Meus dias com o Elvis

Marília César

Levou menos de 24 horas para eu me apaixonar.

Seu olhar amoroso, seu jeito alegre e manso. A liberdade de ir chegando e se deitando a meus pés. De fazer de meus chinelos um suave travesseiro. A soma de todos esses afetos, entregues gratuitamente, derreteu meu coração de imediato.

Se você estiver precisando derrubar as defesas de alguém, experimente deitar-se mansamente a seus pés. Sem pedir nada. Sem dizer palavra.

O cãozinho foi um pedido de minha filha mais velha. Ela chorou durante meses, dizendo que o queria. Era mais que querer, ela dizia. Ela precisava de um cachorrinho. Ela usou todos os argumentos. Todas as amigas tinham. Um cãozinho é um animal tão fofinho, ela disse. Ela queria muito ter um.

Resisti o quanto pude. Animais dão um trabalho danado. Dão despesa. Nos tornam cativos, não podemos viajar.

Ela continuou chorando e implorando.

Queria um filhote de golden retriever, que viu na revista e creu que era o cão de sua vida. Eu também adoro essa raça, respondi, já meio amolecida. É um dos mais bonitos. Faz vista. Dizem que gosta de criança.

Fomos sondar o preço nas pet shops. Seis parcelas de trezentos reais. Disse pra ela que não ia dar. Filhote a peso de ouro. Ela chorou de novo. Disse que eu nunca fazia nada que ela queria. Chantageou-me. Chorou mais um pouco.

Até o dia em que recebi aquele e-mail. A amiga de uma amiga estava doando filhotes. A foto estava no blog da moça. Abri correndo quando li que não eram filhotes quaisquer, mas sim da raça border collie, outra de minhas favoritas. Cachorro inteligente. Uns dizem que é o mais inteligente de todos.

Abri o email em casa pra ela checar a mercadoria. Ela olhou os pequeninos e os achou bonitinhos. Não pareceu muito entusiasmada. Expliquei que, além de ser de uma boa raça e bonitos, eram de presente. Custo zero. Ela se interessou.

Parei de falar no assunto para deixar que decidisse por si. Não sabia direito se era fogo de palha, se era só modismo de criança.

Ela me ligou no trabalho, no dia seguinte, perguntando se era hoje que o cachorrinho viria. Entendi que ela queria mesmo o bichinho.

Liguei para a dona.

Quinta-feira, sete da noite, meu fusquinha na marginal Pinheiros, cercado de caminhões furiosos por todos os lados. A mais velha e a mais nova no banco de trás, excitadas, na aventura de ir buscar o cãozinho.  160 quilômetros de congestionamento em horário de pico. O que a gente não faz por amor, eu pensava.

Chegamos à casa da doadora uma hora mais tarde. Eu estava exausta. A cachorrada veio nos receber. A mãe com carinha de quem vai perder um afeto, mas já confortada pela sua sábia natureza canina. Uma beleza de cachorra.

O Elvis veio logo para o meu colo. As meninas não chegaram nem perto. Elas têm medo de cachorro, expliquei à doadora. Mas vai levar assim mesmo? Ela vai perder o medo, arrisquei. Ela quer muito ter um cãozinho.

Eu já havia construído um tratado psicológico. Imaginei que o medo seria superado pela coragem de uma menina arrojada como só poderia ser minha filha. O convívio com um animalzinho ajudaria o seu lado afetivo. Ela iria parar de mandar tanto na irmã mais nova. Ela daria um tempo. A irmãzinha logo se adaptaria também ao cachorrinho e os três formariam um trio inseparável. A mais velha, mandando mais no cão e menos na mais nova,  com o coraçãozinho amolecido pela troca de afetos incondicionais com o seu animalzinho.

Levamos o Elvis para casa e meus castelos estavam sólidos como uma rocha. Compramos caminha, compramos ossinho, compramos ração.

Eu devia ter desconfiado. Caí no conto do vigário. Ou melhor. No conto da criança carente de cachorro.

Era tudo fogo de palha.

Desde que ele chegou em casa, elas nunca chegaram nem perto do bicho. O medo continua lá, firme, como uma muralha. Cachorro entra, elas saem. Cachorro sai, elas voltam.

A mais velha não sabe o que aconteceu.  Percebo que nem ela entende por que não se apega ao bichinho. Coração duro? Ou está com ciúmes de nós, que nos apaixonamos tão rapidamente por ele?

Decido não vou construir mais tratados.

Tudo o que vejo é um bando de adultos apaixonados e duas crianças indiferentes.

As meninas nos ensinaram uma lição: como são infantis e imprevisíveis essas crianças.

Os adultos também me ensinaram: têm dentro de si um espaço enorme para acolher novos afetos.

Meu coração, em particular, se alargou com a chegada de Elvis.

Nunca mais vou olhar um cãozinho com os mesmos olhos.

Meus olhos mudaram. Eles melhoraram.

Se meus olhos forem bons, todo meu corpo será cheio de luz, diz a Bíblia.

Estes mesmos olhos agora estão cheios de lágrimas.

Decidi devolver o Elvis para a doadora. Ela deixara aberta a porta para voltar atrás, caso a experiência não desse certo.

Eu disse que tinha que levá-lo antes que fosse tarde. Antes que meu coração ficasse partido para sempre.

Ela foi compreensiva e disse que seria melhor assim.

Percebo, porém, que já é tarde demais.

Olho para o chão e ainda vejo seu olhar manso. E ele ainda ali, aninhado a meus pés.

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