John Stott: um militante

Robinson Cavalcanti

Quem observava aquele inglês de formação aristocrática, tímido e introvertido, a escrever 50 livros, proferir centenas de palestras e um sem número de artigos e entrevistas, a observar e fotografar pássaros como seu passa-tempo favorito, não poderia imaginar que estava diante de um militante de uma causa: a atualização, consolidação e expansão do evangelicalismo, identificado por ele como o cristianismo bíblico. Para tanto, estabelecia metas, planos e estratégias, tomando medidas concretas, que influenciaram mudanças profundas na história do Cristianismo contemporâneo.

Quando ele começou o seu ministério, liberalismo teológico já era predominante entre os “não-conformistas” (batistas, congregacionais, presbiterianos) britânicos, e o evangelicalismo, que havia conhecido o seu apogeu no século XVIII e primeira metade do século XIX, após as “ondas” do anglo-catolicismo e do liberal-catolicismo, estava reduzida a uma minoria intimidada, isolada paroquialmente, tendendo ao sectarismo e ao anti-intelectualismo, com débil presença social e escassa relevância cultural.

Ao falecer deixa o evangelicalismo renovado pela “missão integral da igreja” em todo o mundo, e nas mais diversas denominações, sendo a tendência majoritária e hegemônica na Comunhão Anglicana.

Stott prestigiou a interdenominacional Aliança Evangélica Inglesa, foi um dos fundadores do Conselho dos Evangélicos na Igreja da Inglaterra (CEEC), hoje presidido pelo Bispo Wallace Benn, fundou a Fraternidade Evangélica na Comunhão Anglicana, como ente aglutinador internacional, estimulando a organização de núcleos nacionais, criou o Centro Londrino por um Cristianismo Contemporâneo, como centro de altos estudos de teologia e humanidades, visando a formação e atualização de líderes, criou o Langham Trust, como um fundo para bolsas para estudos teológicos de pós-graduação para alunos do Terceiro Mundo, transformou a sua casa de campo em Gales em um mini-centro de retiros, investiu, pessoalmente, no treinamento de estagiários.

Tendo sido um militante da ABU (IVF) quando aluno de graduação em Letras na Universidade de Cambridge, sempre priorizou esse ministério, viajando por muitos países e sendo orador periódico do Congresso Missionário de Urbana, Illinois, EUA, que tem reunido 25.000 universitários evangélicos a cada evento. Quando caiu o Muro de Berlim, ele passou os anos seguintes viajando por todo espaço da antiga “Cortina de Ferro”, especialmente falando para pastores, seminaristas e universitários, inclusive na ABU da Sibéria… Mantinha uma intensa correspondência com pessoas chaves dos diversos continentes.

Seu livro Cristianismo Básico foi traduzido para 24 idiomas. Sua presença mais limitada foi nos EUA, onde a Igreja Episcopal o ignorava, mas onde seus livros venderam mais de seis milhões de cópias, e onde organizou uma fraternidade de evangélicos e foi um dos idealizadores do Seminário Trinity, Ambridge, Pensilvânia, berço de novos líderes, que revitalizariam o evangelicalismo anglicano na América do Norte.

Sem essa militância não teríamos hoje o Gafcon/FCA, ou províncias anglicanas evangélicas como a Igreja da Nigéria com 20 milhões de membros.

O Congresso de Berlim, 1966, primeiro, e o Congresso de Lausanne, 1974, foram suas grandes plataformas para expor suas ideias ao mundo. Realizou inúmeras cruzadas evangelísticas universitárias, tomou posições firmes sobre cada novo assunto desafiador, e não fugiu de debates públicos sobre temas contemporâneos, como o que travou com o liberal Bispo Spong sobre o homossexualismo. Com o Conselho Mundial de Igrejas (WCC) no auge do seu domínio pelo pensamento liberal, lá estava Stott na Assembleia de Upsala, Suécia, como solitária e corajosa voz em defesa do cristianismo bíblico e apostólico.

Enfim, John Stott, o Capelão real, agraciado por SM a rainha Elizabeth II com a medalha de Comandante do Império Britânico (CBE), foi tudo, menos um intelectual de gabinete, um teórico desligado, ou preso ao seu gabinete torre de marfim. Ele foi, durante toda a sua vida, de forma sistemática e corajosa, um intelectual orgânico, um intelectual militante, desses que fazem a História acontecer. Que o seu exemplo inspire novas gerações.

A ele, a nossa gratidão e o nosso tributo, orando ao Senhor que levante sempre pessoas como ele na condução da sua Igreja, até a consumação dos séculos.

Comentários

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1 Comentário

  1. Aldo Monteiro disse:

    Bom,muito bom. Eu cheguei a ouví-lo em Serra Negra,Sp qdo veio ao Brasil.
    Homem de Deus sem penduricalhos e sem puxa-saquismo.Glória ao Senhor que o levou.
    tito from brasília.

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