Videogames são uma forma de religião

Publicado originalmente por Fabio Bracht no Papo de Homem

Quem ainda tem preconceito com jogos eletrônicos está perdendo o desenvolvimento de toda uma nova veia artística e interativa. Mais do que isso, está abrindo mão de um entretenimento que tem muito a oferecer a muitos tipos de pessoas: há quem só passe o tempo, há quem encare com toda a seriedade, há quem colecione, quem ignore todos os outros jogos em favor de um único favorito… e agora há quem queira enxergar neles paralelos com religião. Ao menos em um deles, chamado Chain World.

Em busca da religião perfeita (Foto: Manolo – Flickr.com)

Todo ano, em São Francisco, durante o evento chamado Game Developers Conference, acontece uma espécie de discussão sobre videogames que muito pouco tem a ver com a ideia que a maioria das pessoas tem de uma discussão sobre videogames.

Game Design Challenge, como é chamado esse evento dentro de outro evento (quase que como um Inception), chama os mais visionários criadores de jogos – aqueles que mais pensam fora da caixa e usam seu trabalho para expandir a gama de significados que os jogos eletrônicos sequer tentam expressar – e coloca diante deles um desafio temático de game design. Em 2011, o desafio era aproximar games e religião.

Poucos meses depois, o jogo que venceu o desafio foi o Chain World. Logo de cara, o jogo causou devoção, ira e demonstrações de fé, como a constante discussão que se seguiu com as diferentes interpretações dos seus 9 mandamentos, fato que ocasionou guerras de ideais e invocações de morte aos detratores.

“Nós somos como deuses para os que vêm depois de nós”

Segundo a Bíblia, antes de haver o mundo, havia um Deus. Antes de haver Chain World, por sua vez, havia Jason Rohrer. O game designer americano, respeitado por jogadores e criadores de jogos graças as experiências inventivas de Passage (que fala sobre morte) e Sleep is Death (uma piracão a dois em que um jogador é dependente do outro em um nível fundamental), abordou o desafio de aproximar os games da crença religiosa por um ângulo oblíquo. Sendo ateu, ele não pensou em Deus, Alá, Maomé ou Buda, mas sim no seu avô.

Ao apresentar a ideia durante o evento, Rohrer contou a história de seu avô, que foi prefeito de uma pequena cidade americana há muitos anos e promoveu obras que alteraram características da cidade e que permanecem até hoje. “Nós nos tornamos como deuses para os que vêm depois de nós”, conta ele, ao relembrar que a sua família costuma fazer pequenas viagens até a cidade que um dia foi governada pelo seu avô, visitando as suas obras como se fossem uma espécie de memorial. Foi com essa ideia que o Chain World foi baseado.

Jason Rohrer, o benevolente “deus” criador do Chain World

Descrever o Chain World como um jogo “único” é uma inevitabilidade, porque o jogo só existe dentro de um pen drive, no mundo todo e esse item não pode ou deve ser copiado. Tendo a oportunidade de estar com esse valioso item em mãos, eis os 9 mandamentos que devem ser seguidos para que a experiência valha:

1. Rode o Chain World via um dos atalhos “run_ChainWorld” do pen drive.
2. Comece um jogo single-player e escolha o mundo “Chain World”.
3. Jogue até morrer uma única vez.
3a. Fazer placas com texto escrito é proibido – as suas obras devem falar por si mesmas.
3b. Suicídio é permitido.
4. Imediatamente após morrer e ressurgir, volte ao menu inicial.
5. Espere que o jogo salve.
6. Saia do jogo e espere que o script copie o estado do undo Chain World de volta para o pen drive.
7. Passe o pen drive para alguém que expresse interesse.
8. Nunca discuta com ninguém o que você viu ou fez no Chain World.
9. Nunca mais jogue.

A ideia é que o jogo não tenha um estado inicial. Jason Rohrer foi o primeiro jogador. Ele se aventurou e alterou o mundo até morrer e o segundo jogador herdou esse mundo já desvirginado. Cada jogador verá as obras dos seus antecessores, ali, sem explicação, sem legenda, sem “detonado”, e também tentará deixar o seu legado de alguma forma.

Tudo isso só funciona porque o jogo na verdade é um “mod” baseado em Minecraft, um jogo no qual você é livre para vagar por um mundo gerado aleatoriamente, construindo e destruindo livremente tudo o que quiser, tomando apenas o cuidado de usar os recursos naturais para construir abrigo e armas rudimentares para se proteger de monstros que aparecem só à noite.

Em Minecraft, e portanto em Chain World, não há chefão, nem objetivo final. O objetivo é constante, de explorar e sobreviver enquanto deixa a sua marca no mundo. Eu recomendo o jogo para qualquer pessoa que saiba manejar um teclado e mouse, mesmo que nunca tenha manifestado interesse por videogame.

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