Eli Vieira: ‘Ímpio’ é leitura salutar para todo ateu brasileiro

Eli Vieira, no Bule Voador

Quando, no começo deste ano, soube que um ateu brasileiro estava lançando um livro (Ímpio, O Evangelho de um Ateu – Memórias; editora Leya, 2011), confesso que minha primeira reação foi um pouco de inveja. ‘Estou neste negócio que reluto em chamar de ciberativismo ateu há pelo menos sete anos, como é que nunca nem topei com este cara antes?’, pensei. É, pura mesquinharia minha. A partir de abril, notícias do lançamento vieram da imprensa e dos bastidores das listas de email dos blogs, especialmente do pessoal do Pavablog. Em maio, o autor, Fábio Marton, entrou em contato com o Bule Voador procurando alguém que resenhasse o livro. Ofereci-me, e, entre procrastinações e distrações, apresento esta resenha com algum atraso.

Certo entusiasmo da comunidade secularista não arrefece desde as publicações dos bestsellers de Dawkins, Dennett, Hitchens e Harris na década passada. Nos meandros das complexas razões sociológicas por trás do sucesso editorial desses autores no ocidente, alguns podem apontar para o 11 de setembro de 2001 (WTC), o sete de julho de 2005 (Londres) e agora algumas ilações podem ser extraídas do caso Breivik em Oslo/Utoya. Mas, cá entre nós, isso tudo, com todo o respeito, é coisa de gringo.

Se você quer entender o que é ser ateu no Brasil e em suas subculturas, os ‘quatro cavaleiros’ e seus pajens (Stenger, Onfray, Comte-Sponville, etc.) são de pouca ajuda. Se você, assim como eu, ficou com um pé atrás quando soube do livro do Marton, você está tão profundamente enganado quanto eu estive. Está sendo tão arrogante e idiota quanto eu fui. Porque o livro do Marton é, digo sinceramente, um galardão para todos nós.

Da vida de um gordinho nerd cavando túneis para Marte a um adulto capaz de uma prosa que vai de um divertido sarcasmo a uma sinceridade crua, demasiadamente humana, Marton nos ensina muito sobre a vida do evangélico que vota em Marcelo Crivella e comparece à Marcha da Família de Malafaia. Mas de um jeito tão terno que toda a raiva que você tem deles desaparece, dando lugar a uma compreensão empática que deveria ser, afinal de contas, a posição de uma mente esclarecida e dona de si.

O que é falar em línguas? Quem foi João Ferreira de Almeida? O que é ser “neopentecostal”, e como é vista a igreja de Edir Macedo (mencionada no livro ludicamente de forma similar à que os personagens de Harry Potter falam do Lord Voldemort – “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”) é vista entre os evangélicos? O livro é informativo neste e em outros pontos, principalmente nas páginas negras que fecham cada parte conforme o Fábio vai crescendo, tão desajeitadamente quanto suas ideias perspicazes em seu ambiente familiar.

Alguns pontos deixam a desejar: depois da puberdade o Fábio do livro parece esquecer seu irmão Beto. Também parece um pouco tímido para nos informar se a prece que fez tantas vezes a Deus é atendida ou não depois do ateísmo, deixando algumas pistas e obrigando o leitor a tirar suas próprias conclusões.

Dependendo da sua idade, você vai ter a prazerosa experiência de reviver com Marton o que você fazia quando houve o eclipse solar de 1994, ou o que aconteceu com sua família durante o Plano Collor. Também vai ter a oportunidade de revisar suas razões para crer no que você acredita, não só sobre Deus, mas sobre a vida e você mesmo. Se você é ateu, vai se sentir um amigo do Fábio. Se você é evangélico, o livro será um desafio, porque Fábio te conhece mais do que você imagina.

De Osasco e Curitiba para todo o Brasil, Ímpio é leitura salutar para todo ateu brasileiro, e um desafio agradável para quem ainda acredita que o mundo é regido por uma versão gigantesca de nós mesmos. Fui da inveja à admiração na prosa do autor, do riso às lágrimas e da arrogância à humildade.

E é exatamente isso que estamos precisando, uma leitura tupiniquim das grandes questões, com a leveza de uma pessoa que como eu e você estava lá, naquele tempo e naquele lugar, quando os Mamonas Assassinas apareceram. Recomendadíssimo.

Comentários

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1 Comentário

  1. Gabriel Nagib disse:

    bacana, boa dica de leitura

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