Lugares

Helena Beatriz Pacitti

“Não tendo os homens podido curar a morte, a miséria, a ignorância, resolveram, para ficar felizes, não mais pensar nisso.”

Blaise Pascal

Existem lugares curiosos e bizarros pelo planeta. Contam de um estranho lugar – um país – cujo povo assume comportamentos tão espantosos sobre os quais observadores e jornalistas de outras partes do mundo têm feito invariavelmente as mesmas perguntas:  “Será que os cidadãos não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de seus políticos? Será que não se importam com os ladrões e sabotadores que estão nas três esferas de governo? Será mesmo esse povo naturalmente pacífico, contentando-se com o pouco que tem? Por que seus estudantes e trabalhadores não vão às ruas contra a corrupção? Que lugar é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção? *

Não ouso responder estas questões complexas, mas desconfio que um lugar onde as pessoas achem  normal que automóveis estacionem livremente sobre as calçadas e os pedestres caminhem na rua (assim mesmo, tudo invertido!) possua tampouco o tipo de cidadão pequeno e consciente que se indigne pela corrupção institucional, municipal, estadual ou federal. Leis existem, mas podem ser mudadas informalmente, segundo a conveniência de cada um.

Há uma espécie de epidemia moral  corroendo, lenta e insidiosamente, os valores das pessoas, infiltrando-se  em  segmentos sociais, empresas, corporações.  Por exemplo, se um motorista conseguir estacionar em lugar público permitido é extorquido a pagar uma taxa para não ter seu carro danificado, como pintura riscada ou pneus furados.  O espaço é público, mas pode ser ‘apropriado’ para negócios de proteção particulares.  Isso não se questiona: é  padrão.

Dizem que condutores de motocicletas transitam como bem entendem, avançando sinais vermelhos, na contra mão e fazendo atalho pelas calçadas, expulsando os transeuntes com a buzina. Também há rumores que existam pontos de “mototáxi” ilegais em determinados territórios, digo, bairros. Quem os utiliza paga uma tarifa igual ao transporte público, com a diferença que não são fornecidos capacete, seguro ou proteção.

Guardas de trânsito jamais interferem na circulação desse transporte (mesmo a pedido da população) alegando que a maioria das motos é de procedência duvidosa  ( i.e., roubadas, ou confiscadas, ou sabe-se lá) e que pertencem a “cooperativas informais de policiais civis ou militares”. Curioso.

Aplicaram nas cidades, como em outros lugares do mundo, a Lei Seca. Mas lá ela é invariavelmente desrespeitada, mas democraticamente: seja  ex- governador, um político, jogador de futebol e até um cidadão chinfrim. Há opção: a pessoa pode recusar a se sujeitar ao teste do bafômetro. É muito comum ouvir-se de pais de família (da classe média deles) à saída de restaurantes  gabarem-se diante dos filhos: “Lei Seca – nada que não se ajeite.” Ou seja, é um lugar onde qualquer um – especialmente se puder bancar um advogado – faz o que bem entender, exista ou não Lei para isso.

Ofendeu alguém? Dá-se um jeito.  Acidentou e prejudicou um terceiro? Matou? Dá-se um jeito também. Nada que uma boa fiança e alguns contatos pessoais não contornem.

Triste lugar, imagino, onde corre a cantilena:  Se o Governo ( e respectivos poderes e instituições) transgride, também eu, cidadão comum, tenho o “direito” de transgredir!”

Não sei. Acho que esse lugar deva ser o Chade, ou Mianmar, ou o Burundi, ou uma pobre neo república russa. Coitados deles.

Quanto a você,  não se preocupe. Estão bem longe daqui.

(*perguntas elaboradas pelo jornalista Juan Arias, correspondente  internacional do El País)

fonte: Timilique!

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