Compositor de ‘Oração’: Fomos os primeiros a nos parodiar


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Texto de Marcela Rocha publicado originalmente no Terra Magazine

Com baixo orçamento, Glauber Rocha fez clássicos do cinema brasileiro. E é dele que veio a máxima: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Mais de 70 anos depois, o grupo curitibano “A Banda mais bonita da Cidade” seguiu à risca o lema do Cinema Novo e os resultados foram 3 milhões de reproduções – durante uma semana e dois dias -, em um canal de compartilhamento de vídeos, do clipe Oração, música de Leo Fressato.

“É um clipe sem custo”, define o compositor, que relata para Terra Magazine como foi o processo de produção, tanto da música, quanto do clipe:

– As pessoas que foram gastaram as suas gasolinas, comidas e suores. Foi isso. (…) Chamaram os amigos músicos e pediram: “quem puder traz seus computadores e seu material, microfones e tal…”. Cada um levou o que tinha e assim produzimos o vídeo, que na verdade era apenas um registro. A ideia não era ser um clipe, mas um registro pra gente ter, mostrar para os amigos, material de trabalho… – relata o compositor formado em Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná (FAP).

Ao comentar as paródias feitas do clipe e publicadas no Youtube, Fressato diz ter “adorado” e revela: “Nós fomos os primeiros a nos parodiar”. Ele postou na internet um vídeo dele e mais uma cantora rezando o “Pai Nosso”, em analogia ao tema da música original (veja acima).

Além da repercussão nacional, a banda foi digna de destaque na internacional. Já figuraram nas páginas de diários como o Clarín (Argentina), Corriere della Sera (Itália) e Washington Post (Estados Unidos). Sucesso instantâneao, graças à internet, a banda pretende desenvolver novos trabalhos em breve, além de surfar nessa boa maré provocada pela canção que virou hit em menos de uma semana.

Confira abaixo a entrevista com o compositor Leo Fressato. Nela, ele revela que “Oração” nasceu de uma frustração amorosa, comenta o cenário musical nacional e explica como faz sua música dialogar com a dramaturgia.

Terra Magazine – Esperavam essa repercussão?
Leo Fressato –
A gente esperava um burburinho. Mas pequeno. Tinham várias pessoas no clipe, então elas passariam o vídeo adiante. A gente sabia que teria várias visualizações, dentro daquele vídeo tem várias bandas de Curitiba juntas. Mas nunca pensamos que seria desta forma.

Qual foi o maior retorno?
Por ora, poder mostrar o trabalho, tanto eu, enquanto compositor, tanto a Banda Mais Bonita da Cidade… todos fazem trabalhos sérios de pesquisa em música e que estão sendo executados há anos. O principal é abrir Curitiba, que tem uma fama de ter pouca cultura local e, talvez por isso, tenha muita pesquisa de linguagem. Essa galera que está produzindo música aqui dificilmente aparece em nível nacional. Acho que agora, um dos maiores ganhos é cultural, mostrar Curitiba.

Quanto custou esse clipe?
É um clipe sem custo. As pessoas que foram gastaram as suas gasolinas, comidas e suores. Foi isso. Convidamos amigos assim: “Olha, tem essa música do Leo, ele sempre canta no show com galera, e já que a gente vai gravar, queríamos filmar com galera”. Chamaram os amigos músicos e pediram: “Quem puder traz seus computadores e seu material, microfones e tal…”. Pronto, foi isso. Cada um levou o que tinha, com a câmera, com o steadicam (um equipamento para estabilizar a câmera, dando a impressão de que ela flutua), e assim produzimos o vídeo, que, na verdade, era apenas um registro. A ideia não era ser um clipe, mas um registro pra gente ter, mostrar para os amigos, material de trabalho. Colocamos na internet e, de repente, em uma semana e dois dias, tivemos 3 milhões de acessos.

Está escrito no vídeo que a banda adora Beirut. O que mais influencia o grupo?
A banda repagina as músicas dos cantores paranaenses, esse é o trabalho de pesquisa deles. Mas tem outras influências assim como Beirut, tem Belle and Sebastian, várias bandas indies, outras de MPB. Eu tenho mais influência da MPB, tanto como compositor quanto como intérprete.

Qual é a sua formação?
Formado em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Nesse momento, faço algumas coisas com a banda e outras individualmente com a Ana Larousse, ela, no violão e eu, na performance vocal e cênica. Acho que essa é a grande graça, ser extremamente dramatúrgico.

O que achou das paródias?
Eu adoro. Eu faço paródia de músicas de todos os compositores da banda. Inclusive, a primeira paródia de “Oração” foi postado no YouTube por mim e pela Ana, uma semana antes da música ser liberada na internet. Eles estavam demorando pra liberar o material, aí eu falei que, como compositor, eu iria liberar sem a Banda Mais Bonita autorizar. Aí, eu liberei esse vídeo falso, com a gente rezando o Pai Nosso. Acho que as paródias mostraram que a música chegou até as pessoas e as afetarem de uma forma que as incentivou a fazer alguma coisa. Se não tivessem feito nada, aí sim, eu teria ficado triste como artista.

O que acha do cenário musical brasileiro?
Só se fala de amor em alguns estilos musicais. Ninguém mais fala de temas para outros grupos. De certa forma, a gente alcançou de crianças a velhinhos. Tem alguns caras do sertanejo falando de amor, mas é uma coisa mais jovem, os caras do emocore também falam sobre amor, mas para adolescente. Acho que falta alguns grupos serem atingidos. E, de certa forma, creio que conseguimos fazer um pouco disso talvez…

Qual foi a inspiração da música “Oração”?
Eu tinha feito uma música – anterior a ela ” muito rancorosa: “Para um antigo amor”. É uma música linda, mas super dramática, super doída. Passados uns 15 dias, eu pensei que o único jeito de salvar o meu coração daquela dor era me livrar de não querer mais “te matar com a canção”, mas “salvar seu coração”. Por conta disso, eu fiz “Oração”. Foi uma frustração amorosa de fato, mas eu sou muito romântico. Algumas pessoas falam que “Oração” parece comercial de Margarina. Eu não acho, embora o clipe seja um pouco isso, ele representa essa utopia que é salvar o coração. Para mim é bem triste, no momento em que eu fiz a música, há dois anos, era bem difícil, na verdade…

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