com uma impenitente recepção no iate da famíla. Enquanto perdura complacência poucos vão se lembrar que os impostos pagos por eles nunca chegarão ao transporte público; e o ônibus que pegam, continuará a arrastar-se, abarrotado, por avenidas engarrafadas.

Algo está errado com um mundo em que muitos, exaustos, não têm lágrimas para serem solidários com a mãe que acabou de enterrar o filho morto pelo tráfico. A robotização dos afetos se alastra e se vê cada vez menos compaixão; mais frios, homens e mulheres se desumanizam.

Algo está errado quando otimismo fatalista bate de frente com pessimismo niilista e não sobra nenhum realismo esperançoso.

Mesmo diante dessa gangorra, com tanta coisa em jogo, espero que surjam mulheres e homens dispostos a arregaçar as mangas, e que nasça um outro amanhã.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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