Teólogos tradicionais questionam a existência de Adão e Eva e pedem uma fé para o século 21

Agência Pavanews, com informações de NPR e BioLogos

An engraving depicting Adam and Eve in the Garden of Eden, by Albrecht Durer, 15th century.Pesquisas do Instituto Gallup e do Pew Research Center afirmam que quatro em cada 10 americanos acreditam na existência literal de Adão e Eva. Esta é uma das crenças  centrais de grande parte do cristianismo conservador, e dos evangélicos em particular.

No entanto, recentemente alguns estudiosos conservadores passaram a afirmar em público que já não conseguem acreditar no relato de Gênesis como antes. Perguntado sobre o fato de sermos todos descendentes de Adão e Eva, Dennis Venema, biólogo cristão da Trinity Western University, respondeu: “Isso vai contra todas as evidências genômicas que reunimos ao longo dos últimos 20 anos, então não é algo provável”.

A pesquisa do Genoma Humano

Venema diz que não há maneira de rastrear a humanidade até um único casal. Ele diz que com o mapeamento do genoma humano, está claro que os humanos modernos surgiram a partir de outros primatas – muito antes do período literal de Gênesis, que seria apenas alguns milhares de anos atrás. Dada a variação genética da população atual, ele diz que os cientistas não conseguem conceber uma população abaixo de 10.000 pessoas, em qualquer momento em nossa história evolutiva.

Para reduzir tudo a apenas dois antepassados, Venema explica: “Você teria que postular que houve uma taxa de mutação absolutamente astronômica que produziu todas estas novas variantes, em um período de tempo incrivelmente curto. Esses tipos de taxas de mutação não são possíveis”.

Venema é membro da BioLogos Foundation, um grupo cristão que tenta reconciliar fé e ciência. Esse grupo foi fundado por Francis Collins, um evangélico que atualmente lidera o Instituto Nacional de Saúde.

Venema faz parte de um grupo crescente de estudiosos cristãos que dizem desejar ver sua fé entrar no século 21. Outro é John Schneider, que até recentemente ensinou teologia no Calvin College, em Michigan. Ele diz que é hora de encarar os fatos: “Não houve Adão e Eva históricos, nem serpente, nem maçã, nem queda que derrubou o homem de um estado de inocência”.

“A evolução torna bastante claro que na natureza e na experiência moral dos humanos, nunca houve qualquer paraíso perdido”, diz Schneider. “Acho que os cristãos têm um desafio, um trabalho grande em suas mãos para reformular algumas das suas tradições em relação os primórdios da humanidade.”

Dennis Venema indica o caminho que reconciliaria as posições: “Se ler a Bíblia como poesia e alegoria, assim como tem partes históricas, você poderá ver a mão de Deus agindo na natureza – e na evolução. Não há nada a temer fazendo isso. Não há com o que se preocupar É realmente uma boa oportunidade para termos uma compreensão cada vez mais precisa do mundo. A partir de nossa perspectiva cristã, esse é um entendimento cada vez mais preciso de como Deus nos trouxe à existência”.

Este debate sobre um Adão e Eva históricos  não é apenas mais uma disputa, pois parece estar dividindo a intelectualidade evangélica norte-americana.

“O evangelicalismo tem uma tendência a matar seus jovens talentos”, diz Daniel Harlow, professor de religião no Calvin College, uma escola cristã reformada que tem a queda literal de Adão e Eva como parte central de sua fé.

O Calvin College não aceitou ele ter escrito um artigo questionando o Adão histórico. Seu colega, o teólogo John Schneider, escreveu um artigo semelhante e foi pressionado a demitir-se após 25 anos trabalhando na faculdade. Schneider está vivendo agora de uma bolsa de pesquisa da Universidade Católica Notre Dame.

Vários outros teólogos bem conhecidos de universidades cristãs têm sido forçados a se demitir por causa desse debate. Alguns veem um paralelo com um momento histórico anterior, quando a ciência entrou em conflito com a doutrina religiosa.

“A controvérsia da evolução hoje é um momento tão crucial quando o julgamento de Galileu”, diz Karl Giberson, autor de vários livros que tentam conciliar cristianismo e evolução, incluindo A Linguagem da C iência e da Fé, escrito em parceria com Francis Collins.

Giberson – que ensinava física no Eastern Nazarene College, entende que esse ponto de vista tornou-se muito desconfortável na academia cristã – e o questionamento de Adão e Eva é semelhantes ao que experimentou Galileu no século 17, quando desafiou a doutrina católica que afirmava que a Terra girava em torno do sol e não o contrário. Galileu foi condenado pela igreja e levou mais de três séculos para o Vaticano para expressar arrependimento por seu erro.

“Quando você ignora a ciência, acaba pagando caro”, diz Giberson. “A Igreja Católica pagou um alto preço durante séculos por causa de Galileu. Os protestantes fariam muito bem se olhassem para esse fato e aprendessem com ele.”

Outros teólogos dizem que os cristãos não podem mais se dar ao luxo de ignorar as evidências do genoma humano e dos fósseis apenas para manter uma visão literal de Gênesis. “Este assunto é inevitável”, diz Dan Harlow do Calvin College. “Os evangélicos precisarão enfrentá-lo ou apenas enfiar a cabeça na areia. Se fizerem isso, perderão qualquer respeitabilidade intelectual que possuem.”

Albert Mohler, do tradicional Seminário Batista do Sul, explica: “No momento em que você diz ‘temos que abandonar nossa teologia para ter o respeito do mundo’, acaba ficando sem a ortodoxia bíblica e sem o respeito do mundo”.

Mohler e outros dizem que, se outros protestantes querem acomodar-se à ciência, não devem se surpreender se isso os fizer negar a fé.

Comentários

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10 Comentários

  1. Robson Lelles disse:

    Tudo que a Engenharia Genética pode nos ensinar até agora é que de fato os atuais humanos deste planeta são fruto de sucessivas combinações de primatas humanóides originais, o que é correto e ninguém pode negar, em sã consciencia.

    Fato é: tudo isto é verdade até onde pode alcançar, ou seja, retrocedendo até o momento em que o grupo humanóide adâmico se viu lançado ao meio-ambiente exterior ao Éden, onde outras espécies de primatas humanóides conviviam. Caim não contraiu núpcias consanguíneas com uma irmã, filha de Adão e Eva, mas com uma fêmea – ou mais de uma – de uma espécie humanóide – ou mais de uma – presente nos locais onde passou a viver. 

    Com o exílio do Éden, a espécie adâmica passou a ser mais uma dentre as várias espécies humanóides presentes no planeta, combinando-se com as demais, pelos métodos exaustivamente conhecidos por todos. Lembremo-nos de que, ao criar Adão, DEUS colocou-o no Éden. O fato de ser necessário explicitar que aquele humanóide foi separado e colocado num meio-ambiente específico nos permite a supor que havia algo mais além-Éden, assim como também nos permite supor que havia algo de especial na espécie adâmica – no mínimo, um propósito particularíssimo do Criador em relação à espécie humana a partir daquele espécime chamado Adão.

    Tanto Abel quanto Caim foram concebidos e paridos fora do Éden, ou seja, já foram gerados a partir de um Adão e uma Eva que interromperam o processo evolutivo divino sobre suas vidas – foram gerados em pecado. Portanto, já nasceram imperfeitos e falhos sob a ótica divina. No entanto, podemos supor que o DNA de Adão, Eva, Caim e Seth possuía atributos inéditos e extraordinários ao DNA dos humanóides extra-Éden, o que deve ter lhes acrescido capacidades até então desconhecidas, nunca antes experimentadas.

    Após receber a sentença de DEUS pelo assassinato de seu irmão Abel, o aterrorizado Caim temeu ser também assassinado por quem o encontrasse pelo caminho, ou seja, o livro de Gênesis afirma que havia mais gente ali fora – ou pelo menos Caim assim o temia (infundadamente?) – e essa gente tinha leis para tratar de assassinos, o que fez com que DEUS marcasse Caim para que ele não fosse morto por aquele povo que habitava o mundo extra-Éden.

    Resumindo, não será através dessa Engenharia Genética que será provada ou refutada e existencia de uma espécie Adâmica, posto que ela é inconclusiva quanto a esse aspecto.

    • Alex disse:

      Mas a questão, para a teologia cristã, não é provar ou refutar a existência de uma espécie Adâmica. A questão é demonstrar que a humanidade existênte é, toda ela, descendente de Adão.

      É necessário, pois, falar mais sobre “aquele povo que habitava o mundo extra-Éden”. Esse povo não teve descendentes?

  2. Felipe Maia disse:

    Bem, vamos ao epicentro nervoso da questão: os que esses grandes intelectuais não percebem, ou fingem não perceber, é que o ataque a uma visão histórica do livro do Gênesis torna insustentável outras doutrinas centrais da fé cristã.

    Por exemplo: se não existiu um Adão e Eva históricos, segue-se que não existiu uma episódio histórico mais conhecido como Queda.

    Se não houve uma Queda histórica da humanidade segue-se que o pecado não entrou historicamente no mundo e que a humanidade posterior a Adão e Eva não nasceram portando uma natureza decaída herdada de seus pais do primórdio humano.

    Se não há pecado histórico logo não há a necessidade de uma salvação histórica. E se não há necessidade de uma salvação histórica segue-se não existir a necessidade de um Salvador histórico.

     E se não há a necessidade de um Salvador histórico segue-se que o Jesus histórico descrito conforme as páginas do NT não é quem ele diz ser nem fez o que ele diz ter feito.

    Logo, tirando Adão e Eva do seu fundamento histórico sobra-se….ops! NADA!!!!

    Então, comamos e bebamos que amanhã morreremos…

    Abrçs a todos.

  3. Marceloadfreitas disse:

    O quê esse intelectuais cristãos andam comendo…ou quê estão lendo…ou em que parte do Genoma ou eles pararam de lêr…

  4. Juliodariofilho disse:

    Tudo isso tem a solução e suas respostas em uma palavra… Espiritismo!

  5. Regis disse:

    Já ouviram falar em Criacionismo Evolucionista ?
    E o “casamento” entre a Teoria Geral da Evolução e a Criação Divina, aonde a Evolução é apenas uma das ferramentas usadas por Deus para o desenvolvimento da espécie humana.

    Quem segue essa linha de Criacionismo Evolucionista ?

    Simplesmente a maior instituição cristã do mundo, a Igreja Católica Apostólica Romana.
    Algumas poucas Denominações Protestantes/Evangélicas, e boa parte do Cristianismo Esotérico também seguem essa linha.

    Mas, como fica Adão/Eva nesta história ?

    Adão/Eva são tratados como metáforas com uma importante mensagem de cunho espiritual, relacionados a queda e ao pecado original.
    O que vale não é o mito em si de Adão/Eva, mas sim a essência da mensagem espiritual por trás de seu relato alegórico.

    Vejamos o que pensa Francis Collins, geneticista e cristão :

    Ciência não exclui Deus:

    O biólogo que desvendou o genoma humano
    explica por que é possível aceitar as teorias de
    Darwin e ao mesmo tempo manter a fé religiosa.

    O biólogo americano Francis Collins é um dos cientistas mais notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao tratamento de doenças em todo o mundo. Collins também é conhecido por pertencer a uma estirpe rara, a dos cientistas cujo compromisso com a investigação do mundo natural não impede a profissão da fé religiosa. Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria nega a existência de Deus, Collins decidiu reagir. Ele lançou há pouco nos Estados Unidos o livro The Language of God (A Linguagem de Deus). Nas 300 páginas da obra, o biólogo conta como deixou de ser ateu para se tornar cristão aos 27 anos e narra as dificuldades que enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua fé. “As sociedades precisam tanto da ciência como da religião. Elas não são incompatíveis, mas complementares”, explica o cientista. A seguir, a entrevista de Collins a VEJA.

    Entrevista completa : http://veja.abril.com.br/240107/entrevista.html

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