Falsas transgressões

Querida irmã,
Imagino que você deva sentir na carne a tensão entre o prazer do sexo e a piedade cristã. Não é de se surpreender, pois tanto dentro quanto fora da igreja a pressão pela negação dos prazeres é muito grande.
“Agostinho, Jerônimo, Orígenes e muitos outros dos primeiros teólogos proeminentes (junto com muitos filósofos pagãos) explicitamente rejeitaram o eroticismo como uma experiência humana positiva, insistindo que a sexualidade deveria ser divorciada de prazer numa vida moral e ligada unicamente à função de procriação.” (J. Boswell, Christianity, social tolerance and homossexuality, p. 164, citado/a em “Uma brecha no armário: Propostas para uma Teologia Gay, de André Musskopf).
Uma das cenas do filme “O Nome da Rosa” ilustra isso: o monge Adso de Melk transando com uma mulher e sentindo enorme culpa. (Adso confessa depois que aquela mulher foi o único amor de sua vida e ele nem ao menos sabe o nome dela) Não é para menos: a religião hoje, assim como há vários séculos, se afirma em grande parte – senão inteiramente – como negação da experiência humana. Logo, a vida dedicada a Deus exigiria a negação dos prazeres da carne. E ainda mais para mulheres, relegadas por séculos através da História a seres humanos de segunda classe.
Nós conhecemos os argumentos: “quem ama espera”, “não é certo”, “não convém”, “não há amor”, “é pecado”, “é pecado porque é pecado”, etc.
Os religiosos, irmã, gostam de criar pecados para oferecer junto o escape da culpa. Mas esse escape é falso, pois a própria transgressão é fabricada. Será que a sexualidade seria um cabresto? Acho que sim. Principalmente para as mulheres. Mulheres precisam ser bem comportadas, “moças de família”, pois assim convém.
Cara irmã: dê para seu namorado sem sentir culpa. Use camisinha. Vá ao motel. Celebre o amor. Aproveite a vida com responsabilidade. Busque relações felizes, respeitosas, francas e saudáveis.
E vá muito além da moral farisaica. Não se contente com nada menos do que rapazes que a admirem e a respeitem profundamente. Não admita que você seja vista como objeto. Pecado, querida irmã, são atos que ferem a dignidade humana do outro ou da outra.

 

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