A violência pornográfica

Publicado originalmente por Mark Sayers no blog dele

Depois de assistir a filmes como Jogos Mortais, O Albergue, Viagem ao Inferno e Rejeitados pelo Diabo, David Edelstein, crítico de filmes da revista The New Yorker, criou o termo “tortura pornô”. Um gênero de filmes que vai muito além do antigo horror de A Hora do Pesadelo e revela, de forma quase erótica, a tortura e a degradação de personagens das formas mais brutais possíveis.

Assim como seu derivado sexual, o erro da ilusão pornográfica é o pecado da distância. A audiência se deleita com a violência, enquanto mantém uma distância segura do que ocorre na tela. As consequências reais da violência e do horror são mediadas através de um filme, portanto não há nenhuma consequência para o público. Trata-se de violência e humilhação como uma experiência de consumo. E assim como as mulheres são “coisificadas” com tanta pornografia sexual, na tortura pornô as vítimas é que são coisificadas, reduzidas a simples canais de nossa fome sádica.

A tortura pornô não é o único ambiente em que o nosso apetite para o sadismo tem crescido – basta olhar os diferentes espectros da cultura popular. Acompanhe o crescente sucesso  de programas de televisão como Dexter, em que um serial killer se torna o herói, ou aqui a série australiana Underbelly,  que mostra mortes reais e brutais e se tornou a minissérie de entretenimento mais assistida no domingo à noite.

Veja o surgimento de competições de luta como MMA tornando-se um esporte de massa. Ou ainda as infindáveis horas gastas por milhões de usuários em jogos de tiro e outros jogos de videogame violentos. Parece que nosso apetite por violência, degradação e tortura é interminável neste começo do século XXI. Até mesmo a televisão aberta, que em geral não pode mostrar a violência real, ainda é construída sobre uma comercialização de vergonha, humilhação e exposição.

Até mesmo a pornografia sexual reflete a fixação de nossa cultura com a violência e a degradação. Hugh Hefner criou a corrente principal da pornografia nos anos de 1950, quando lançou a revista Playboy. O modelo de negócios de Hefner baseava-se na ideia que homens queriam ver mulheres atraentes nuas, conceito que agora parece ultrapassado e antiquado. Basta ver a letra de algumas das músicas que estão no topo das paradas, consumidas principalmente por adolescentes.

O jornalista Chris Hedges, em seu livro Império da Ilusão, explora como o espetáculo e o entretenimento ultrapassaram a cultura contemporânea. Hedges percebe o enorme crescimento da pornografia na vida contemporânea, algo que a maioria de nós já tem consciência. O que é particularmente preocupante nas conclusões de Hedges é o fato de a pornografia não ser mais apenas sexo, mas também degradação e violência. Hedges observa que:

Os filmes pornôs mais bem-sucedidos continuam testando os limites físicos e emocionais das mulheres na tela e incorporam uma série crescente de atos físicos e verbais abusivos.

Enquanto Hedges estava escrevendo sua exposição que mostra as entranhas da indústria de entretenimento adulto, imagens foram liberadas pela mídia mostrando a humilhação dos prisioneiros de guerra do Iraque pelos soldados invasores. As imagens para Hedges pareciam quase indistinguíveis do que é mostrado pela pornografia pesada. Em algumas fotos, os guardas deliberadamente recriaram cenas de filmes pornográficos; surpreendentemente muitas das imagens mostravam mulheres guardas forçando prisioneiros homens a simular os mais humilhantes atos sexuais. O efeito cultural da pornografia tinha ultrapassado a coisificação da mulher, para ser a cosificação de todos. Hedges escreve:

A violência, a crueldade e a degradação da pornografia são expressões de uma sociedade que perdeu a capacidade de sentir empatia… É a linguagem do controle absoluto, da dominação total… e da humilhante submissão. É um mundo sem piedade. Trata-se de reduzir outros seres humanos a simples mercadorias, objetos.

Nessa cultura a pedofilia corre solta e a violência doméstica é uma praga. Os pobres são reduzidos a meras estatísticas, as vítimas de guerra se tornam danos colaterais, os doentes mentais são perturbações públicas. Nessa cultura, desprovida de empatia, fofoca e escândalos substituem o discurso público, as telas se tornam objetos distantes criando a ilusão que removem nossa culpa. E ficamos cheios de desejo, não só pela carne, mas por ver outras pessoas sendo dominadas, feridas e humilhadas. Os outros se tornam instrumentos de nossa vontade.

Cerca de 1.400 anos atrás existia uma cultura que tinha um apetite similar por violência e falta de empatia. O circo romano era o ápice desse apetite freroz. Um dia, enquanto a multidão clamava por sangue, uma clara e solitária voz gritou “pare!”. Um monge cristão do leste, chamado Telêmaco, implorou à multidão para se afastar do culto ao sangue e se voltar para o único Deus verdadeiro. Telêmaco foi inspirado por uma visão diferente do valor da humanidade, uma crença perigosa de que somos criados à imagem de um Deus amoroso, e por isso toda vida humana era sagrada, refletindo a obra divina. Telêmaco provavelmente foi morto pela multidão enraivecida, mas sua morte comoveu o Imperador que assistia a tudo, e que ordenou o fim das Batalhas dos Gladiadores.

Precisamos de outros Telêmacos hoje. Vozes fortes e claras que gritem: “pare!”.

Tradução: Agência Pavanews

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