Não acredite em tudo o que você lê na internet

Agência Pavanews

A invenção da internet mudou a maneira de as pessoas se comunicarem no mundo todo. Contudo, também tornou-se “terra de ninguém” quando são divulgadas notícias falsas ou boatos. Como não há nenhum tipo de controle, o que cai na rede pode se espalhar e ser reproduzido um sem-número de vezes. E quando a notícia, a imagem ou o vídeo simplesmente não é verdadeiro?

Algumas dessas mentiras se espalham durante anos por e-mail que são repassados por milhares de pessoas, com informações sobre um suposto pacto satânico de uma empresa de cosméticos, uma peça de teatro com um Jesus homossexual  ou imagens que “provariam” que os gigantes descritos na Bíblia realmente existiram. Esse, na foto ao lado, trata-se de um concurso de manipulação de fotos do site Worth1000.

Existem sites especializados em criar histórias como o The Onion, nos Estados Unidos, e o Sensacionalista, no Brasil. Tratam-se de páginas humorísticas que trazem para o mundo virtual uma prática antiga: o jornalismo mentira. Usado para aumentar as vendas de jornais em diferentes partes do mundo, a criação de manchetes e divulgação de fotos sensacionalistas sempre atraiu a atenção das pessoas.

Manchete recente do The Onion afirma que equipe da NASA “encontrou e matou Deus no espaço”

Não é raro ver alguém sendo “morto” no Twitter ou a exposição de fotos e vídeos que fazem sucesso até que alguém prove ser uma simples montagem, como aconteceu com as supostas imagens do corpo de Osama Bin Laden. Parece que muitos creem naquele antigo provérbio chinês que diz: “uma mentira bem contada vale mais do que uma verdade medíocre”.

O problema ocorre quando algumas dessas matérias são copiadas e anunciadas por sites e blogs como verdadeiras. Muitas vezes causam confusão nos leitores e geram “escândalos” desproporcionais, não raro comprometendo a credibilidade de quem divulgou, a famosa “barriga”, como é chamada no meio jornalístico. É preciso ficar atento especialmente quando o título usa termos como “polêmico”, “escândalo”, “denúncia” e termos semelhantes.

No meio gospel já existem sites de humor de pessoas e igrejas que são bastante populares, nos Estados Unidos um dos percussores é o Christwire, no Brasil os mais conhecidos são a “irmã” Cleycianne (que na verdade é o humorista Thiago Pereira) e do finado site da Igreja Internacional (do inexistente pastor Silas).

Esse tipo de humor tem o objetivo de satirizar e provocar, não de informar. O surpreendente é quando o leitor lê algo criado por esses “humoristas do cyberespaço” e reproduz sem a mínima preocupação de verificar a fonte e a autenticidade da notícia.

No ano passado circulou na rede a informação que um pastor havia declarado que o símbolo das entradas USB dos computadores era uma referência ao tridente do Diabo e proibido os fiéis de usá-los. Mentira do site Bobolhando que já mostramos aqui.

Também foi divulgado que pessoas haviam ressuscitado nas cidades atingidas pelos desabamentos no Rio de Janeiro. Mentira também denunciada aqui. Nos dois casos, as notícias falsas tiveram inclusive repercussão internacional.

Nos últimos dias, duas histórias começaram a circular nos sites e blogs brasileiros. Uma delas dava conta que um pregador de rua inglês foi preso por denunciar a homossexualidade como pecado. Embora verdadeira, a matéria tem mais de um ano e o pastor não apenas foi solto como também recebeu indenização do Estado britânico.

Outra, mais sensacionalista ainda, conta a história de um pastor que teria trocado a esposa pelo cunhado e requerido a guarda dos filhos. Brincadeira do blog TPM (Tramado por mulheres) que usa em vários dos seus posts uma imagem para explicar aos desatentos que se trata de uma piada. Para não deixar dúvidas, ainda utilizam a tag “jornalismo mentira” e/ou “blá, blá, blá” para identificar tais matérias. Pelo jeito, ninguém observou esses detalhes e é provável que alguém publique em breve que a notícia Pastor é preso após organizar suruba evangélica também é verdadeira.

Aviso no blog TPM parece ser ignorado pelos que reproduzem as “matérias “

Será que precisamos de algo como o “detetive virtual”, quadro do Fantástico que explica o que é e o que não verdade entre as milhares de informações que circulam na internet?

Onde está a responsabilidade dos editores e jornalistas que se esquecem de uma das regras mais básicas do jornalismo: “checar as fontes”? Infelizmente, é prática comum a publicação de notícias sem a fonte primária e o link correspondente. Isso priva o leitor da garantia de que aquele órgão de imprensa se deu ao trabalho de investigar os fatos antes de simplesmente “copiar e colar”.

Infelizmente, o nível de absurdos no meio evangélico não surpreende ou choca os leitores. Os internautas tendem a defender seus pontos de vista nos comentários e os não-religiosos por sua vez usam esses absurdos para discorrer contra os abusos cometidos em nome da religião.

Se “a imprensa é a vista da nação”, como afirmou Ruy Barbosa, está na hora de avaliar a qualidade das lentes que temos usado para enxergar os acontecimentos do planeta.

EM TEMPO:  Alguns leitores disseram que a fonte original citada não era do TPM como argumentamos, mas sim  do Portal Correio. É necessário um esclarecimento a mais. No TPM saiu dia 15/04 e a jornalista Adriana Bezerra, que escreveu para o Portal Correio, o fez em 10/05. Ou seja, quase um mês depois. Ela não dá sua fonte, mas as informações e a foto são as mesmas da TPM. Uma pesquisa no Google revela outras imagens do “pr Rochinha e marido”, que na verdade é de um casal de israelenses gays com uma criança em 2008. Uma busca no Google Images pelo nome verdadeiro deles, Yonathan e Omer Gher, revela dezenas de fotos e até um vídeo da CNN, também de 2008, num site sobre barriga de aluguel, procedimento adotado pelos israelenses da foto. Em suma, a falha foi dupla, do Portal Correio que copiou do TPM sem checar as fontes e das dezenas de blogs que reproduziram e geraram mais um “escândalo” falso na internet.

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