Ouvindo Lady Gaga numa perspectiva teológica

Publicado originalmente por Tom Beaudoin no National Catholic Weekly e Nicole Pramik na Relevant. Traduzido e adaptado por Agência Pavanews

No meio de todas as coisas importantes acontecendo na igreja e no mundo, existe espaço para mais uma palavra sobre Lady Gaga? Se as teorias atuais sobre a cultura popular estão corretas, existem mais razões do que nunca. Afinal, a cultura da mídia popular – por bem ou por mal – contribui para muitas pessoas (inclusive os religiosos) criarem uma “leitura da vida” sonora, visual e tátil.

Algum tempo atrás, pesquisei quem estava pensando teologicamente sobre Lady Gaga. Fico feliz em compartilhar, com a permissão dos autores, algumas dessa respostas profundas. Para os leitores mais jovens, ou aqueles líderes que trabalham com essa geração, talvez estas reflexões aqueçam o debate.

* Opinião de Nicole Pramik, que escreve sobre cultura e espiritualidade

Não se pode negar que Lady Gaga é a “garota-propaganda” da singularidade. Ela não suporta o conformismo e seu apelo mostra isso. Ela acredita que cada pessoa é uma criação única, independentemente da origem social, herança racial ou mesmo deficiência física. Ela vê nossas diferenças como motivo de comemoração e incentiva a liberdade para vivermos ecoando nosso foco no indivíduo e não no grupo. Gaga delira em ser ela mesma e mostra ao resto do mundo como não devem ter medo de ser um pouco diferente. Infelizmente, ela tenta justificar suas opções de vida questionáveis ​​com este argumento. Gaga revela um lado mais sombrio da nossa cultura, impulsionado por uma visão de mundo que revela uma concorrência ambiciosa e uma vida sexual centrada no “faço o que me faz sentir bem” . Além disso, a letra de Born This Way reafirma uma mentalidade de pessoas espirituais, mas hiper-tolerantes…

Em parte, a mensagem de Lady Gaga não é totalmente original. Sendo indivíduos especiais feitos por Deus, devemos nos alegrar com nossa singularidade. Nossa cultura admira o que é diferente e devemos nos ver como o designer original fez a cada um. É bom ser dono de si, assumir riscos e fazer algo original com nossas vidas. Afinal, recebemos algo exclusivo de Deus e temos a necessidade de usá-lo para servi-Lo no mundo.

Por baixo de suas roupas e perucas extravagantes, a música de Lady Gaga serve como um espelho de nossa cultura. O que ela revela pode não ser sempre bonito, mas é verdadeiro.

* Opinião de Jessica Coblentz. Ela está terminando um mestrado em Estudos Teológicos na Universidade de Harvard e planeja começar um PhD em Teologia no  Boston College em breve:

“Ter um amante diferente não é um pecado” – essa mensagem afirmativa sobre sexualidade na música Born This Way de Gaga é bastante aceita pela maioria dos jovens adultos que conheço. Sendo assim, o real impacto teológico da sua obra não está na posição da cantora sobre a sexualidade, mas em sua disposição de anunciá-la. Como fica evidenciado pela letra de Born This Way, e no seu vídeo recente, é esse “ethos de autenticidade” que leva Gaga a dizer isso. Ela não hesita em articular esta “autenticidade” também em uma linguagem teológica. Enquanto minha geração se envolve com o desempenho ousado de “autenticidade”, ouvindo seu imperativo para reverenciar isso nos outros e respondendo ao seu comando para ir e fazer o mesmo, eu me pergunto como nossas conversas teológicas – sobre sexualidade e qualquer outro tema – vão ter de mudar.

* Opinião de Maggi Van Dorn, que está fazendo um mestrado em Divindade na Harvard Divinity School, com foco em artes, espiritualidade e justiça social:

Você não pode negar que em seu desempenho sempre surpreendente, Lady Gaga faz você pensar duas vezes. Os fãs respondem à sua arte performática porque ela oferece uma mensagem que as pessoas estão ansiosas para ouvir: Você é lindo(a) em toda a sua estranheza. E ela faz isso do modo como eles querem ouvir: com uma encenação e um ritual.

Enquanto a igreja alega ter uma tradição de amor incondicional e prática ritual integrada, a admiração obsessiva da maioria dos fãs de Lady Gaga revela um grande déficit pastoral em nossa forma de praticar o amor e a aceitação. De modo especial em relação àqueles que são continuamente marginalizados pela igreja e pela sociedade. Poderíamos esperar que os esforços da igreja para compreender e celebrar o amor seriam tão provocativos quanto os de Gaga.

* Opinião de Rachel Bundang, PhD em ética e professora de estudos religiosos na Faculdade Marymount, em Nova York:

Ela é a “Mãe Monstro”, a “Nossa Senhora dos Estranhos”. Eu gosto de Gaga e tenho uma apreciação crítica por ela. É verdade, suas raízes estéticas são Madonna, disco music e o artista plástico Andy Warhol, mas ela tem habilidades reais para fazer sua própria música.

Trazer a noção de encarnação como alguns teólogos fazem em relação às questões LGBT é falar sobre a encarnação na vida de Gaga de suas crenças, experiências, e esperanças para seus fãs. Sua apresentação, experiência midiática e sensibilidade visual/performática fazem dela alguém fantástica, gerando um detrimento de sua música. Ou seja, a música é simplesmente um veículo para a fama, para que ela se torne um ícone (ídolo?) vivo, que respira o ultraje intencional .

Mas pensemos sobre essa encarnação de outro modo. Imagine Gaga se apresentando a capella e sem maquiagem ou figurino estravagante. Ela seria, então, não a Gaga santificada e adorada como “Mãe Monstro” no pedestal (da mídia), mas a Gaga-que-anda-entre-nós, que conhece e entende a dor de ser um estranho, um pária, alguém rejeitado. O mais próximo que ela chega disso é em sua performance acústica da música Speechless. Ela está sempre “conectada” com seu público e almeja fama. Isso é uma insistência que não pode ser ignorada ou esquecida, embora alguns pensem que também sugere uma falta de humildade ou uma tentativa de compensar alguma necessidade ou desejo desconhecido.

As perguntas fundamentais são: a encarnação nos ensina a ser o máximo que podemos ser ou revela um elemento mais simples, mais essencial do ser? Uma leitura cuidadosa (da teologia feminista) do trabalho de Gaga mostraria que todos nós somos responsáveis ​​por nosso próprio brilho.

Muitos dos aspirantes a artistas de hoje a consideram como um modelo. E muitas das letras letras de suas músicas parecem se propor a difundir o evangelho de dignidade e respeito, que são a espinha dorsal da Doutrina Social da Igreja.

Comentários

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1 Comentário

  1. Bem interessante. Abraços!

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