Lollipop

'Lollipop' , foto de Johnson-McCormick
Helena Beatriz Pacitti

O que você está fazendo?
Milhões de vasos sem nenhuma flor
Nando Reis, Relicário

Amo a ciência e me dói pensar que tanta gente se assusta com ela ou acha que optar pela ciência significa que não se pode escolher também a compaixão, ou as artes, ou admirar a natureza. O objetivo da ciência não é nos curar do mistério, mas reinventá-lo e revigorá-lo.
Robert Sapolsky, Why Zebras Don’t Get Ulcers

Os cientistas anunciaram que, no mês de agosto passado, a chuva de meteoros Perseida se encontrava visível no céu do hemisfério norte, com pico na madrugada do dia 13. O motivo pelo qual o pico de intensidade concentrava-se em alguns dias devia-se ao fato de que a Terra atravessava a região de maior intensidade da esteira de material liberado pelo cometa que dá origem ao fenômeno, chamado Swift-Tuttle.

Curiosamente, quem estivesse no hemisfério sul não veria Perseida, mas sim outra chuva de meteoros, menos intensa, chamada Delta-Aquarídeos Norte.
Pois bem. Na madrugada do dia 13 eu estava em um vôo entre o hemisfério sul e o norte, e, apesar de procurar pela janelinha pela tal chuva, nada vi. Convidei meu gentil vizinho de viagem para vasculhar o céu, atualizando-o das novidades científicas. Ele olhou, olhou e também não achou nada.

Rimos ambos. Sabíamos que as chances eram mínimas, porque janelinha de avião não é, convenhamos, lugar de se contemplar céu. Mas, por algum pensamento mágico, quase infantil, entendíamos que era nosso dever procurar alguma coisa. “Entendíamos”? Não. Confesso: na verdade falo por mim, mas acredito secretamente que o convenci a entrar na busca das estrelas perdidas.

Sem encontrar a chuva de astros, engatamos um longo papo que durou quase o restante do vôo, noite adentro. Falamos um pouco de tudo: astronomia, cientistas, familia, pessoas, Medicina, café com ou sem açúcar, projetos sociais, música, poesia e inevitavelmente sobre nossas certezas e incertezas sobre o Criador. Um sentimento de humildade e reverência pelo mistério da vida tomou conta da conversa. Não é difícil entender-se insignificante quando se vira um pontinho de asas voando sobre os oceanos, os quais são manchinhas de um planeta que é somente outro pontinho no Universo.

Apequenada e feliz, percebi que ao invés de assistir ao show de meteoros, eu era só a platéia de uma amizade recém nascida. Quando crianças, éramos censurados por não partilhar um doce com o coleguinha ao lado. Viramos adultos e nos isolamos cada vez mais. Evitamos contato, sorrisos, gentilezas, compaixão.

Em tempos de desconfiança alheia, em tempos de temor do próximo e dessa paranóia que nos ronda, a vida precisa ser maior que o medo. A vida e o mistério da vida.

fonte: Timilique!

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