Virgem, com HIV e sem camisinha – médica alerta jovens sobre o risco de confiar demais

Texto de Isabel Clemente publicado originalmente no Mulher 7 x 7

A Aids que tanto assustou e matou a geração sexualmente ativa nos anos 80 e 90 parece ser coisa do passado. Os atuais portadores do HIV têm acesso gratuito ao coquetel de antiretrovirais capaz de manter o vírus sob controle. Entre os beneficiados pelo avanço da medicina no combate à Aids estão as herdeiras da geração punida pela onda inicial da doença. As “herdeiras” são os bebês nascidos soropositivos. Elas cresceram. São jovens e adolescentes no início da vida sexual, passíveis dos mesmos erros dos demais de sua geração: não usar preservativos durante o sexo e, silenciosamente, espalhar o vírus, que não tem cura e pode ser fatal. O alerta é da médica Yara Lúcia Furtado de Melo, especialista em patologia cervical e vulvar do Instituto de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, referência para tratamento do HIV no Rio de Janeiro. Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis estarão em foco no 14º Congresso Mundial de Patologia Cervical, que será realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 4 e 7 de julho.

Yara faz atendimento ambulatorial na UFRJ. Atende centenas de mulheres todos os anos. O que ela revela nessa conversa com o 7×7 não está baseado em estatísticas, mas na realidade do dia-a-dia do atendimento médico.

Mulher7x7 – O que as estatísticas indicam sobre a contaminação por HIV entre jovens?

Yara Lúcia Furtado de Melo – Sou muito rigorosa com estatísticas por isso não vou citar sem conferir, mas eu trabalho muito com o HIV de forma indireta. No atendimento de pacientes com câncer de colo de útero eu acabo encontrando com essas mulheres soropositivas. A demanda nesses lugares está concentrada. É uma amostra viciada, então, o comum é ter mulheres com HIV. Quem não tem é exceção. Mas, no consultório, onde recebo pacientes recomendadas de médicas infectologistas conhecidas, as moças são das classes A e B, e também estão contraindo HIV. O que eu percebo é um aumento de casos de HIV entre mulheres. Muitas vezes, nas classes mais carentes, o contágio vem da desinformação. Entre as mais abastadas é o excesso de confiança no namorado, na relação. O preservativo é negociado, quando não deveria. Para o HIV, o preservativo é 100% de proteção, o que já não acontece com o vírus HPV.

Está todo mundo abrindo mão do preservativo?

Eu acho que as classes A e B não acreditam que haja HIV circulando entre eles. Confiam demais. É um erro. Eu percebo que entre as famílias mais ativas, mais participativas, em que o tema sexo é conversado com mais liberdade, a consciência é maior. As meninas dizem, na frente das mães, que usam camisinha sempre, com firmeza. Quando não tem bloqueio na conversa, facilita a boa conduta dos jovens. Já entre as classes C e D há muito desconhecimento, falhas. Na UFRJ,  já observei casos de câncer de colo em jovens com menos de 25 anos, o quer não é comum, tanto que a recomendação é rastrear a partir de 25 anos. Mas só depois de fazer a biopsia descubro que elas são soropositivas, o que explica a presença precoce do câncer. As pacientes sabiam e não tinham me informado. O câncer de colo é uma das doenças definidora da Aids. Se ele existe, é o início da doença. Estou deparando com casos assim, de jovens sem maturidade, que relutam em acreditar no perigo do HIV e também na possibilidade de contrair a doença. Jovens têm dificuldade para acreditar em duas coisas: que ficarão velhos e que podem adoecer. Leia +.

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