Intolerável

Filhos da juíza Patrícia Acioli participam da manifestação.

Marina Silva

Corrupção mata. Entender isso é fundamental para atacar um dos males que mais empatam o desenvolvimento socioeconômico e político do Brasil. Ainda há quem não veja a conexão entre corrupção e violência, mas elas estão intimamente ligadas.

Da mesma forma, devemos entender que a baixa eficiência e o mau funcionamento dos serviços do Estado estão tremendamente relacionados à cultura da corrupção, ao patrimonialismo, à falta de transparência e à baixa capacidade de mobilização social.

A morte da juíza Patrícia Acioli, no Rio, não é apenas um crime brutal. A execução de uma servidora pública correta e rigorosa com os crimes, principalmente os cometidos por agentes públicos, revela a força que as máfias têm no país. E o tamanho que elas adquiriram, graças à corrupção.

Quando a propina chancela e incentiva o desvio de conduta, torna-o cada vez maior. E chega a um ponto em que vê na lei um obstáculo que precisa ser removido, tirando do caminho quem a faz cumprir.

É na má política que se choca o ovo da serpente da violência policial e das relações espúrias entre poder de Estado e delinquência. Quem assistiu aos filmes de José Padilha “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2” pode ver como a propina de todo dia fortalece a mão que aperta o gatilho contra os inocentes.

A morte de Patrícia Acioli é uma afronta ao Estado democrático de Direito. Ela não é apenas mais uma vítima. Era alguém que, no desempenho de suas funções, buscava combater a barbárie de grupos que querem controlar a vida de quem mora na periferia e, claro, o próprio Estado.

Matar uma juíza revela enorme convicção da própria impunidade. É uma declaração de guerra às leis, à democracia e à sociedade. Assim como é inaceitável que o Brasil conviva com a execução de uma juíza, também não é mais tolerável convivermos com o nível de corrupção que tem marcado o nosso país.

Vemos, na mídia, como a Índia, país com problemas maiores do que os nossos, desperta vigorosamente para o combate à corrupção. E o que falta para o Brasil? Quanto mais indignada for a resposta da sociedade aos escândalos e aos homicídios de cada dia, maior será o poder de reação contra essas mazelas no âmbito do próprio Estado.

A autoridade pública da menor à maior se sentirá fortalecida e incentivada a agir contra a corrupção, que é, em si, uma forma de violência contra a coletividade.

A faxina, então, deixa de ser rápida, como se faz quando chega uma visita inesperada, e passa a ser permanente, vigorosa, profunda. É desse nível de exigência que precisamos. Se nos acostumarmos a deixar barato, perderemos o controle do que é público, do que é de todos nós.

fonte: Folha de S.Paulo

foto: Nathalia Felix, em O Fluminense

Comentários

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3 Comentários

  1. perfeita a reflexão da Marina. além dos problemas sócio-econômicos que a corrupção deixa como herança,( se não tampar o ralo, a bacia não enche nunca, certo) ela gera sim muita violência. Seja de uma forma direta, como na morte da juíza, ou indireta. quantas vidas será que foram abreviadas devido ao escândalo dos sangue-sugas que desviava verba das ambulâncias? A corrupção brasileira leva a mancha de sangue inocente na sua bandeira.

  2. Sergiogleria disse:

    Será que realmente estamos num Estado Democrático de Direito? O País está sendo roubado descaradamente e ninguém responde por nada. Será que não é o próprio estado o causador desta miséria e guerra civil em que vivemos ? Mesmo assim, de coração, lamento muito a morte da juíza!!!

  3. Adalberto Rossi disse:

    Será preciso fazer transfusão de sangue do Oriente em pessoas do Ocidente?
    Será preciso o povo voltar às ruas, mas agora armados, para extirpar a corrupção? (Já nos desarmaram…)
    Ah, a Copa do Mundo vem aí… os “vale quase tudo” (assistencialismos) do governo estão funcionando…Pão e circo… falta o Carnaval… e trios elétricos… E tome mais roubalheira… mais superfaturamentos… Aláláôôôô….. Será essa a cara do Brasil mesmo?

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