Em nome do “só”

Foto: Laura Machado - SRZD

Texto do Rabino Nilton Bonder publicado originalmente em O Globo

Avenida das Américas direção da Cidade do Rock e dezenas, senão centenas de jovens e cartazes: “Um Mundo Melhor??? Só Jesus!” Levei alguns segundos para entender (às vezes a gente se pega desatento para as confrontações e as querelas e leva um tempo para perceber nuances…) que se tratavam dos “jovens do bem” contra-atacando os “jovens da superfície e da perdição” que começavam a movimentar-se para o Templo do Rock. “No Brasil não!”, pensei eu ingenuamente e com um incômodo estranho.

Por que me incomodava tanto aquela manifestação de diversidade? Não seria ela o que tanto sonhamos quando pedimos por mais engajamento e mais consciência em nossa terra, particularmente entre os jovens? O que havia de tão bélico na mostra de outro olhar que se fazia expresso por alguns destes jovens dançando e entoando seus próprios hinos hits?

Pensei que fosse talvez pela confrontação entre iguais que não se reconheciam, já que muitos pareciam fãs prontos a recolher autógrafos numa histeria de linguagem aparentemente oposta, mas que era igual. Sonhos e mitos a um neófito da vida podem ser de esquerda ou direita, do bem ou do mal, laico ou religioso, e serão sempre a mesma manifestação. Se para alguém vivido é difícil não ser presa das aparentes diferenças que são iguais, quanto mais para os jovens.

Mas acho que não era isso. O que me incomodava era a palavra “só”. “Só” não apenas é a palavra mais excludente de nosso vocabulário, como é a palavra mais prepotente que se pode proferir. Em nome do “só” já se produziram grandes violências, e uma juventude que aprende esta palavra é uma juventude perigosa. Eu conheço isso bem de perto porque o mundo religioso não aprendeu ainda a expressar sua devoção e sua piedade sem utilizar-se desta palavra. Todo aquele que tem confiança em si e em sua fé não é exclusivo. Grandes religiões e grandes religiosos afirmam outras religiões. Grandes culturas afirmam e apreciam outras culturas, grandes nações afirmam e apreciam outras nações; grandes indivíduos afirmam outros indivíduos.

Tempos messiânicos ainda estão longe porque temos poucos mestres capazes de ensinar nossos jovens a tratar a palavra “só” como uma locução antimessiânica. Entendendo obviamente o messianismo como a comunhão entre todos e não a exclusão que terminará no convencimento de todos.

O perigo do “só” é que ensina o confronto e a identidade por oposição. Quem muito confronta acaba dedicando a sua vida a uma competição que lá na frente, na maturidade, se deparará com o componente destrutivo do “só”, porque estará “só”. Solitário na assombração-descoberta que na competição nunca alcançamos a certeza se competimos por algo que existe ou se vencemos onde ninguém mais está disputando.

Não sou roqueiro e poderia ter passado por essa briga como se não fosse minha. Mas eu me identifico com os que vivem pela fé e, por respeito a essa escolha, não a quero ver no lugar equivocado. A fé em oposição é a declaração de sua insegurança e de sua falta de convicção. Quando Jesus ataca os vendilhões do Templo, ele não atacava os roqueiros ou os mercadores, mas as religiões que se transvertem em comércio, que vendem em espaço e momentos da fé suas bugigangas materiais, seus amuletos, enfim, seus produtos e falácias.

Como rabino não tenho por que contestar que Jesus salva! Mas “só Jesus” nos distancia tanto de suas palavras como também de um futuro messiânico. Jesus não estaria com cartazes zombando da prostituta ou do ladrão ou do diferente em suas festas e costumes. Estaria, sim, participando e traria boas novas de qualidades intrínsecas e não convencimento. Diz um belo ditado em iídiche: “O que o homem faz a si mesmo, dez inimigos não lhe fariam!”

via site do autor

foto: site do Sidney Rezende

dica do Jayme Mece

Comentários

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5 Comentários

  1. Marcos disse:

    Talvez seja porque se trata de um rabino escrevendo sobre Jesus Cristo. Mas a afirmação do rabino: “Mas “só Jesus” nos distancia tanto de suas palavras como também de um futuro messiânico.” Jesus, Ele mesmo foi quem disse, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém pode vir ao Pai senão por mim.”

    A palavra “só” é absolutamente correta e importante quando se trata sobre Jesus. Só Ele é o messias, só Ele é a salvação, só Ele pode salvar, só Ele é capaz de “os selos do livro”, só Ele é o mediador entre Deus e os homens.

    Só e somente Ele.

    Até mais, Marcos.

  2. Jabesmar disse:

    O que incomodou
    o distinto rabino é o mesmo que incomodou os
    religiosos contemporâneos de Jesus. Ou seja, o fato de Jesus se
    colocar como a única forma de chegarmos até Deus. Caro rabino, a palavra só
    cabe sim a Jesus. Senão vejamos:  “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o
    caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6); “Eu
    sou a porta. Se alguém entrar por MIM, será salvo; entrará, e sairá, e achará
    pastagem.” (João 10:9). Tem outras afirmações do próprio Jesus, mas creio que
    estas bastam. Esta era a pregação dos apóstolos e esta deve ser a pregação de
    quem se dispôs seguir a Jesus. Pedro também usava a palavra só Jesus. Veja: “E
    não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro
    nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12).
    Portanto, entre Jesus, os apóstolos e o rabino fico, sem pestanejar, com os
    primeiros!

  3. Lio Mascarenhas disse:

    Querido Rabino, o perigo do “só” se encontra explícito em  joão 14:16! não vá me dizer que o senhor não sabia????????Concordo plenamente com o Jabesmar que disse: o que o incomodou é o fato de JESUS ser o único elo entre Deus e os homens! Sou cristã e creio na bíblia! o que ela diz é verdadeiro!! já que o senhor se identifica com os que vivem pela fé, poderia começar pregando na sua igreja que os atributos de onisciência e onipresença onipotência é SOMENTE dada a Deus (Salmos 139)! Quanto aos jovens “futuros solitários”fizeram bem sim!!!! aproveitaram uma ocasião onde se reuniam 80 mil pessoas pra vincular essa mensagem oculta pela santa igreja católica!!!! e outra coisa: santas palavras confusa a do senhor, hein?

  4. Lutzcall disse:

    He should have been one, and done that, and maybe that would have helped others do it too.
    Tradução:
    Ele deveria ter sido um, e feito isso, e talvez isso teria ajudado os outros fazê-lo também.

  5. Isaque Oliveira disse:

    “Um grande Deus não admitiria outro Grande Deus. Não existe grandes Deuses. Existe um grande Deus e pequeno deuses quem sabe.”

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