Mulheres da paz


Ellen Johnson Sirleaf, Karman Tawakkul e Leymah Gbowee

Marina Silva

Ainda reverbera o anúncio do Nobel da Paz deste ano para três mulheres. As ganhadoras, duas africanas e uma iemenita, são oriundas de países cuja cultura e códigos religiosos acentuam valores que atribuem às mulheres um papel social diminuto, baixo status e, em decorrência, cultivam a submissão delas aos homens.

Tawakkul Karman, jornalista iemenita, a primeira mulher árabe a ganhar o Nobel da Paz, preside a organização não governamental “Jornalistas sem Algemas”. Da Libéria, Leymah Gbowee, assistente social e militante da paz, preside a organização não governamental “Rede África de Mulheres, Paz e Segurança”; e a economista Ellen Johnson Sirleaf é a atual presidente do país.
As três têm histórias de vida extraordinárias, cujo traço comum é a resistência pacífica a regimes políticos antidemocráticos e a superação de uma condição feminina de servidão em seus países.

Tawakkul Karman e Leymah Gbowee acrescentam a suas biografias uma capacidade notável de elaborar e desenvolver estratégias inovadoras e mais femininas de participar da política. Para se proteger, a iemenita foi acampar numa praça e defender suas causas, em situação de extrema exposição e fragilidade.

Com inteligência e coragem, Karman ganhou apoio de multidões, o que até agora impede que ela seja conduzida à prisão -onde já esteve muitas vezes- pelos partidários do governo de Ali Abdullah Saleh, ditador do Iêmen.
Por seu lado, Leymah Gbowee liderou um movimento de mulheres de todas as religiões, vestidas de branco em oração pela paz. O gesto mais incisivo dessa atuação pacífica foi a suspensão da prática sexual até que as guerras cessassem.

Com isso conseguiram ser parte na negociação política do país.
A presidente Ellen Johnson Sirleaf, inesperadamente, ganhou as eleições de 2005 contra George Weah, herói local, eleito em 1995 o melhor jogador de futebol do mundo. Tornou-se a primeira mulher chefe de Estado na Libéria, como no continente africano.

O contexto político das eleições era de saturação da sociedade com a corrupção e, contra todas as expectativas, a população apostou suas fichas na candidata, que em sua trajetória tem passagens profissionais pela ONU (Organização das Nações Unidas) e pelo Banco Mundial, mas também pelo cárcere político nos anos 80. Mas a prisão jamais inibiu a altura, a largura e a profundidade de seu compromisso com a paz e a liberdade.

Olhando a trajetória das três ganhadoras, podemos dizer que neste ano foi premiada a forma menos cartesiana de fazer política, que combina uma enorme capacidade de resistência com estratégias de envolvimento e constrangimento éticos. Uma forma menos destrutiva e mais possibilitadora do fazer político.

fonte: Folha de S.Paulo

foto: BBC Brasil

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