O Realengo e a infância desprotegida

Texto de Carlos Bezerra Jr. publicado originalmente na Folha de S.Paulo

A morte de uma criança representa um pedaço do futuro que se vai, rouba-nos a esperança. E, especialmente, o massacre de Realengo, no Rio, nos deixou chocados pela forma, pela frieza, pela mídia, pelo espetáculo. Porém, crianças e adolescentes têm morrido dia a dia, vítimas dos múltiplos tipos de violência que uma sociedade indiferente e desatenta pratica cotidianamente contra eles.

Há milhões de meninos e meninas, em salas de aula, nas ruas das cidades ou nas próprias casas, gritando por socorro neste momento, sem serem ouvidas ou vistas por microfones ou câmeras de TV.

Até que você termine de ler este artigo, ou seja, em menos de dez minutos, pelo menos mais uma criança ou adolescente terá sofrido violência, segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.

O massacre de Realengo nos deixou muitas interrogações.

Quem era Wellington Menezes de Oliveira, o ex-aluno que matou 12 crianças? Houve vários possíveis diagnósticos dados por especialistas -vítima de bullying, esquizofrênico, psicótico. O que me pareceu unânime até aqui foi nomeado pela linguagem popular: monstruosidade. Mas foi o tempo vivido numa sociedade que abusa que distorceu sua personalidade.

Como disse o intelectual alemão Bertolt Brecht: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem”.

Quando vejo uma tragédia tão assustadora, penso no tipo de opressão que pode causá-la. Sabemos que vítimas de violência, dependendo de suas constituições emocionais, podem se tornar abusadores quando adultos. Retornar à escola, para Wellington, foi voltar à infância em que sofreu abusos.

Se essa for a resposta, de nada valerá o desarmamento -nem que seja mais do que bem-vindo- ou a instalação de patéticos detectores de metal na porta das escolas.
Enfrentei dilema parecido à frente da CPI da Pedofilia, na Câmara Municipal de São Paulo: o de optar entre medidas “espetaculosas” (mas de pouco impacto) ou estudar a fundo a máquina pública organizada para proteção da infância.

Ao escolher a segunda opção, acertamos no alvo. Crianças vítimas de abusos não têm a quem recorrer, não encontram profissionais capacitados. Elas dependem de políticas precárias, estão alijadas de seus direitos.

Certamente, Wellington também não teve condições de se defender da infância violenta, assim como não ofereceu defesa a quem matou.

Mesmo que o argumento vencedor para explicar sua monstruosidade seja o da esquizofrenia, também faltou preparo aos profissionais de educação e de saúde que acompanharam o seu desenvolvimento para identificá-la e tratá-la.

Hoje é Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; ainda continuamos a oferecer um ambiente fraco para o desenvolvimento intelectual e hostil para o amadurecimento psicológico das crianças.

Mas, pior do que isso, seguimos ignorando seu choro.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O Realengo e a infância desprotegida

Deixe o seu comentário