Até onde a gratidão pode nos levar

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Cristiane Segatto, no site da Época

Quase nunca é fácil. Quem já teve na família um idoso acamado sabe disso. Cuidar exige uma paciência sem limites. Ser cuidado também. Quando a vida se aproxima do fim, caem todas as máscaras. A convivência íntima revela que somos fragilidade, dependência e, ao mesmo tempo, nobreza. Algumas pessoas, é verdade, são mais nobres que outras.

Até a semana passada tudo o que eu sabia sobre a professora de Serviço Social Nadir Kfouri é que ela havia sido reitora da PUC de São Paulo num dos períodos mais sombrios da história brasileira.

Na noite de 22 de setembro de 1977, a universidade foi invadida por policiais comandados pelo coronel do Exército e então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Erasmo Dias.

O objetivo era reprimir a reunião de alunos que os militares consideraram ser um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), à época ainda na clandestinidade.

Centenas de alunos foram detidos. Vários ficaram feridos. Outros sofreram queimaduras provocadas por bombas. No episódio, Nadir deu uma prova da coragem que a caracterizaria até o final da vida.

É famosa a foto (acima) que revela o momento em que ela procura o coronel Erasmo Dias para expressar sua indignação. Logo depois, o coronel estenderia a mão para cumprimentá-la.

A reitora deixou o coronel com a māo suspensa no ar. Virou-lhe as costas ao mesmo tempo em que disse :“Nāo dou a māo a assassinos”.

Essa mulher de fibra – descrita pelas pessoas próximas como turrona, brava e, ao mesmo tempo, amorosa – foi a primeira mulher no mundo a dirigir uma universidade católica depois de ser eleita por alunos, funcionários e professores. Para que assumisse o posto, foi preciso que Dom Paulo Evaristo Arns intercedesse em seu favor junto ao Papa Paulo VI.

Nadir morreu no dia 13, de pneumonia, aos 97 anos. Era tia do jornalista Juca Kfouri. A reputação da corajosa Nadir de 1977 eu conhecia. O que eu não conhecia era a Nadir que viria depois.

No apartamento do Itaim Bibi, em São Paulo, onde a professora viveu seus últimos dias, tive o prazer de conversar com a empregada doméstica Cleusa das Graças Ribeiro Gomes (foto), de 55 anos. Mineira de Três Corações, Cleusa cuidou de Nadir nos últimos 22 anos.

A convivência entre essas duas mulheres nobres é uma inspiradora história de vida. Merece ser conhecida.

Cleusa chegou a São Paulo em 1989. Veio para cuidar da mãe de Nadir, uma senhora de 95 anos que já não saía da cama. As três passaram a morar juntas no apartamento do Itaim. Quando Dona Noemi morreu, Nadir propôs que Cleusa continuasse trabalhando para ela.

“Fique aqui para cuidar de mim como cuidou da minha mãe”, disse. Aos 75 anos, safenada, solteira e sem filhos, Nadir tinha consciência de que, em breve, precisaria de uma cuidadora.

Não poderia calcular, no entanto, as boas surpresas que estavam por vir. Alguns anos depois, Cleusa engravidou. Com medo da reação da patroa geniosa, pediu demissão.

Nadir não aceitou que ela fosse embora. Insistiu, insistiu até que Cleusa contou a verdade. Como de costume, a patroa a surpreendeu. “Ela disse que a criança era bem-vinda e me ajudaria a criá-la”.

E, então, nasceu Tutu. Hoje um garotão de 15 anos, educado e bom aluno, que foi registrado com o nome de Willian Ribeiro. Aos 82 anos, Nadir virou Tata.

Trocava fraldas, dava mamadeira, colocava o bebê para dormir. Ele passou a ser, ao mesmo tempo, filho e neto. Quando ele cresceu um pouco, Nadir comprou-lhe uma motoquinha de brinquedo e o levava para passear quase todos os dias. Quando perguntavam, respondia, orgulhosa:

– É meu neto.

Neto, filho, o grau de parentesco era indiferente. Tutu assumiu vários papéis naquela microfamília. O amor de Nadir era suficiente para todos eles.

A cada novo presente, fazia questão de escrever: “De Tata para Tutuzinho”.

Para o adolescente de hoje, os aniversários da infância foram especialmente marcantes. “Ela enfeitava a casa e fazia questão que eu convidasse todos os meus amigos”, diz. O apartamento ficava cheio de garotos da escola estadual e da criançada do prédio. A bagunça era liberada.

“Para mim, ela foi vó, foi mãe, foi tudo”, diz Tutu. Enquanto assistia a filmes de faroeste, Nadir perguntava pelo desempenho do menino na escola. “Queria que eu fosse o primeiro da classe. Tirava 8 ou 9 nas provas e ela ficava contente. Mas quando tirei um 5 em Ciências ela ficou furiosa”, diz.

Nadir nunca se esqueceu da PUC. Era um assunto recorrente sempre que tinha um interlocutor. Há dois anos, a saúde da professora começou a fraquejar. Primeiro foi uma pneumonia. Depois o pior dos golpes: a perda quase completa da visão. A família comprou uma lupa, mas não adiantou. Sem poder ler, o que fazia diariamente, Nadir foi ficando triste, cada vez mais reclusa.

As pernas foram enfraquecendo até que Nadir parou de andar. Ia da cadeirinha de banho para a poltrona do quarto. Cleusa cuidava dela o dia inteiro. Trocava fraldas, dava banho e comida na boca. Quando estava em casa, Tutu ajudava.

Acomodada na poltrona do quarto, Nadir pedia aos dois: “Não me deixem sozinha.”Algum tempo depois, recobrava um lampejo da autoridade dos velhos tempos e disparava: “Ei, vocês não têm mais o que fazer?”

Cleusa e Tutu sentem saudade. Quando chora, cheia de sinceridade, Cleusa demonstra que perdeu mais que a patroa. “Parecia que não éramos patroa e empregada. Éramos amigas. Mãe e filha. Às vezes, duas crianças”, diz. “Brigávamos, pedíamos desculpas, ríamos”.

Nadir era uma dentre os 14 milhões de brasileiros acima de 65 anos. O país está envelhecendo. Em pouco tempo, a população acima de 60 anos deverá ultrapassar a dos menores de 15 anos. Isso trará enormes desafios ao Brasil. No interior de cada família, o desafio está colocado desde já. Cuidar dos idosos será uma tarefa dos próprios parentes ou de profissionais especializados. Mas o fato é inegável: vários membros da família precisarão de cuidados.

Quem dera cada um de nós possa construir, no final da vida, a relação que Nadir, Cleusa e Tutu construíram. A gratidão pode revelar toda a nobreza do ser humano.

No testamento, Nadir deixou o apartamento de três dormitórios para Cleusa e Tutu. “Não tinha intenção de receber herança”, diz Cleusa. “Fiz tudo de coração. O que interessa é o amor que ela tinha por mim e eu por ela.”

Nadir queria garantir o futuro dos dois e os estudos do garoto. Tutu quer ser engenheiro civil.

foto (PB): C.A. Benevides Paixão

Comentários

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1 Comentário

  1. Adriana Abreu disse:

    Que história linda e real!
    É isso que me aquece o coração.

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