Pedro Juan Gutiérrez: “Trepem mais”

Texto de Xico Sá publicado originalmente na Folha.com

Com um desprezo sem fim ao mundo virtual, o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, 61, com quem tive o prazer –quase sexual!- de conversar hoje, nos deixa uma mensagem explícita: levantem a bunda destes computadores e cuidem mais das suas mulheres. Uns poucos amigos também merecem o mesmo cuidado olho no olho.

“Trepem mais, como se diz no Brasil, vivam mais intensamente, dramaticamente, não se tornem escravos da virtualidade”, lançou a sua mensagem a este blog, como uma boa garrafa de rum cubano atirada nos mares interneteiros, antes de iniciarmos uma mesa do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, no Sesc Vila Mariana, em SP. Fui mediador da conversa.

Diante da plateia composta por calientes e curiosas chicas –quanto oclinhos inspiradores-, a prosa seguiu na mesma pegada: “Tem que tocar”, resumiu o seu panfleto contra a virtualidade. O que tem com o seu nome na internet, um site homônimo e uma conta no facebook, é feito por amigos. Nisso, ele faz questão de não tocar, passa a léguas de distância.

É, amigo(a), para o cubano, vale o mantra de Eduardo Kac, um gênio de Copacabana: só se cura um amor platônico com uma trepada homérica.

Mas não ficamos só nessa questão básica da humanidade: tocar e não tocar. Gutiérrez começou a participação com uma pequena mostra dos seus poemas visuais, colagens-chistes produzidas recentemente na Espanha –vive no momento uma temporada entre Madrid e Tenerife, onde escreve novo livro.

Durante a projeção dos poemas, leu um belo texto sobre os jogos da criação literária, realçando o seu amor por Cortázar, este outro grande jogador, e Kafka, uma obsessão também da sua jogatina como leitor.

A importância desse “juego”, entre leitor e escriba, que era o tema central da mesa, não obscureceu, evidentemente, o cheiro de sexo e a realidade cubana. Foi tão importante quanto os livros na sua formação, mirem no exemplo meus rapazes, uma puta de 40 anos para quem gastou a imaginação em mirabolantes enredos masturbatórios. Isso é que é oficina de criação!

Pedro Juan Gutiérrez sempre evitou falar de maneira mais direta sobre a política do seu país, embora a sua ficção diga tudo sem carecer de algo mais didático ou panfletário. Contou que a leve abertura no regime já fez surgir pequenas edições dos seus livros na Ilha.

O autor de “Trilogia Suja de Havana” (Companhia das Letras) é um animal literário, daqueles que vivem intensamente para escrever depois, mas, cuidado, amigo, muita coisa que se publica sobre ele é uma hipérbole sugerida pelo universo da sua criação e o folclore em torno da sua biografia.

Conta que não foi, por exemplo, gigolô, como registram fartamente por ai. A proximidade com as putas sempre foi mais carinhosa.

Não foi gigolô, porém exerceu o jornalismo durante 26 anos. Haveria alguma semelhança entre os dois ofícios?, perguntei. O animal literário, mamífero e por isso mesmo com grande queda pela conjunção carnal, como ressaltou, apenas riu. Disse que voltaria a ser periodista na buena. Mas não em Cuba, onde não teria liberdade total para o exercício.

Se a virtualidade mereceu um cruzado de direita do boxeador, o Politicamente Correto levou uma esquerda no baço: “Vai acabar com o mundo”. O seu livro “O Animal Tropical” não foi publicado nos EUA por essa patrulha pé-no-saco, contou. Na Europa, disse, os editores também estão contaminados pela correção exagerada.

E você, meu prezado rapaz, minha estimada rapariga, o que achou das opiniões de nostro hombre em Havana? Exagerou na questão da vida virtual¿ Foi demasiadamente apocalíptico quanto ao políticamente Correto? Agora eu quero ouvir.

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