Amigos de Fé

Ciro Correia França, na revista IDEIAS

Tenho inveja dos homens e das mulheres de fé, seja qual for a fé que professem.

Do alto da sua compreensão meus bem-aventurados amigos de fé observam-me, penalizados, a arrastar as frustrações de pagão pela vida afora, certos do fim dantesco que me espera:

— Perto do fogaréu do inferno isso aqui é fichinha, cara!, leio em seus piedosos olhos.

Irrecusável por princípio, a solidariedade desses amigos só faz acrescentar mais uma às minhas adversidades: a de achar palavras de recusa que não soem desdenhosas à amizade com que me honram e tampouco à fé que professam. Com benevolência fraterna ensinam-me como salvar o meu corpo e, iniciando-me nos mistérios da fé, pretendem exonerar a alma, que supõem que eu tenha – de purgar castigo eterno nas profundas do inferno.

— Custa muito – indagam-me os peregrinos – você percorrer o Caminho do Sol, (uma senda em meio à caatinga nordestina, lá onde o diabo perdeu as botas) e procurar o padre Inácio, cujas curas assombrosas só podem ser explicadas como milagres?!

E como negar à esposa do amigo que me imponha as mãos, numa fervorosa manobra japonesa chamada de reiki, que me livrará do tumor? Ou como impedir minha mulher e filhas de levarem-me ao consultório itinerante de uma índia (que pilota a 200 km/h uma camioneta Ranger de luxo, sempre caçada por exercício ilegal da medicina) se essa aborígene, em troca de míseros 300 reais, me dará três pacotes de uma salvadora argila que esfregada na minha paleta vai pulverizar a doença que se encerra em meu peito?

Com quais palavras negar-me ao tratamento mágico da auto-hemoterapia, indicado pelo amigo bem-intencionado que me diz ter recuperado com ele, em poucas horas, trezentas mil das suas plaquetas?

— Tenha fé… recomenda-me, com voz grave.

Ah! E os espiritualistas?

Como fazer ouvidos moucos aos apelos desses beneméritos que resgatam para o nosso convívio o ectoplásmico dr. Fritz (sempre ele!), esculápio alemão desencarnado antes de Fleming ter descoberto a penicilina, mas que incorporado no ponta-esquerda do time de futebol de areia de Antonina receita num patoá arrevezado, com forte sotaque teutão, mezinhas capazes de implodir até o caroço de mil abacates, que dirá um carocinho mixuruca como o meu!? Sem falar nas cirurgias incríveis que realiza, valendo-se apenas de uma torquês enferrujada e de um chumaço de estopa!

— Custa tentar, custa!?

E os adeptos da magia negra (vade retro!)? Esses, com um brilho sádico nos olhos, querem convencer-me de que se eu esquartejar e beber o sangue de um bode preto em cima de um túmulo hebreu receberei em troca a cura imediata!
Os esportistas? Esses atletas asseguram-me que se eu nadar todos os dias 18 mil metros no estilo butterfly e, à tarde trotar 45 quilômetros no Parque Barigui, ganharei saúde olímpica e força equina, e diagnosticam:

— Esse sedentarismo ainda vai acabar te matando!!!

Alguns camaradas esotéricos fitam-me – hélas! – com olhos de bagre morto e com voz cava sussurram a palavra mágica que eu julgava conhecer: “resiliência”. Essa palavra bem sonante, soprada ao pé do meu ouvido em tom de quem divide com você um segredo insuspeitado da física universal, parece guardar a fórmula secretíssima do Bálsamo de Ferrabraz, que será a minha redenção. Embora eu insista em querer saber o exato alcance do cabalístico vocábulo, apenas repetem-no: “resiliência…resiliência…”, como se me oferecessem a chave que me fecharia o corpo para todos os males.
Recorro então ao meu novo Aurélio atrás do significado do termo:

Resiliência – “[Do ingl. Resilience.] S.F. 1. Fis. Propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora duma deformação elástica. 2. Fig. Resistência ao choque”.

Interpretado o verbete e posto em português prático, tem-se que, se metais com resiliência fossem utilizados nos automóveis, esses retomariam imediatamente as suas formas originais depois de submetidos àquelas prensas de ferro-velho. Pretendem os que me sopram a palavra que eu me torne um desses personagens indestrutíveis de filmes bélicos de ficção futurista, que espedaçados por um tiro de bazuca no esôfago, imediatamente se refazem do estrago causado e pigarreiam faceiros.

Ah! E os predestinados espaciais! Esses sorriem superiores quando eu descarto sem mais essa nem aquela a possibilidade de ser abduzido por um óvni e curado! É preciso que você acredite que não estamos sós, insistem, apontando-me a infinita abóbada celeste.

— Posso tentar interferir… me diz um deles que afirma manter estreitas ligações com alienígenas marumbinistas e que já passou pela sideral experiência mais vezes do que o trem de Paranaguá passou pela estação de Morretes.

Apresentaram-me também a um cultor de Aristóteles que recomendou-me a esclarecedora leitura da obra do notável filósofo grego, que descobriu, entre outras coisas de embasbacar, que os testículos servem como contrapeso para manter o pênis em ereção, como no sistema da balança romana. (Esse Aristóteles tinha cada uma! – penso comigo…)

Há ainda aqueles que querem fazer-me crer em conjunções astrais, favoráveis tanto ao corte de cabelo quanto à cura de qualquer mal… Outros querem dar uma mãozinha também, como os quiromantes, os leitores do tarô etc…

Por falar nisso, procurando o significado de um nome caí outro dia num desses sites ocultistas*, que também explica a origem dos nomes próprios. A pesquisa estava aberta no prenome da minha médica e aproveitei  para ler.

Lá estava o seu significado: “Princesa”.

Hummm… Tem fundamento, pensei. E continuei a ler:

“Pessoa muito séria e com grande honestidade no meio profissional, busca a perfeição em tudo e se aborrece quando as coisas não saem conforme o planejado. Reflete muito antes de agir e quando toma uma decisão é capaz de mergulhar de cabeça no que está fazendo e esquecer todo o resto à sua volta. É atraída por assuntos ligados à saúde e adaptar-se-ia  muito bem ao trabalhar nessa área…”

Não poderiam ter acertado mais em cheio.

Prossegui lendo…

“Não se familiariza com encontros sociais preferindo sempre atividades que exijam concentração. […] Nunca age com a intenção de impressionar e por isso só participa de conversas quando está embasada na sua observação e na sua cuidadosa análise. […] Dificilmente confia na opinião de alguém…”

Gulp! Na mosca de novo!

Assustado com o acerto do diabo da coisa, decidi não ler mais nada, com medo de tornar-me um adepto de arcanos e outros bichos.

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