Eu, ateu e humanista secular

Marcelo Esteves, no Bule Voador

Eu gostaria de expor uma posição muito pessoal aqui, para que os meus amigos e amigas me conheçam melhor.

Sou ateu, mas isto é um detalhe na minha vida, ou seja, não é um estandarte, nem o meu cartão de visitas. Se algo me define de uma forma propositiva, em termos de visão de mundo, é a minha opção pelo Humanismo Secular.

Tampouco sou anticlerical, no sentido de ser – a priori – contra toda religião e crítico a todos os religiosos. Não. Não me importa o fato de existirem pessoas e instituições que pregam Deus, os espíritos, a vida após a morte, o inferno e o paraíso, Jesus, Maomé ou Krishna.

Uma coisa é você achar que está no caminho certo; outra, é achar que seu caminho é o único.

Dentro do Humanismo Secular há uma defesa constante do pensamento racional, da democracia laica, dos direitos humanos e do progresso da ciência.Portanto, não vejo motivo para qualquer predileção pela Religião, quando se trata de defender aqueles pontos. Também a política, os políticos, algumas filosofias e ideologias seculares avançam sobre o domínio defendido pelos Humanistas. Nem por isto sou antipolítica e antipolíticos; antifilosofias e anti-ideologias seculares.

Respeito e incentivo a liberdade de consciência e de expressão, independentemente de partirem de posições favoráveis ou contrárias às minhas.

No atual momento que vivemos no Brasil – e a partir de uma visão Humanista – algumas questões me preocupam mais do que outras:

1) Não vejo ameaças significativas à democracia, salvo naqueles períodos críticos, nos quais a mídia nativa – em sua maioria – alinha-se às forças mais conservadoras, herdeiras de uma cultura golpista. Por outro lado, vejo como necessária uma discussão ampla sobre o aperfeiçoamento da democracia brasileira.

2) Preocupa-me a violação dos direitos humanos, seja pela existência da violência policial e da tortura, da falta de segurança pública, transporte, educação de qualidade, habitação, saneamento e infraestrutura, de uma justiça muitas vezes seletiva, da fome, miséria, desemprego, subemprego, exploração do trabalho e do desrespeito aos direitos das minorias.

3) Avilta-me o ataque ao estado laico, seja pela intromissão da religião ou de quaisquer ideologias particulares que se querem impor ao conjunto da sociedade.

4) Revolta-me o atravancamento da pesquisa científica, em nome de crenças religiosas, de filosofias políticas, de convicções pessoais descoladas de senso crítico e inteligência, de interesses escusos das grandes corporações.

É contra este estado de coisas que me oponho, sem me deixar aprisionar pelo rótulo de ateu, que nada diz sobre o que sou, quero e acredito; mas apenas conta que não acredito em Deus ou deuses.

O mundo é muito mais – e além – do que uma não crença. A vida é muito mais – e além – do que apenas apontar os podres da religião e dos religiosos.

Critiquemos, sim, a religião e os religiosos, pelos motivos certos e nos momentos certos. Mas estejamos igualmente atentos aos problemas ambientais, aos abusos de poder, às guerras fratricidas, à economia mundial, aos senhores da guerra, à manipulação de corações e mentes pelo consumo irresponsável, ao egoísmo das nações, à falta de solidariedade humana.

E tenhamos sempre um olhar sobre nós mesmos, uma autocrítica permanente, um cuidar de nossos melhores sentimentos, da empatia, da compaixão; bem como um vigiar atento sobre nossas idiossincrasias, radicalismos e xenofobia.

Forte abraço!

Comentários

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4 Comentários

  1. Layr Cruz disse:

    Bem interessante seu posicionamento, e me pego as vezes em meus pensamentos semelhantes  à sua frase “…Respeito e incentivo a liberdade de consciência e de expressão, independentemente de partirem de posições favoráveis ou contrárias às minhas.”  Sou Cristão, e isso não me torna melhor do que você.
    Para mim, o diálogo entre os diferentes é o caminho para paz e bem estar da Pátria. Eu defendo um Estado Laico, longe das enfermidades religiosas quaisquer que sejam elas, inclusive a cristã, quando eu começo a olhar o mundo que se diz cristão, fico perplexo, que cristianismo é esse ? um bando de religiosos auto-fagicos que lutam pelas suas ideologias mesquinhas e teológicas. Ouso a dizer que há muito mais de Divino  em suas palavras  e postura de vida em comparação ao que se prega na tv  e se arrecada nos diversos botecos de Jesus espalhados pelo nosso país. Esses ditos pastores televisivos embriagam seus ouvintes arrancado-lhes o discernimento e a responsabilidade para quais deveriam atuar: o próximo

  2. MACLima disse:

    O ser humano é bicho complicado e complicador… Mas deixa pra lá.
    Acho interessante, e falo como crente, é mais fácil andar com alguns ímpios, pelo simples respeito que se dispõem a ter. Entretanto não posso conciliar as seguintes sentenças:
    – “Uma coisa é você achar que está no caminho certo; outra, é achar que seu caminho é o único.” Marcelo Esteves
    – “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. 
    João 14:6” Jesus Cristo
    De minha parte, fico com Jesus.
    Agora uma coisa é fato: se os cristãos se unissem sob essa máxima – a de que Jesus é o único caminho e não as suas denominações particulares – metade dessa revolta contra o cristianismo diminuiria, ou não, haja visto que “a palavra da Cruz é loucura para os que perecem”.Então, volto ao início: o bicho homem é complicado e gosta de complicar.Andemos nesse mundo, no mínimo nos suportando nas diferenças e apoiando nossos objetivos em comum como humanidade, como sociedade.

  3. Anônimo disse:

    “Sou ateu, mas isto é um detalhe na minha vida, ou seja, não é um estandarte, nem o meu cartão de visitas. Se algo me define de uma forma propositiva, em termos de visão de mundo, é a minha opção pelo Humanismo Secular.” 
    Não sou desses que pregam que “os que não estão na minha igreja são as piores pessoas do mundo”. Mas a cosmovisão propositiva,através do “Humanismo Secular”  só é possível  porque, a princípio, você declara que Deus não existe. Ela pode até ter o levado para a conclusão, ou convicção de que Deus não exista, mas mesmo assim, ela passa de conclusiva a um dos fundamentos de seu argumento. Se algum dia vier a acreditar que Deus exista, o argumento mudará.

    Quanto ao Estado laico, mesmo sendo cristão, concordo. Foi o que permitiu a igreja no Brasil crescer (apesar de que nem sempre crescer é bom), garante a nossa liberdade na expressão. Mas temos que entender que em seu papel o estado é laico, mas as pessoas não. Isso não implica na imposição de opiniões na legislação (não deveria) mas no enriquecimento do debate, pois cada político possui sua cosmovisão (apesar da cosmovisão da corrupção reinar).

  4. Fredmorsan disse:

    Ao contrário do que se diz, todos nós achamos que só existe UM CAMINHO a ter trilhado. Porque quando alguém que acredita nesta frase tenta explicá-la, usa alguns destes argumentos:

    – O importante é ser bom;
    – O importante é ajudar ao próximo;
    – O importante é respeitar o próximo, e outras semelhantes.

    Sempre que alguém usa algum pensamento desse, está definindo O CAMINHO CORRETO a ser seguido.

    Como quando dizem que todos os caminhos levam a Deus. Quando tentam explicar essa frase, dizem que o importante é isso ou aquilo, tentando minimizar as diferenças e contradições das religiões existentes. Mais uma vez, foi definido um ÚNICO CAMINHO, convergindo as múltiplas práticas das religiões para um ponto: ser bom.

    Por isso digo: você pode me dizer que só existe UM CAMINHO (diferente do caminho que eu considero o melhor) ou mesmo NENHUM CAMINHO, mas dizer que TODOS OS CAMINHOS levam a Deus é uma mentira das grandes.

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