Os famosos e a Cabala

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João Loes e Francisco Alves Filho, na IstoÉ

Foi-se o tempo em que a cabala (pronuncia-se cabalá) era conhecida pelos brasileiros apenas como a filosofia de vida de superestrelas como Madonna, Demi Moore e Naomi Campbell. Nos últimos anos a prática tem ganhado cada vez mais adeptos brasileiros. A procura por cursos, por exemplo, dobrou entre 2010 e 2011 em todos os cinco grandes centros de estudo de cabala ouvidos por ISTOÉ. Multiplicam-se as correntes do ensino milenar judaico e, com elas, ampliam-se as opções para quem quer segui-la. “Não estamos dando conta da demanda”, diz Yonatan Shani, representante do Kabbalah Centre no Brasil, um dos maiores do País. “Não temos professores para atender à quantidade de alunos que querem se inscrever.” Espelhando um movimento que se viu em torno da cabala em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, os famosos, em especial, têm mostrado cada vez mais interesse pela prática por aqui.

“Independentemente da profissão, quem é famoso tem o ego estimulado constantemente”, diz o cantor e compositor Paulo Ricardo, 48 anos, que estudou com o mestre Shmuel Lemle, da Casa da Kabbalah, no Rio de Janeiro, e hoje pratica a disciplina sozinho. “E o ego, para a cabala, é uma espécie de Satã, a origem de todos os males”, explica. Aprender a administrar o ego para que a luz da vida se manifeste com toda força é um dos principais objetivos da cabala (leia quadro na página 70). Essa característica, de vilanizar o ego e propor uma espécie de controle dele, explica o crescente interesse pela disciplina entre as celebridades, mesmo as que não são chegadas aos holofotes. É o caso da discreta Bia Antony, mulher de Ronaldo Nazário, o Fenômeno, praticante da vertente mais popular da cabala, ensinada no Kabbalah Centre. Ronaldo também tem dado sinais de que aderiu. Ele já foi visto, em diversas ocasiões, com a tradicional pulseirinha vermelha, símbolo de compromisso com a causa e amuleto contra o olho gordo. Não se sabe, porém, se ele é tão dedicado quanto Bia, que diz ler a “Torá”, o livro sagrado dos judeus, diariamente e, sempre que pode, cumprir o shabat, dia reservado exclusivamente à fé – começa no pôr do sol da sexta-feira e vai até o pôr do sol do sábado.

No ano passado, Bia foi com as filhas e com a mãe para Israel, onde visitou vários lugares sagrados em uma espécie de “imersão espiritual”. Essa mesma viagem já foi feita inúmeras vezes pelo ator Ashton Kutcher, amigo do casal fenomenal. Quando ele e sua mulher, Demi Moore, ambos adeptos da cabala, vieram ao Brasil no início do ano, Bia Antony abriu sua casa para a dupla. “Se não fossem da cabala, não receberia”, disse, numa rara entrevista à revista “Vogue”. A vinda deles aproximou da cabala outro casal famoso, Luciano Huck e Angélica, que recebeu as estrelas hollywoodianas, na casa deles em Angra dos Reis (RJ). Eles chegaram a convocar Yonatan Shani, do Kabbalah Centre, em São Paulo, para dar uma palestra sobre o assunto no Rio de Janeiro. “Estudei várias religiões e filosofias, como budismo, catolicismo, cabala, judaísmo e peguei o melhor de cada uma para me fortalecer. No fim, Deus é quem manda”, resumiu, recentemente, Angélica.

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Esta abertura da cabala para conviver com outros dogmas é um dos seus atrativos. “É interessante porque ela não é bem uma religião que fica te doutrinando, é mais uma filosofia de vida”, explica a atriz e modelo Ellen Jabour. Ela se encantou pela prática há oito anos, quando cruzou, em uma livraria de aeroporto, com o livro “O Poder da Cabala”, de Yehuda Berg, fundador do Kabbalah Centre. Foi amor, e uma certa obsessão, à primeira vista, segundo ela. Ellen logo fez três módulos do curso oferecido no centro e leu seis livros sobre o assunto. Em seu site incluiu uma seção inteira dedicada à cabala, na qual explica as origens da prática, conta um pouco da experiência dela e lista as chamadas sintonias diárias, que são temas específicos para meditação e estudo. “A cabala melhora a qualidade de vida de quem a pratica porque a pessoa passa a se conhecer melhor e entender o que ela realmente quer”, diz Shmuel Lemle, da Casa da Kabbalah. Lemle só vê vantagens no crescente interesse das celebridades brasileiras pela disciplina. “Elas despertam a curiosidade pela filosofia”, diz.

Para a jornalista Glória Maria, seguidora desde 2003, não são só os relatos de famosos que trazem novos praticantes. “Hoje vivemos soterrados em informação, as coisas acontecem cada vez mais rápido e todos estão em busca de equilíbrio”, diz. A cabala, segundo Glória, ajuda a lidar, de maneira objetiva, com as agonias da vida contemporânea, além de dar ferramentas para que cheguemos ao equilíbrio. “Na nossa vida, há momentos de agir e momentos em que se deve esperar”, exemplifica. “O problema é identificar quando devemos tomar uma ou outra posição e a cabala dá o código para ajudar a desvendar esse enigma”, diz. Ela mesma admite que era mais intuitiva em suas decisões antes de se tornar cabalista. Os rumos eram definidos por impulso, subjetivamente. Hoje ela já pesa as opções, avalia os prós e os contras e só então decide, seguindo os preceitos de causa e consequência que norteiam a disciplina. Os resultados têm sido ótimos, e ela não vê a hora de voltar para as reuniões do centro que frequentava. “Quando as minhas filhas crescerem um pouco mais, retomo”, diz Glória, que adotou duas meninas em meados de 2009.

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Luciano Huck e Angélica: visita do mestre cabalista Yonatan Shani. Marina Lima é praticante há oito anos

A prática da cabala é bem flexível. Cabe a cada um estabelecer o próprio regime de atividades espirituais, mas em geral elas se organizam em ciclos diários. A principal é a leitura de trechos da “Tora” e do “Zohar”, considerado o texto seminal da cabala. Os trechos não são aleatórios e costumam ser escolhidos por um mestre, que posteriormente ajudará no entendimento e na absorção dos vários significados dos textos. Ter aulas é a melhor alternativa para ter acesso a eles. No Kabbalah Centre, por exemplo, o curso introdutório custa R$ 500 (presencial) ou R$ 350 (online), inclui o livro “O Poder da Kabbalah” e os links para acessar as aulas gravadas online. Bolsas estão disponíveis, principalmente para universitários.
Recitar também é comum. O nome de Deus, sempre que invocado, abre novos canais para a entrada da Luz. Já os 72 nomes, criados pelo “Zohar” a partir de três versos seguidos do livro do Êxodo, presente na “Torá” e no Velho Testamento católico, servem como uma espécie de oração para intenções específicas como saúde, paciência, amor e serenidade. No mais, a cabala é exercida na prática, seguindo os cinco preceitos da filosofia. A maior parte do significado e da aplicação da cabala, portanto, está nas diferentes situações que encaramos no dia a dia – conversas com amigos, discussões com desafetos e decisões no trabalho, entre outras – e não concentrada em episódios esporádicos de reflexão, oração e invocação.

Foram esse pragmatismo e a lógica simples dos preceitos cabalísticos que atraíram a atriz Fernanda Souza. Um amigo apresentou a disciplina a ela, que já tinha um livro sobre o assunto, mas estava esquecido em casa, sem nunca ter sido aberto. Com o estímulo, ela se empolgou e começou a ler. Era uma edição de “O Poder da Cabala”, o mesmo livro que despertou o interesse de Ellen Jabour. Logo que terminou a obra, recomeçou a leitura, tamanho o impacto dos ensinamentos do texto. “O que antes parecia complicado me pareceu muito claro naquele momento”, conta. Ela logo se matriculou no curso do Kabbalah Centre e hoje está no terceiro módulo dos ensinamentos. “Aprendemos coisas que, no fundo, já sabemos, mas não conseguíamos tornar claras para nós mesmos.” As mudanças, ela diz, foram notáveis. Mais calma e centrada, hoje ela garante que encara os problemas com mais serenidade. “Aprendi que tudo tem causa e efeito e que, se plantamos uma semente lá atrás, mais cedo ou mais tarde vamos colher”, diz. Em suma, ela aprendeu a ser bem mais cuidadosa com o que planta.

Os livros costumam ser a porta de entrada para a cabala. Os mais populares são “O Poder da Cabala”, de Yehuda Berg, disponível em mais de 40 idiomas (e com milhões de exemplares vendidos, segundo o próprio Kabbalah Centre, que o edita), e “A Cabala e a Arte de Ser Feliz”, de Ian Mecler, com 20 mil cópias comercializadas no Brasil. Mas o tema é um filão em si no ramo editorial. Uma breve visita a qualquer livraria dá a dimensão desse mercado. Um levantamento feito por ISTOÉ apontou pelo menos 76 títulos à disposição dos que buscam a disciplina milenar. Tem cabala com numerologia, astrologia, maçonaria e alquimia. Cabala dos anjos, da saúde, da psicologia e do trabalho. Há abordagens específicas para os adolescentes e para as mulheres e até o mundo corporativo foi contemplado em títulos como “A Cabala e as Empresas”, de Sandra Ayyad. O rabino carioca Nilton Bonder lançou três livros nos quais aborda três campos de interesse com olhar cabalístico: a comida, o dinheiro e a inveja. Um quarto, intitulado “Exercícios d’Alma – Cabala Como Sabedoria em Movimento”, arrematou a série.

Há ainda CDs e DVDs, com material introdutório em áudio e vídeo e, é claro, a internet, fonte praticamente infinita, com milhões de sites tratando das mais variadas vertentes e interpretações da cabala. “Alguns são mais tradicionais e conservadores e outros menos graves, ou mais light”, explica Ian Mecler, autor e mestre à frente do Portal da Cabala, que tem turmas de estudantes no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília e Manaus. “Gosto de pensar na cabala como uma disciplina para ser estudada em camadas”, diz. “Cada um escolhe quão fundo quer ir.” Leia a matéria completa.

Comentários

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5 Comentários

  1. Walison de Paula disse:

    Engraçado como as pessoas tendem a buscar uma religiosidade conveniente, ninguém está nem aí para a vontade de Deus.

  2. Adriana disse:

    Modinha, acho que passa o frison, até que apreça outra velha novidade religiosa.

  3. Anônimo disse:

    Esse não é o verdadeira sentido, Cabala é algo que se estuda para a Glória de Deus, e não para a própria glória pessoal.

    esses citados ai são falsos cabalista.

  4. Robson Lelles disse:

    Será que depois eles evoluem para o Novo Testamento ou vão ficar só nisso mesmo?

  5. Suelidu disse:

    Muito interessante o esforço dessa filosofia milenar (como tantas outras), denominada Cabala. Mas, tudo isso pertence à fase do pensamento, que terminou em 1935. A natureza, conhecida por nós como o Sol, Lua, estrelas, água, terra, animais e vegetais, com sua parte visível e invisível, mudou de fase em 1935, quando entrou outra Energia comandando a natureza, a Energia Racional. Todos têm essa Energia na cabeça, materializada na Glândula Pineal. É a Energia da razão da existência da vida do animal de Origem Racional. E essa Energia só pode ser desmaterializada pelo estudo da CULTURA RACIONAL, para que toda a humanidade conheça o Mundo de sua raça e saiba como voltar para ele. Somos de Origem Racional, por isso estamos nesta classe de animal Racional e o mundo verdadeiro do animal Racional é o MUNDO RACIONAL.

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