Brasileiro está mais depressivo

Publicado originalmente por Fernanda Aranda no iG Saúde

Entre janeiro e junho de 2011, foram comercializadas no Brasil 34,6 milhões de unidades farmacêuticas contra depressão e outros transtornos de humor, um aumento de 49,1% comparado às 23,2 milhões de cápsulas vendidas no mesmo período de 2007.

A evolução da venda deste tipo de medicamento no País foi registrada ano a ano, conforme levantamento feito, a pedido do iG Saúde, pela empresa de consultoria farmacêutica IMS Health Brasil.

Para os especialistas, o gráfico em ascensão reflete dois fenômenos, um positivo e outro negativo. Ao mesmo tempo em que revela maior acesso dos pacientes às medicações que previnem e tratam uma das doenças mais incapacitantes do mundo, conforme classifica a Organização Mundial de Saúde (OMS), também pode mostrar um uso indiscriminado dos remédios, composto por automedicação e usuários dependentes.

“A população com mais renda também consome mais medicações”, explica o professor do departamento de ansiedade da Universidade de São Paulo e médico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Márcio Bernik.

“Além disso, estes tipos de remédio ficaram mais seguros dos anos 80 para cá, com menos efeitos colaterais o que também ampliou o acesso. Isso criou, em algumas classes terapêuticas, bolhas de uso inadequado.”

Dois lados

A escritora Cátia Soares, 51 anos, e a dona-de-casa Isaura (que prefere não ter o nome completo divulgado), de 60 anos, são os dois lados da moeda do uso de antidepressivos e medicações para os mais de 40 tipos de transtornos de humor descritos pela Psiquiatria.

A primeira, que faz tratamento medicamentoso contínuo desde os 37 anos com acompanhamento do psiquiatra, afirma que as pílulas foram a sua salvação.

“Não me tornei um robô por causa delas e hoje só consigo viver com o auxílio dos medicamentos, como os usados para diabetes ou hipertensão”, acredita Cátia

Já a dona-de-casa compara sua situação “a uma prisão”. Não foi o profissional de saúde que receitou os comprimidos usados por ela todas as noites para tentar dormir e controlar a ansiedade.

“Uso o remédio que toda a minha família usa”, confessa. O efeito na indução da sonolência é cada vez menor e desde que passou a sofrer os efeitos da menopausa – há 20 anos – ela faz uma alquimia caseira para tentar combater os sintomas que vão de tristeza profunda a angústia e dificuldade no sono.

Máscara

O comportamento descrito pela dona-de-casa é assistido cotidianamente pela neurologista Andréa Bacelar, vice-presidente da Academia Brasileira do Sono. “Nos consultórios, os pacientes que chegam não dormem direito há mais de cinco anos, em média, e relatam uso de polimedicamentos no período”, diz.

“O tratamento deles é mais complicado porque exige a prescrição de drogas para tratar a dependência de alguns remédios, outras para sanar os efeitos colaterais e também é preciso traçar um plano individual para tentar combater na raiz a dificuldade para dormir.”

A escritora Cátia Moraes, 51, é autora do livro “Uso antidepressivos, graças a Deus” e diz que os medicamentos salvaram a sua vida. “Não virei um robô”

Assim como os antidepressivos, o consumo de drogas usadas para insônia também está em ascensão. O levantamento feito pela IMS Health Brasil mostra que em quatro anos, a comercialização de hipnóticos e sedativos teve alta de 3,6 milhões de doses vendidas por mês, saindo de 11 milhões em junho de 2007 para atuais 14,6 milhões em 2011.

Para Andrea Bacelar, o uso indiscriminado ou por conta própria dos remédios pode mascarar outras doenças ligadas à insônia, como a própria depressão. Na lista também podem estar fibromialgia, problemas respiratórios como asma, DPOC e apneia obstrutiva do sono, e até obesidade e sedentarismo.

O médico do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luciano Ribeiro, acrescenta: para que as estatísticas de vendas deste tipo de medicação mensurem somente efeitos positivos é preciso conscientização tanto dos usuários quanto dos profissionais de saúde.

Médicos traficantes

“As mudanças de paradigmas são lentas e não dependem só dos pacientes”, acredita Luciano Ribeiro. “É claro que é preciso coibir os usuários que têm acesso aos medicamentos por vias ilícitas, mas muitas pessoas que tomam os remédios indiscriminadamente fazem com aval dos médicos.”

Segundo o neurologista, estes profissionais de saúde têm a postura semelhante a de traficantes, já que abastecem com receitas indiscriminadas e sem critérios pessoas que são dependentes das drogas. “É preciso alertar para a prescrição oficial indiscriminada. Isso também precisa mudar.”

O último relatório do Sistema Nacional de Informações sobre Intoxicações (Sinitox), departamento ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra mesmo que as drogas vendidas com o propósito de curar ou amenizar sintomas podem provocar um número de efeitos colaterais ainda maior do que as drogas ilícitas.

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