Muito pouco


Helena Beatriz Pacitti

Muito pouco é quando a gente liga o chuveiro em um dia quente e apenas uns pingos d’água caem no rosto, porque a água do prédio acabou e o porteiro esqueceu de lhe avisar.  Um só pingo é muito pouco.

Muito pouco é quando você tem que parar de brincar, apagar a luz e dormir.  Se você tem de 4 a 8 anos de idade, você se divertiu muito pouco.

Quando aquele pedaço de bolo estava delicioso e você –  que nem gosta tanto de doce –  quis repetir, mas 0 bolo já havia acabado. Isso foi muito pouco.

Muito pouco é quando se ama tanto, mas tanto uma pessoa, e no momento seguinte ela precisa ir embora.  Então tudo o que estava muito bom se torna imediatamente muito pouco.

Quando o tempo corre mais rápido do que imaginávamos e ainda desejamos voltar para um abraço apertado ou um sorriso, mas a chance passou.  Aquele tempo foi muito pouco.

Beber água de moringa, catar jabuticaba no pé, rir de piada conhecida só por consideração ao amigo,briga de travesseiro com os irmãos, andar descalço o dia todo, tomar banho de mangueira: lembranças caras que custaram muito pouco.

E quando uma pequena criança lhe faz perguntas quase irrespondíveis do tipo “por que os homens de meia idade subitamente perdem os cabelos da cabeça e surgem cabelos em suas orelhas?”, ou “por que quando um casal se beija ambos sorriem e reviram os olhos?”, ou “como se pode ter certeza de que o vovô morreu mesmo?”, ou o que significa a estranha expressão que ouviu na escola: “muito pouco” ;  aí percebe que o que a gente pensava ter aprendido, todos os livros que leu, todas as aulas e filmes que assistiu, todas as conversas e palavras que ouviu, isso tudo ainda é, diante da imensidão da vida, muito pouco.

fonte: Timilique!

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