O evangelicalismo pós-Stott

Robinson Cavalcanti

Ainda vivos, dos “velhos leões”, do evangelicalismo anglicano, temos J. I. Packer e Michael Greene, ambos aposentados e ainda produzindo. John Stott havia feito a sua última palestra para um grande público na Conferência de Keswick, em 2006, ano em que deixa o seu querido apartamento da Wymouth Street e se muda para o St. Barnabas College, um lar geriátrico para clérigos, onde ainda escreve O Cristão Radical terminado no ano passado.

O fato é que, já há alguns anos, que a Igreja da Inglaterra começara a viver a era pós-Stott. 70% dos estudantes de teologia estão matriculados em seminários de tendência evangélica, e 55% dos clérigos se auto-identificam como evangélicos, embora tenhamos apenas 25% dos Bispos (nomeados pelo Governo) com essa identidade.

Mas, apesar da importância do Conselho Evangélico na Igreja da Inglaterra (CEEC), uma parcela considerável dos clérigos, e a maioria dos bispos, vivem o seu evangelicalismo individualmente, não militando afirmativamente em nenhum movimento, seja por comodismo, seja por opinionismo, há uma fragmentação de tendências, e, apesar do peso intelectual de N.T. Wright e Allister McGrath, e de alguns outros, há um vazio de liderança, pois os tais ou estão instalados no sistema ou não são militantes.

A verdade é que o forte evangelicalismo na Igreja da Inglaterra tem uma presença muito reduzida na liderança do Gafcon, que acaba de instalar um escritório em Londres, chefiado pelo Bispo Martyn Meens (CANA/Nigéria).

Algo se assemelha aos Estados Unidos pós-Billy Graham, entre os históricos, e pós-Rex Humbard, entre os pentecostais, com uma profusão fragmentada de teleevangelistas e megaigrejas, sem o mesmo calibre e sem o mesmo carisma unificador, cada um vendendo o seu peixe e procurando aumentar a sua influência, concorrencialmente.

O Congresso Lausanne III, na Cidade do Cabo, em outubro de 2010, confirmou o caráter pujante, mundial do evangelicalismo, deslocado para o hemisfério sul, mas com os gringos europeus e norte-americanos ainda sendo os financiadores e os que dão as cartas.

No Brasil, a hegemonia evangélica ainda é um fato, e Stott (C. S. Lewis, Packer, etc.) ainda é lido e levado a sério entre os protestantes históricos e em amplos círculos pentecostais, mas o crescente neo(pseudo) pentecostalismo nunca leu esses autores (e tem raiva de quem lê…), os bolsões fundamentalistas os considera “de esquerda” na questão social e ambiental, ou na abertura para as Ciências Humanas, e o recente crescimento do pensamento liberal em algumas denominações e em seminários é formado pelos que consideram tais autores “ultrapassados”. Esse último fenômeno é o que nos traz maior preocupação.

Muita gente pranteia a morte de Stott. Seus livros estão em todas as prateleiras de livrarias e bibliotecas, mas, o que eles defendem, estarão nas mentes e nos corações?

Com a palavra a nascente Aliança Cristã Evangélica do Brasil, a Fraternidade Teológica Latinoamericana, setor Brasil, e os pastores e líderes que se dizem evangélicos diante do desafio externo do Secularismo e do Islã, e do desafio interno do Liberalismo Pós-Moderno.

Resta esperar para ver, enquanto alguns reafirmamos e trabalhamos.

Comentários

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2 Comentários

  1. Alexandre de Sá. disse:

    “Muita gente pranteia a morte de Stott. Seus
    livros estão em todas as prateleiras de livrarias e bibliotecas, mas, o
    que eles defendem, estarão nas mentes e nos corações?”

    Wow!

  2. Rodolfo Pinheiro disse:

    muito bom…. gosto dos textos aqui escritos

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