Steve Jobs e Steve Biko

Novo modelo do iMac, lançado pela Apple

Ricardo Alvarez, no Controvérsia

Por uma das coincidências da vida exibi aos meus alunos um vídeo com uma fala de Steve Jobs para uma turma de formandos da Universidade de Stanford, pois a sua recente morte havia ocupado suas cabeças. Ao mesmo tempo o assunto em aula seriam os conflitos no continente africano, em especial a questão do apartheid na África do Sul. Para dar conta do debate exibi “Um Grito de Liberdade”, que narra a luta de Steve Biko contra o regime e seu assassinato.

Os dois Steve’s foram, inevitavelmente, comparados.

Jobs foi ovacionado pela mídia mundial como um oráculo dos produtos de comunicação, informática, criação gráfica, enfim, um gênio por sua capacidade criativa. A Apple, empresa que o expulsara e depois o recontratara, publicou em seu site: “A Apple perdeu um visionário e gênio criativo, e o mundo perdeu um ser humano incrível.” Na mesma linha ainda exaltou sua personalidade e importância social: “O brilho de Steve, sua paixão e força foram as fontes de inúmeras inovações que enriquecem e melhoram todas as nossas vidas. O mundo é incomensuravelmente melhor por causa de Steve.”

É absolutamente evidente que a sua criatividade para gerar aparelhos que encantassem as massas de consumidores era muito grande. Seus produtos foram sendo aperfeiçoados a cada lançamento e em velocidade acelerada.

Mas Jobs traz a marca da evolução dentro da lógica do próprio sistema dominante. Produzir mercadorias no capitalismo é seu cerne, vendê-las sua necessidade, e tudo isto se faz tanto melhor se acoplado à criatividade, que lhe sobrava. Daí a louvação à sua pessoa, sua história e sua luta contra a doença. Ele não foi o primeiro e nem será o último. O destaque ao óbito decorrem desta condição.

Mas sua trajetória carrega outras marcas não tão elogiosas, mas compreensíveis num contexto de funcionalidade globalizada da reprodução do capital.

A utilização de trabalho infantil pela Apple na Ásia é uma frequente. De acordo com a Revista INFO Exame em 02 de março de 2010(1) “…a Apple é acusada de explorar o trabalho de ao menos 11 jovens com idade de até 15 anos que trabalham em três diferentes fábricas na Ásia.” Pode-se dizer que 11 jovens não podem acabar com a reputação de uma empresa de grande porte. Mas não para por ai.

No site FIBRA(2) uma matéria dá conta de que “No relatório anual acerca dos fornecedores da Apple, a empresa identificou 91 casos de trabalho infantil. O número agora avançado é nove vezes superior ao do ano anterior.” Em outras palavras, a típica reincidência.

No jornal Folha.com(3) em 02 de março de 2010 publicou-se que “A empresa (Apple) vem sendo criticada pelo uso de fábricas que abusam de trabalhadores em regiões de pobreza. Durante a semana passada, 62 trabalhadores de uma fábrica que produz suprimentos para a Apple e Nokia foram envenenados por n-hexano, químico tóxico que causa degeneração muscular e visão obscurecida. Na ocasião, a Apple não comentou o problema.” Há, portanto, contaminação de trabalhadores em suas fábricas na Ásia.

No site UNDER-LINUX(4) se pode ler “Recentemente a Apple foi duramente criticada por contratar fábricas que utilizam trabalho infantil ou abusam de seus trabalhadores, mantendo-os em condições de trabalho próximas de regime de escravidão. No ano passado, foram encontradas pelo menos 15 crianças trabalhando nessa companhias, que fabricam os produtos state-of-the-art da Apple. São menores de idade trabalhando em condições sub-humanas para a produção de seus produtos preferidos, como o iPod, o iPhone, e até mesmo os Macbooks e iMacs. Das três fábricas apontadas por terem utilizado mão-de-obra infantil, a empresa de Steve Jobs não informou o nome de nenhuma delas, mas sabe-se que a maioria de seus produtos são montados na China.”

Mas além do trabalho infantil e da contaminação há também outros sérios problemas envolvendo seus trabalhadores diretos ou indiretos. O primeiro diz respeito à superexploração da força de trabalho, como se pode ler no site da Revista INFO na matéria acima citada: “Esta não é a primeira vez que a Apple é citada em acusações que envolvem a superexploração de trabalhadores na Ásia. Há dois anos, a companhia foi denunciada por contratar integradores que mantinham operários trabalhando mais de 70 horas por semana. Na China, a jornada de trabalho legal é de 60 horas por semana.”

Os trabalhadores chineses são forçados a uma longa jornada de trabalho (60 horas por semana, no Brasil é de 44 horas) e no caso da Apple ainda são submetidos a uma acréscimo de 10 horas por semana. 70 horas de trabalho significam trabalhar os sete dias da semana numa jornada de 10 horas, ou de aproximadamente 11h30 em seis dias.

Como decorrência do esgotamento físico e mental e das pressões por produção, os suicídios completam o caos. Muitos trabalhadores nestas empresas, em decorrência das longas jornadas de trabalho, dormem na própria fábrica. Os tablets que consumimos felizes carregam histórias de vida e de morte nada aprazíveis.

Como resposta aos suicídios os gerentes pretendem separar os trabalhadores em grupos de 50 para reduzir o contato, além de instalar redes circundando as torres de produção nos andares mais baixos para evitar os saltos, conforme publica o jornal Estadao.com.br em 28 de maio de 2010(5). Nada de reduzir a jornada, apenas paliativos.

Evidentemente que este lado mau patrão não foi publicado na morte de Steve Jobs. Ao contrário a exaltação tomou conta do noticiário. A Apple é uma empresa moderna: mantém seu setor de pesquisa e desenvolvimento de produtos, administração, marketing, dentre outros importantes nos EUA e desloca sua produção física para a Ásia, em busca de trabalhadores superexplorados e baratos, reduzindo custos, maximizando lucros.

Mas outro Steve veio à tona no momento. Steve Biko não teve a mesma sorte de Steve Jobs, pois morreu aos 30 anos torturado pela polícia racista do governo sulafricano, branco e autoritário. Apesar das riquezas nacionais, como ouro, prata e diamantes, a imensa maioria de população negra era governada e reprimida pelos africaners (aristocracia branca) que impunha a cultura dominante.

As revoltas eram grandes contra o governo e seu ápice se deu com o massacre de estudantes em Soweto, em meados de 1976. Mais de 500 mortos numa chacina promovida pelo governo do apartheid diante de uma manifestação pública, pacífica e predominantemente de jovens.

Biko havia sido banido em sua própria terra, o que significava que não podia realizar encontros, organizar seu povo e lutar contra o regime. Tentativa de intimidá-lo que não funcionou, pois o recurso da tortura seguida de morte, que precipitou a queda do regime, colocou os fundamentalistas de plantão em choque direto com a comunidade internacional, já ressabiada diante do ocorrido em Soweto no ano anterior.

A queda do regime racista seria uma questão de tempo, diante do quadro de lutas internas dos negros oprimidos combinado com a retardada pressão internacional dos governos dos países ricos, que mantiveram boas relações com a África do Sul até poucos anos antes.

A morte de Biko provocou um pequeno relaxamento na legislação anti-negros em 1980, mas que não trouxe a acomodação da resistência de oposição. Novas jornadas de lutas ao longo dos anos 80, até que em 1990 iniciaram-se negociações que culminariam nas eleições de 1994, vencidas por Nelson Mandela, preso político por 28 anos (1962 a 1990).

Duas histórias, duas vidas. Contemporâneos, mas em busca de ideais diferentes. Um travou forte batalha pelos direitos sociais, organizou seu povo, era um líder respeitado e morreu por uma causa. Nadou contra a corrente e tonificou seus músculos.

Outro, nadou a favor da corrente, ganhou muito dinheiro produzindo sonhos e vendendo eletrônicos, foi um nome do sistema produtor de mercadorias, daí a idolatria em torno de sua pessoa. Não se poderia esperar nada de diferente de uma mídia mundial louvadora do capitalismo e defensora das leis de mercado.

Escrevo estes poucos parágrafos para resgatar a memória de um lutador social, mostrar que há gente neste mundo que se doa em nome de uma causa justa e necessária, que fez da política um espaço de contestação e organização popular. Entre os Steves fiz a minha opção. E você?

fotos: Estadão e MovE Brasil

Comentários

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2 Comentários

  1. Everton Araujo disse:

    Acho que uns 90% das pessoas so conhecem apenas um desses dois Steves, graças a midia que nos massacra todos os dias com a sua “imparcialidade”.

    • Eduardo Vianna disse:

      Pois é. Uma solução seria a internet tomar o lugar da mídia tradicional logo duma vez, temos muita chance de ver alguma coisa desse tipo acontecer em algum momento do futuro.

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