A internet é a minha religião

Jim Gilliam é um especialista em internet e um ex-cristão. Durante o Personal Democracy Forum 2011, ele deu a palestra acima para uma audiência de 900 pessoas  e contou sua história devida e como a internet ajudou a restaurar o seu corpo e sua fé. O vídeo está em inglês e é necessário fornecer seu email para assistir na íntegra. Abaixo está a tradução de parte do discurso disponível no Tech President.

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Existem três pilares para um movimento ter sucesso: histórias, ferramentas adequadas e fé. O que eu quero falar hoje é sobre fé. Minha luta com a fé. Cresci amando duas coisas: Jesus e a Internet. Meu pai trabalhava na IBM e mudamos para o Vale do Silício quando eu era muito novo. Nossa casa ficava na frente de uma igreja. Era uma megaigreja, com milhares de pessoas indo aos cultos. Nós frequentávamos essa igreja que era bastante ligada à direita evangélica, mais precisamente à Moral Majority, liderada por Jerry Falwell. Nasci de novo e dei minha vida pra Jesus aos 8 anos de idade e me tornei um adolescente bastante conservador. Eu formei uma visão de mundo bastante rígida. Participava ativamente de minha igreja, fazia viagens missionárias, só escutava programas religiosos, etc.

Minha família procurando defender a mim e minhas irmãs das más influências do mundo. Mas um dia trouxe meu pai trouxe para casa um telefone esquisito que fazia barulhos estridentes. Aquilo ficava ligado no computador e acabou me atraindo. Descobri que a internet fazia os computadores “conversarem” uns com os outros. Logo me interessei e aprendi tudo o que pude sobre o assunto.

Algum tempo depois estava conversando com pessoas de diferentes partes do mundo que não me julgavam pela minha idade, mas pelas minha ideias. Eu tinha 12 anos e conheci todo tipo de pessoas, hackers, feministas, punks…

Fui para a tradicional Liberty University, conceituada escola confessional onde todo aluno era treinado para ser um guerreiro do Reino de Deus em suas profissões. Eram milhares de alunos ligados por uma rede de igrejas. Pouco tempo depois uni minhas duas paixões e ajudei o grupo religioso a criar uma rede de comunicação, instalei a internet na universidade, fiz o seu primeiro website e até consertava os computadores dos pastores.

De repente, comecei a ficar sem ar. Descobri que tinha câncer nos pulmões! Eu fiz todos os tratamentos, me submeti a nove sessões de quimioterapia,  orei e esperei meses pela cura. Minha mãe descobriu na mesma época que também tinha câncer. Minha família e minha igreja estavam conosco o tempo todo. Eu sobrevivi, mas minha mãe não. E com isso minha família foi destruída e minha fé em Deus profundamente abalada.

Seis meses depois, o câncer voltou, mas dessa vez no sangue. Leucemia. As chances de achar um doador compatível e sobreviver eram pequenas, menos de 10%. Passei meses no hospital. Sentia que Deus havia me abandonado. Até que apareceu minha salvação. Vi um pequeno saco de medula óssea sendo esvaziada no meu braço.

Foi então que dei o meu coração para a Internet. Eu estava a caminho de uma carreira de sucesso na área de tecnologia da Internet. Trabalhei na engenharia de ferramentas de buscas como o Lycos. Até que vieram os ataques de 11 de setembro. Aquilo acordou o ativista dentro de mim. Eu sabia que precisava fazer algo ou me arrependeria depois.

Através dos novos meios de defesa de ideias, como o estúdio de cinema Brave New Films, tentei mudar a maneira como as pessoas pensavam sobre a guerra no Iraque. Ao mesmo tempo o ativismo online também mudou minha forma de ver a vida. Durante meses blogamos sobre a guerra, fizemos um documentário e aos poucos fomos vendo a mídia convencional mudar sua abordagem do assunto. E foi o ativismo que, eventualmente, restaurou minha fé, não em Deus, mas fé nas pessoas ligadas pela internet. Fizemos outros documentários e montamos uma rede online onde pude trocar ideias e colaborar com centenas de usuários.

Eu havia passado por dois tratamentos de câncer, horas de quimioterapia. Aquilo enfraqueceu muito os meus pulmões. Para continuar respirando eu precisava de novos pulmões, de um transplante duplo. Ou seja, alguém precisava morrer para que eu pudesse viver. Isso foi em 2005. Era preciso achar um cirurgião disposto a realizar um procedimento tão arriscado, algo difícil de encontrar. Comecei a ler sobre o assunto na internet e descobri que a UCLA era a melhor opção.

Mas o hospital da UCLA [Universidade da Califórnia] me rejeitou, e eu protestei. No meu blog!  Foi então que passei a escrever muitas coisas que eu não deveria mencionar. Mas meus amigos ativistas  começou a fazer um lobby na internet para que o hospital que me rejeitou reconsiderasse. Eles escreveram sobre o assunto em seus blogs e enviaram centenas de e-mail, naturalmente. Meus amigos acusaram o hospital de não querer fazer cirurgias arriscadas para não prejudicar suas estatísticas de sucesso. Até que, duas semanas depois, finalmente um cirurgião aceitou me operar e comecei a fazer os exames.

Demorou quase um ano até que o hospital me chamou. Foi então, antes de sua cirurgia, que eu percebi que devia minha vida à interconectividade humana. Eu não pensei em Jesus, no céu ou coisa assim. Eu devia minha vida a centenas de pessoas que lutaram por mim na internet. Pensava como essa interconectividade seria representada em meu próprio corpo na forma de três conjuntos distintos de DNA. O meu e dos que me doaram a medula e os pulmões.

Foi então que eu realmente encontrei a Deus. Pois Deus é o que acontece quando a humanidade está conectada. Foi somente pela graça de Deus, a graça de todos vocês que usam a internet, que eu fui salvo. Todos nós devemos nossas vidas a inúmeras pessoas que nunca vamos encontrar pessoalmente. Soldados que dão suas vidas pelo país, pesquisadores que descobrem remédios e tratamentos…. Estamos todos conectados de alguma forma.

Quando eu era pequeno, acreditava na Criação, num deus que criou tudo. Hoje nós somos os criadores. E servimos a Deus melhor quando fazemos o que gostamos e damos nossa contribuição para o todo da humanidade. Temos fé que as pessoas conectadas podem criar um novo mundo. Isso é algo espiritual. Sozinhos podemos pouco. Cada um de nós é um criador, mas juntos somos o Criador. Por isso a internet é a minha religião.

 

 

Comentários

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3 Comentários

  1. Adelmo disse:

    Olá!

    Também espero em Deus as minhas respostas.
    Assim como ele recebeu suas bençãos milagrosas,
    receberei minhas respostas, mas lembrem-se “Para Ele por ELe e d’Ele são todas as coisas.
    Até a internet.

  2. Isaque Oliveira disse:

    isso é piada né? é verdade mesmo?

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