O crepúsculo dos profetas

Por Daniel Piza

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O assassinato de Osama Bin Laden parece ter antecipado muitas reflexões que seriam feitas em setembro, por ocasião dos dez anos do atentado contra as torres do World Trade Center em Nova York. Muitos se perguntam se isso terá algum efeito prático, não apenas simbólico, no sentido de evitar ou estimular novos ataques terroristas. Desde o início me pareceu que a decisão de não divulgar imagens do corpo era para não despertar ímpetos de martirização. Mas, concretamente, afora alguns protestos no Paquistão e algumas queixas contra o método, o resultado é mesmo mais simbólico. Chegar a 11 de setembro próximo e lembrar Osama livre e impune não soaria nada bem. Além disso, o presidente Barack Obama tem sido tão vilipendiado, a ponto de ter de mostrar sua certidão de batismo havaiana, que a ação lhe veio a calhar. Ponto.

A questão maior é observar o que aconteceu nesse período, não apenas em relação ao desmantelamento da Al-Qaeda e outras redes terroristas, mas sobretudo quanto à conjuntura política internacional. Na pesquisa que fiz para um livro que chega às livrarias na próxima semana, Dez Anos que Encolheram o Mundo (editora Leya), me espantei ao rever o tom que se seguiu ao 11 de setembro nas mais diversas culturas. A sensação era de que se tratava do fim do mundo. Para uns, como Stockhausen, o ato apocalíptico foi uma obra-prima; para outros, como Berlusconi, era hora de montar novas cruzadas contra o islamismo. Até os mais moderados, entre platitudes do tipo “o século 21 começou” e “nada será como antes”, jamais imaginaram que nos dez anos seguintes haveria muito mais demonstrações de bom senso e liberdade do que o contrário. Que um Barack Obama seria eleito nos EUA e que uma série de revoltas populares contra governos tirânicos eclodiria nos países árabes.

Os profetas, para variar, erraram. Para variar também, hoje fingem que não disseram nada daquilo. Já notei aqui, por exemplo, como as tão ruidosas manifestações “antiglobalização” dos anos 90 foram sumindo ao longo do tempo, perdendo força e cabimento. Como repórter, cobri aquele período dos “fóruns sociais” em Porto Alegre e Mumbai, que se opunham ao de Davos, na Suíça. Debates e até brigas ocupavam a mídia vários dias. Aonde foi parar todo aquele clima? Eis algo interessante de tentar entender.

Naqueles movimentos já havia uma ambiguidade clara: os trabalhadores dos países desenvolvidos temiam pela perda de emprego para mão de obra mais barata; os de países subdesenvolvidos achavam que as grandes corporações multinacionais engoliriam suas soberanias e salários. O que aconteceu? Na primeira década do século, os emergentes cresceram muito acima da média mundial, sobretudo China e Índia, que cada vez mais se industrializam e geram tecnologia própria. E isso ajudou a manter o crescimento mundial, dada a quase estagnação dos mais ricos. No Brasil, um presidente que veio do sindicalismo adotou a política que os mercados financeiros queriam e estimulou crédito e consumo.

Nos anos 90, o debate era entre dois livros, O Fim da História, de Francis Fukuyama, e O Choque das Civilizações, de Samuel Huntington. Um dizia que a democracia liberal ocidental era um patamar de estabilidade na história do mundo; o outro, que grandes correntes culturais continuariam em atrito cada vez maior. Ambos parecem ter errado. Economias de mercado e/ou regimes democráticos são cada vez mais comuns, mas numa infinidade de graduações (a começar pela China, onde o Estado é dirigista e ao mesmo tempo cobra poucos impostos), não em acordo com meia dúzia de regras conservadoras do consenso de Washington. E os confrontos entre civilizações persistem, mas quase ninguém mais se atreve a dizer que países mais religiosos não querem saber de votos e grifes, que o islamismo seria por definição incompatível com liberdade.

Obama, por sinal, colhe frutos da morte de Osama, mas foi muito razoável quando a histeria pós-11/9 estava no pico. Não se opôs à invasão do Afeganistão, onde o Talibã acolhia a Al-Qaeda, mas se opôs à do Iraque, ao contrário do casal democrata Clinton, por duvidar das provas exibidas do apoio de Saddam Hussein. Esse discurso equilibrado, que pareceu e ainda parece republicano demais aos democratas e democrata demais aos republicanos, foi um salto de maturidade. A mera eleição de um homem com sua biografia e sua cor era um sinal histórico. Mas não foram apenas a crise econômica dos países desenvolvidos nem a eleição de um Obama que modificaram o panorama no norte da África e no Oriente Médio; não foi nem mesmo a percepção de que o fanatismo não leva a nada, nem sequer ao fim de Israel. Foi tudo isso junto e mais o espraiar dos meios de comunicação e informação, que revelaram o desgosto com as autocracias anacrônicas. O mundo mudou. Que as mentes mudem.

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