A um filho que se foi


Fabrício Carpinejar, no Zero Hora [via Blog do Carpinejar]
.
Minha amiga Dora perdeu seu filho.
.
Ela disse que o momento mais difícil do luto foi quando ela riu de uma piada durante jantar entre amigas. Já havia completado dois anos do acidente e um ano que limpara o quarto do adolescente e oferecera suas roupas e pertences para campanha do agasalho.
.
Não conteve o riso, ele veio, cristalino, por uma história boba. Ela se penalizou pela alegria, acreditou que traía seu filho com a gargalhada, que não poderia mais ser feliz depois da tragédia familiar, que deveria seguir com a feição contraída e casmurra para homenagear a tristeza e avisar aos outros da longevidade e importância de sua ferida.
.
A lealdade tinha que ser séria, ornada de renúncias. Para indicar que a viuvez de ventre é definitiva, com o berço dos olhos petrificado em jazigo.
.
Ela se sentiu culpada por rir, envergonhada perante os céus, pediu desculpa ao filho, prometeu que estaria mais concentrada dali por diante e que o descontrole não se repetiria.
.
Mas ela quebrou a palavra, e riu novamente, como é próprio da vida superar o pesar de repente. Seu rosto agora participava da conversa com todas as rugas e covas. Bateu vontade de cobrir os lábios de batom para brilhar inteira.
.
Dora me segredou uma frase pura, que guardei na caixinha de sapatos de minha infância:
.
– Foi uma injustiça meu filho morrer, mas não poderia deixar a morte de meu filho me matar.
.
Doralice sempre me surpreendeu pela sua lucidez. Foi minha professora de matemática na Escola Estadual Imperatriz Leopoldina. Na última semana, passei pela frente de sua casa no bairro Petrópolis e arrisquei apertar sua campainha. Ela me recebeu com um longo abraço e me convidou a entrar. Reparei que pintava na varanda.
.
– Começou a pintar, Dora?
.
– Eu? Não…
.
– O que é essa tela? (eu me aproximei da moldura que reproduzia uma praia no inverno)
.
– Ah, é minha dor que estava pintando, coloquei minha dor a se mexer, a aprender algo de útil, e parar de me incomodar.
.
E concordei com seu raciocínio. Quantas vezes abandonamos nossa dor no sofá, vadia, assistindo TV? Quantas vezes permitimos que ela fique o dia inteiro dormindo, lembrando bobagens? Nossa dor sozinha, sem emprego, sem fazer nada, desejando morrer no escuro. Nossa dor comendo às nossas custas, terminando com os nervos, o casamento, as amizades.
.
Dor é feita para trabalhar, senão adoecemos no lugar dela.
.
arte: Edgar Degas

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for A um filho que se foi

2 Comentários

  1. Leandronazareth disse:

    Sensacional

  2. Alfa Borges disse:

    Maravilhoso!!!

Deixe o seu comentário