Obedecer a Deus obedecendo aos homens

Robinson Cavalcanti

Nada é mais danoso para a igreja cristã do que a leitura de textos bíblicos fora do contexto, servindo de pretexto. Ao lado dos egos inflamados dos megalômanos e narcisistas, ao lado da rebeldia dos filhos de Coré, que rangem os dentes de ódio contra toda norma que atrapalhe as suas ambições, e contra toda autoridade acima da sua (embora, geral, hajam como déspotas para os que estão abaixo) esse “pinçar” estratégico e maroto de textos são os grandes responsáveis pela esculhambação institucional pela qual vive a Igreja de Cristo nesse século XXI pós-moderno e suas 39.000 “denominações” protestantes, de nomenclaturas cada vez mais esdrúxulas e reveladoras de insanidade.

Um desses textos manipulados das Sagradas Escrituras é o de Atos 5.29: “Importa antes obedecer a Deus dos que aos homens”, como resposta do apóstolo Pedro ao poder religioso aliado do poder político que havia proibido a pregação do Evangelho.

Deus não costuma mandar anjos a toda hora para trazer telegramas celestiais. O céu não está ligado à internet – embora haja rebeldes, fanáticos, histéricos e picaretas que pretendam ter um telefone de linha direta com o trono da Graça – através do qual se despreza o contexto e a totalidade dos ensinos bíblicos (substituído por revelações privadas), se insurge contra a autoridade (dos pais, dos chefes no trabalho, do governo ou da Igreja), e se parte para “carreiras solo” ou a criação de novas empresas religiosas (“pequenas igrejas, grandes negócios”), que, quando não dá dinheiro, satisfaz ao ego inflado ou às alucinações.

Deus concedeu um mandato cultural à humanidade, como continuadora da obra da Criação, a ser vivido em sociedade, e suas expressões micro ou macro, da família ao Estado, passando pelo mundo do trabalho e pelas agremiações lítero-atlético-recreativas e religiões, impossível de ser vivido sem normas e autoridades.

Ele nos manda obedecer e não desmoralizar pai e mãe; nos manda trabalhar com disciplina e ética, e nos manda obedecer à autoridade do Estado, enquanto forem “ministras de Deus”, para a promoção da paz e da justiça. No Antigo Testamento levantou a Tribo de Levi, e no Novo Testamento, constitui apóstolos, bispos, pastores, diáconos, mestres, como autoridade para governar, ensinar e liderar a Igreja. E foram eles que definiram o Cânon Bíblico, estabeleceram as Doutrinas nos Credos, os Sacramentos, o Governo Episcopal e a Liturgia, construindo, ao longo dos séculos a Tradição Viva do Consenso dos Fiéis, assistidos pelo Espírito Santo.

O mundo sobrevive à base de Tratados e Organizações Internacionais (como a ONU), e o Estado com a Constituição Federal, Constituição Estadual, Lei Orgânica dos Municípios, Códigos, Leis e Regulamentos. Cada empresa ou repartição sobrevive pela adesão às suas normas, bem como as famílias que são famílias, assentadas sob a disciplina e a hierarquia (e o que passar disso é “mundiça”). Cada ramo sério da Igreja de Jesus Cristo possui sua Constituição, Estatutos e/ ou Cânones, aos quais se espera uma adesão sincera dos seus membros, especialmente o seu clero.

No caso da Igreja Anglicana, esse juramento de adesão “à Doutrina, Culto e Disciplina” se dá no Rito de Confirmação (Pública Profissão de Fé com imposição de mãos dos Bispos), e, para os vocacionados, no Rito de Ordenação ao Diaconato, ao Presbiterado e ao Episcopado. No juramento dos Diáconos e Presbíteros, se exige a promessa de obediência aos Bispos e aos ministros(as) que tenham autoridade sobre si. Quem faz um juramento de forma insincera, ou o detona depois, é um perjuro, além de um mau caráter.

Deus deve ser obedecido? Sem dúvida. Em cada área da vida Ele tem os seus representantes? Sem dúvida. As Escrituras são o padrão máximo de verdade? Sem dúvida. Interpretado pelo conjunto na História e não por isolados fora da História? Sem dúvida. O individualismo burguês ocidental gestado no modo de produção capitalista e na vida urbana + o individualismo protestante que degenerou o livre exame em livre interpretação, nos tem conduzido a essa “zorra geral” em que vivemos o pecado da rebeldia.

Já dizia um pensador que “quem não está disposto a obedecer não tem o direito de comandar”.

A verdade é que se obedece a Deus obedecendo aos homens.

Quem não tem o espírito de humildade, antes o de soberba espiritual e a “mediunidade protestante”, deve ao menos deixar de tencionar e tirar a paz, botando a sua viola no saco e ir cantar em seu próprio terreiro, como tantos já o fizeram e estão a fazer.

Todo rebelde é filho de Coré e neto de Lúcifer, não obstante a sua fachada de espiritualidade.

Exorcizemos esses “espíritos” para o bem da Igreja!

Comentários

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1 Comentário

  1. “Deus deve ser obedecido? Sem dúvida. Em cada área da vida Ele tem os seus representantes? Sem dúvida.” Seu Robison, o senhor vai me desculpar… mas foram milênios de esculhambação com as ovelhinhas de Jesus, elas estão meio ressabiadas

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