Nilton Bonder: um rabino por inteiro

Marília César

Conta-se de um rabino que andava louco de vontade para provar uma daquelas comidas proibidas pela tradição judaica. Ele vai para o subúrbio, entra num pequeno restaurante, senta-se na última mesa, chama o garçom e pede um leitão completo. O presidente da sinagoga, que passava pelo bairro, avista o rabino pela janela e entra. “Como vai, o que faz por aqui?” O rabino transgressor começa a suar frio quando vê aproximar-se o garçom com o leitão assado, imponente, enfeitado com uma maçã na boca. O presidente da sinagoga olha para o prato e pergunta: “Mas o que é isso?” E o rabino responde: “Como eles são sofisticados, você pede uma maçã e olha como vem!”
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O rabino Nilton Bonder tenta viver de um jeito diferente de seu “colega” na anedota. Não só evita o mal, mas a aparência do mal. Bonder leva um susto, mais ou menos como o presidente da sinagoga da piada, ao reparar que a Salada da Chef escolhida como entrada pela repórter veio coberta de finas lascas de bacon. “Mas isto aqui é bacon?”
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Bonder pede, gentilmente, à fotógrafa Ana Paula Paiva que, se possível, não seja fotografado em tão má companhia. “Uma imagem diz muito. Se alguém da minha comunidade vir a foto do rabino ao lado de uma salada com bacon, vai achar que estava comendo bacon.” Assim como Oscar Wilde, ele parece acreditar que só as pessoas rasas não julgam os outros pelas aparências.
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A conversa com esse jovem senhor de 53 anos, gaúcho de nascimento, mas carioca por adoção, autor de 21 livros – entre eles vários best-sellers traduzidos para uma dezena de línguas -, desfaz o estereótipo de líder religioso judeu e flui sem que se note a chegada da incômoda salada. Ela aterrissa com as “brusquetas” de tâmara (feitas com gorgonzola e nozes caramelizadas), pedidas por Bonder como entrada para a refeição no ak/vila, o local escolhido por ele para este “À Mesa com o Valor”. É um restaurante despretensioso na Vila Madalena, em São Paulo, de cozinha internacional, pilotado pela chef Andrea Kaufmann – que o define como “uma cozinha sem fronteiras”, onde se pode encontrar alguns itens da culinária judaica.
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Alimentar o corpo enquanto a alma já está sendo preenchida por um diálogo de perspectivas metafísicas pode parecer um exercício menor, mas a conversa é interrompida a certa altura pelo rabino, que sinaliza apetite: “Não estamos comendo nada!”
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Corpo e alma são os temas da agenda de Bonder. Um livro filosófico e denso que escreveu em 1998, “A Alma Imoral”, levado com estrondoso sucesso ao teatro pela atriz Clarice Niskier, vendeu mais de cem mil cópias e está no centro das atenções mesmo agora, quando lança novo título, “Segundas Intenções“, ambos editados pela Rocco. O êxito de “A Alma Imoral”, texto em que dá vazão ao espírito libertário da natureza humana e aos fortes anseios interiores por mudança e superação, estimulou-o a escrever uma espécie de resposta ao próprio texto. Em “Segundas Intenções”, o corpo tem a palavra.
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– O que há em “A Alma Imoral” que ecoou tanto no coração das pessoas?
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– A ideia do livro é que, para se desconstruir, você tem sempre que buscar um lado “imoral”. Por imoral não quis dizer pervertido ou que vá contra uma moral estabelecida. É em relação à sua moral, aquilo que você constrói como certezas e verdades absolutas e, se não tiver como desconstruir, acaba estagnado, inerte. No “Alma Imoral”, proponho que a pessoa aprenda a ser imoral consigo mesma. Se sou mais conservador, minha imoralidade será libertária. Se sou aventureiro, de correr riscos, minha imoralidade será estabelecer vínculos, assumir compromissos. É, de alguma maneira, desconstruir esse personagem cheio de certezas.
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– Isso parece estar em linha com um princípio cristão que fala da necessidade de negar-se a si mesmo.
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– As disciplinas espirituais costumam ser uma contracultura à cultura do Eu. Você vai ver isso em todas as tradições, e talvez quem fale mais sobre isso seja o budismo. A própria figura de Deus é a única que consegue fazer frente ao Eu. A função de Deus na tradição judaico-cristã é estabelecer um outro personagem em torno do qual a realidade revolve que não seja o Eu. Porque o Eu é um turbilhão. Acreditamos que tudo gira em torno da Terra, mas, mais do que isso, acreditamos que tudo gira em torno de nós mesmos. Nesse sentido, sim, há uma ligação entre esses conceitos.
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Com uma conversa sobre aspectos tão profundos da existência, quem precisa de “brusquetas”? Mas o garçom se aproxima e os pratos principais são pedidos. Bonder escolhe “varenikes” de mandioquinha, um tipo de “tortellone” judaico, e a repórter opta por experimentar o nhoque de berinjela defumada com tahine e tomates salteados – depois do bacon na salada, recomeda-se prudência: é melhor acompanhar o rabino numa opção vegetariana.
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Formado em literatura pela Universidade de Columbia, com mestrado e doutorado no Jewish Theological Seminary, em Nova York, onde se ordenou rabino, Bonder segue o seu raciocínio com a clareza típica dos sacerdotes. Essa inquietude espiritual, nas religiões, argumenta, acaba por tornar-se algo estabelecido. Mas em “A Alma Imoral” aparece como uma inversão.
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“Muitas religiões começam com personagens rebeldes e revolucionários – a figura de Jesus Cristo é gritante nesse aspecto, é um personagem que tem todas as características de um rebelde, de alguém que vai às periferias, que abraça as minorias, os rejeitados, que é contra o establishment, mas acaba virando personagem do próprio establishment. Isso cria uma outra dramaticidade, a de um personagem aprisionado nessas estruturas e instituições. Ao mesmo tempo, sobrevive, porque é muito viva essa mensagem e sua capacidade de ser ‘imoral’, de ser transgressor.”
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Enquanto a alma tem essa força que promove rupturas, o corpo, observa o rabino, tende à tradição, à autopreservação, ao sofá com controle remoto na mão. No livro, Bonder tira do corpo o peso pela grande tentação do ser humano, deslocando-o para a alma. Com isso, está apenas ensinando ao leitor as lições registradas na “Torá” desde o princípio: quando a serpente tenta Eva, o que está em jogo é o acesso a um grau inédito de conhecimento.
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“Hoje parece que tudo o que tem a ver com rompimentos, com infidelidades, tem a ver com a sexualidade. O ser humano está sempre preso à sexualidade. Mas a grande tentação do ser humano é ousar, é arriscar-se. Aí estão as duas grandes forças humanas – a de preservar e buscar conforto, que é a força relativa ao corpo, e a de transcender e reinventar-se.”
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O rabino fala por parábolas e se vale de uma analogia político-partidária: o corpo é republicano e a alma, democrata. Na sua análise, a humanidade inteira pode ser dividida assim: de um lado, republicanos; de outro, democratas. “Claro, pode ter um cinza, mas certos tons de cinza são mais escuros ou mais claros, e o ser humano sempre faz uma opção por uma dessas vertentes. Ocorre que dentro de todo republicano tem um democrata e dentro de todo democrata tem um republicano. E eles precisam um do outro. O equilíbrio é necessário.”
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“Varenikes” de mandioquinha e nhoque de berinjela já esfriam sobre a mesa quando o tema político nos leva ao governo Dilma Rousseff. Bonder votou em José Serra para presidente, mas demonstra ter sido surpreendido positivamente por algumas decisões da presidente, em especial na área externa. “Ela reequilibrou uma série de coisas que para mim eram desequilibradas no governo Lula. Nas relações externas, havia um ranço ideológico de uma minoria que estava sendo imposta sobre o país; um projeto para mim não muito claro, com ‘segundas intenções'”.
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“A nudez em pelo é impossível a
um ser humano com consciência.
Por isso nos vestimos. Ficamos nus até um limite
em que nos sentimos confortáveis
com essa transparência,
mostrando aquilo que somos.
Por isso eu declaro o tempo todo
para o meu povo, para as pessoas
 que estão presentes nessa dramatização
 que é o espaço religioso,
que sou um rabino vestido.”
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Entre esses ajustes, Bonder menciona um distanciamento sadio do governo de Hugo Chávez, “uma república de bananas pela esquerda”: “O governo Lula protegia esses governos. Não quero nem falar do Irã, porque aí eu é que tenho segundas intenções. Apesar de ter carinho enorme pelo mundo árabe. O Irã é um país maravilhoso, de cultura riquíssima, mas o que me incomodava era a incoerência do presidente Lula”, pondera. “Talvez até estivesse fazendo coisas legais no relacionamento com o Irã, não tenho todas as informações para julgar. Mas todos temos obrigação com as coerências aparentes. Você não pode ser uma pessoa que foi contra a tortura, contra a ditadura no Brasil e subscrever tudo o que aquele governo do Irã, que é igual ou muito pior, pratica. Isso não dá.”
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De novo, as aparências, que parece ser uma questão essencial na agenda do rabino. Para manter a própria aparência saudável e esbelta e a disposição para cuidar de sua comunidade, as cerca de 600 famílias que atendem à Congregação Judaica do Brasil, na Barra da Tijuca, no Rio, Bonder cuida do corpo correndo 12 quilômetros quase todos os dias e, eventualmente, praticando natação. Já foi surfista, mas, hoje, só ocasionalmente. Vegetariano há 38 anos, tem na família – Esther, a mulher, arquiteta paisagista, e em dois dos três filhos (Daniel, de 18 anos, Alice, de 16) companheiros numa dieta que admite peixes, ovos e laticínios. A única que não o acompanha é Ana Laura, de 12.
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Para alegrar a alma, e domesticar seus conflitos internos, escreve livros, faz palestras, até mesmo para grandes empresas, como Natura e IBM, que o convidam para falar das lições da tradição judaica que podem ser aplicadas ao mundo corporativo. Os livros mais utilizados como fonte, nesse caso, são “O Segredo Judaico de Resolução de Problemas” e a trilogia das cabalas – “A Cabala da Comida“, “A Cabala do Dinheiro” e “A Cabala da Inveja“, que já venderam mais de 500 mil cópias em 20 anos.
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Uma das aflições do rabino é comum, segundo ele, a todas as pessoas que alcançaram alguma representatividade: ter de lidar com a idealização do público.
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“Todo mundo que ‘sobe num banquinho’ está sujeito a isso. Você pode subir num púlpito e falar de questões utópicas, ideais humanos de honestidade e justiça, mesmo não sendo capaz de fazer 100% aquilo que prega. Toda vez que faço uma prédica, que estou falando uma coisa absolutamente verdadeira sobre o que é certo e justo, eu sei que não faço 100% do que falo. Luto com esse indivíduo em mim que quer fingir às vezes que é capaz de escolher 100% o que é bom.”
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– Você deixa claro para sua congregação que tem esse tipo de conflito interno?
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– Deixo, mas às vezes a comunidade não quer aceitar isso. Para ela, manter uma pessoa num púlpito exige que se mantenha o papel idealizado. E aí sofro muito, porque quando sou visto de alguma forma que possa parecer incoerente com aquilo que estou falando sou cobrado de forma muita violenta. As pessoas ficam chateadas, me chamam de mentiroso. Tenho pânico dessa idealização, quase uma fobia. Toda vez que uma pessoa vem e me diz “ah, você é o máximo”, sei que ali está um candidato a se tornar um inimigo.
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Bonder recorre à frase de um sábio judeu: “Para ser um verdadeiro rabino você tem que ter desafetos. Mas se você tiver muitos desafetos, então, você é uma pessoa com problemas”. Trata com respeito a desconstrução, feita em rede nacional, de uma figura idealizada pela comunidade – a do rabino Henri Sobel, que teve a reputação manchada após ter sido flagrado, em 2007, furtando gravatas numa loja de grife nos Estados Unidos. “Todo mundo que fica num lugar idealizado, fala em nome da moral, de valores, na medida em que se expõe, na mesma medida pode ser ferido. Mas o rabino Sobel, na verdade, teve um episódio de doença, e o correto é que isso tivesse permanecido num lugar privado. Não subia mais apenas num banquinho, ele aparecia na Globo.”
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Ao que parece, o caminho que ele percorre é estreito. Não deve ser nada fácil estar nesse lugar de referência moral e espiritual. Para tornar a jornada mais leve, é preciso sempre estar “vestido”, avalia Bonder.
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“A nudez absoluta é uma mentira, e é disso que trato neste livro. Ao declarar ao mundo que não sou uma pessoa totalmente transparente, esta se torna uma declaração profunda de honestidade”, comenta o rabino. “A nudez em pelo é impossível a um ser humano com consciência. Por isso nos vestimos. Ficamos nus até um limite em que nos sentimos confortáveis com essa transparência, mostrando aquilo que somos. Por isso eu declaro o tempo todo para o meu povo, para as pessoas que estão presentes nessa dramatização que é o espaço religioso, que sou um rabino vestido.”
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A sobremesa vem, doces triviais – sorvete de creme e morangos, pudim de leite condensado – e, em breve, o rabino filósofo parte apressado. A conversa animada o fez perder o voo para o Rio.
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fonte: Valor Econômico
foto: Ana Paula Paiva
charge: Lula

Comentários

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2 Comentários

  1. Palavra que um dia pretendo perguntar pra Deus o que é que Ele acha/achava mesmo ser a tal aparência do mal: o não comer ou não beber isso ou aquilo, o vestir ou o não vestir esta ou aquela roupa, ou deixar de fazer o bem, de buscar a Justiça. Estou ansioso e angustiado para saber qual será a resposta Dele porque se depender de comida, bebida e roupa eu já devo estar marcado para frequentar um  dos anéis inferiores e dantescos do inferno…

  2. Fica tranquilo, Sr. Francisco, que o inferno é invenção do cristianismo! Quem não é judeu não precisa se preocupar com questões de comida, bebida ou roupa; basta ser uma pessoa justa. Os judeus são assim porque são obrigados a obedecer o que está escrito nas leis da Torah (de Gênesis a Deuteronômio) que foram dadas por Deus no Monte Sinai.

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