Ascensão: o céu é o limite?

Derval Dasilio, na Ultimato

A ascensão do Senhor aos céus foi um fato histórico, espiritual, teológico? Qual é a mensagem fundamental do mistério da ascensão? Superar o espiritualismo intimista, introvertido, a superstição mitológica, a prestidigitação religiosa e toda falta de fé; combinar adequadamente na vida “o céu e a terra”, idealismo e realismo, utopia e compromisso com realidades concretas, acontecimentos finais de uma era (eschaton) e a história, é um desafio para os cristãos que observam a presença da Ascensão do Senhor no calendário ocidental. “Estando eles olhando para o céu, enquanto Jesus subia… perguntaram: por que vocês olham para as alturas?” (Atos 1.10-11). Deixar de olhar para cima é observar a sede de infinito que está em nós, anseio de justiça entre os homens com os pés no chão. Uma advertência a ser considerada. Na Antiguidade, no mundo onde se expandia o Cristianismo, contava-se o caso do sábio que olhava para o céu, tropeçava e caía na ribanceira…
O céu é sinônimo de Deus. Estar no céu é estar com Deus. O evangelho de Mateus usa abundantemente esse significado quando sugere que o Reino dos Céus é o lugar onde Deus reina. As mais importantes utopias humanas encontram lugar na ressurreição do Senhor aqui na terra: a perfeição do “mundo ressurreto”, transformado, ocorre neste chão terreno e não num espaço abstrato; num mundo que exalte a defesa da vida e valores morais e éticos, a fim de que a dignidade humana se sobreponha aos interesses de dominação tão frequentes entre nós. Estamos próximos do céu, mas “ainda não…”. Esperança de bem-aventuranças são sinais da vida em Deus.

As imagens religiosas do céu, contudo, a partir da Idade Média, não conferem com as do céu bíblico. Islâmicos imaginam um céu no gozo do Jardim das Delícias, segundo o Corão, com belas virgens e gentis rapazes disponíveis para os mortos virtuosos. Cristãos, porém, dão de ombro: não somos seguidores de Alá. Mas espiritualizamos o céu e, quando o materializamos, logo elegemos uma dieta de leite e mel no além, sem macho nem fêmea, sexo “homogêneo”, espiritual, asséptico. E diz-se que o céu estará ao dispor de quem já possui vantagens através da “vida consagrada”, aqui, segundo a tradição católica e protestante. Um céu para privilegiados que já vivem no “paraíso” da alienação.

Ao esperarmos pelo céu no além, engrossamos o caldo cultural da violência infernal oposta ao céu autenticamente evangélico, fazendo vista grossa à realidade imediata. Não exigimos compromissos éticos e políticos, vida digna para todos, direitos fundamentais de moradia, trabalho, escola, socialização da saúde, cultura e lazer; não denunciamos a violação dos direitos humanos e de cidadania; aceitamos a homofobia, o preconceito étnico, a negação de igualdade nas relações de gênero, a indiferença, o egoísmo e os comportamentos não solidários; não denunciamos os crimes da sociedade civil, das instituições governamentais, dos juízes que protegem as elites e negam direitos aos fracos enquanto favorecem os ricos; e nos conformamos com a desproteção dos frágeis, crianças e adolescentes em situação de risco.

A linguagem bíblica para o céu é em primeiro lugar utópica: “O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos. (…) A criança de peito brincará junto à cova da víbora, e o menino pequeno meterá a mão na toca do escorpião” (Is 11,6-9). O Apocalipse promete “um novo céu e uma nova terra, onde não haverá morte nem luto, nem grito, nem dor” (Ap 21,4), resposta para os que são constantemente confrontados e ameaçados pela morte, os que gritam de indignação, os torturados e os que sofrem opressão e injustiça. Quando Jesus nos mostra o céu, está apresentando uma fórmula da qual gastamos quase tudo, roendo até o osso depois de sugar o tutano. O céu é a esperança humana de um mundo transformado, um mundo possível apenas com Deus. A fé torna presentes os poderes do mundo invisível do Reino de Deus. Quando falamos do céu estamos falando da proximidade de Deus na vida de mortais comuns! O céu é “aquilo que jamais penetrou no coração do homem” (1Cor 2,9).

O Cristo ressuscitado, por sua Ascensão, não penetrou nos espaços siderais vazios, nem alcançou um lugar acima dos astros e das estrelas do imenso cosmo, ou qualquer ponto misterioso do Universo nas galáxias; ou algum lugar, num buraco negro pesquisado por astrônomos. Cristo atingiu completamente a plenitude, e alcançou o ponto mais alto que humanamente podemos imaginar. Jesus também disse: “Não vos deixarei sós”! Quando na direção da justiça infinita, exigência sob a orientação de Deus, ao penetrar nesse grande Mistério. Este é o significado mais importante da ascensão do Senhor ao céu. Louvado seja aquele que sustenta a nossa fé e esperança no “novo céu” e na “nova terra”.

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010). Site: http://www.derv.wordpress.com

 

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