Um caso de amor

Ricardo Gondim

À medida que amadureço (sim, um eufemismo para envelheço) descubro um novo amor: a literatura. Desde meus verdes anos, testemunhei meu pai sempre com um livro na mão. E desde que me entendo por gente, nunca negligenciei o hábito de ler. Porém, devido a minha vocação pastoral, por longos anos debrucei-me apenas sobre livros teológicos, filosóficos. Encarei-os como instrumentos que me auxiliariam a exercer bem minhas atividades; eu precisava fundamentar o meu ministério. Passei anos sem ler um romance, uma novela. Poesia, nem pensar.

Pouco antes de completar 40 anos, percebi que conhecia pouquíssimo de literatura brasileira, e que a maioria dos autores não passavam de pessoas famosas da história. Sem ter folheado uma obra de José Lins do Rego ou Rachel de Queiroz, eu sabia nomear apenas alguns livros de Machado de Assis e Jorge Amado. Resolvi abrir “Fogo Morto”, de José Lins do Rego, e encantei-me com o regionalismo de sua pena – já devorei quase toda a obra do Zé Lins. Logo, vi-me sedento. De uma sentada li “O Quinze”, que Rachel de Queiroz escreveu ainda adolescente, deitada de bruços no mosaico frio da sala de sua casa. Aquiesci. Minha antipatia por Graciliano Ramos era sem motivo.

“Vidas Secas” havia sido reduzido por mim a uma tarefa escolar odiosa no “ginásio”. Reli a obra prima e depois tudo o que ele produziu. Confesso, viciei-me em literatura. Parece que minha paixão veio em cascata, não consigo mais parar. A pena de autores fenomenais me deslumbra.

Ainda procuro não me distanciar dos livros técnicos, lógicos, com pensamentos bem estratificados. Porém, minha nova paixão está na literatura. Quando terminei de ler “Os miseráveis”, de Victor Hugo, suspirei e disse em voz alta: – Não acho justo que alguém passe pela vida sem ter lido esta obra, que é um libelo sobre perdão, graça e amor. Seu personagem, Jean Valjean, talvez seja uma das mais belas representações de Jesus Cristo.

De igual modo, encantei-me com “Crime e Castigo”, de Dostoievski. Em uma Rússia miserável, o livro flui de um pessimismo – que trata homens e mulheres comuns como “piolhos” — para a redenção, só possível no amor.

Eu poderia mencionar o elenco que me embasbacou nesses últimos dez anos: Alexandre Dumas, Mario Benedetti, Mia Couto, John Updike, Franz Kafka, Miguel Torga, Lev Tolstói, Albert Camus, Gabriel Garcia Márquez, Thomas Mann, Philip Roth, J. M. Coetzee, Milan Kundera, Sándor Márai, Primo Levi, João Ubaldo Ribeiro e tantos outros.

Com a literatura aprendi que posso viajar pelos meandros da alma humana.

Descer até os porões escuros da maldade e reconhecer a extensão da iniquidade que se universalizou. Acompanhar o caminho de heróis e heroínas e também reconhecer que a imagem de Deus foi graciosamente distribuída por toda a humanidade. Machado de Assis trabalha seus personagens sem dourá-los com lantejoulas falsas. Bentinho e Capitu, bem como outros protagonistas, ficaram parecidos com personagens bíblicos, com sombras e luzes.

Com a literatura aprendi a desdobrar a vida para além das engrenagens do dia-a-dia. Mundos fantásticos, como o de Gabriel Garcia Márquez, são criados para que possamos sonhar para além da realidade crua. Essa capacidade de sonhar, tão comum entre os profetas, nos leva à inconformidade com o mundo do jeito que é. Os profetas narram cenas em que leão e boi pastam juntos e crianças enfiam a mão na toca das serpentes para que nos mobilizemos na direção dessa utopia. O que existe pode ser mudado de acordo com outra maquete. Quem viu outra realidade, mesmo em sonho, passa a desejá-la.

Com a literatura aprendi como é importante sair dos pensamentos concretos e abstrair. Sutilezas da linguagem metafórica passam batidas por quem só sabe pensar no rigor da letra. Jesus tentou comunicar-se com Nicodemos, mas ele não adquirira essa sensibilidade no treinamento de fariseu. Era simplório interpretar a ideia de nascer de novo como voltar ao ventre da mãe.

Com a literatura aprendi que a vida não pode ser avaliada pelos critérios de desempenho que passaram a vigorar no pragmatismo ocidental. O imensurável da alma humana não tolera ser confinado a desempenho, eficácia ou mérito. Ao ler duas obras de Tolstói, “A morte de Ivan Ilitch” e “Anna Karenina”, despertei-me para o valor do tempo, das relações humanas e, principalmente, do cuidado que devemos ter com o universo de subjetividade que é a alma humana.

Com a literatura aprendi a amar a Bíblia. Antes, eu fazia das Escrituras um
manual de “verdades práticas que deveria saber usar proveitosamente”. Só agora aprendo a vê-la como uma coleção de textos em que o Espírito Santo comunica o amor de Deus. A Bíblia é uma carta amorosa de Deus. Portanto, sem a pretensão de fazer análise gramatical ou dissecação das palavras, deixo-me inundar pelas narrativas, conceitos, princípios, poesia, ensinos.

Tento meditar, numa mastigação lenta, nas mensagens que me animam, exortam, consolam. Deixo-me vazar pelo inaudível até que o coração capte o que ficará obscuro se eu me apressar. Leio e releio com o desejo de me render à sabedoria, à beleza e à verdade do maior de todos os autores: o meu Senhor.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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