Rubem Alves: Essa crônica é uma despedida

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo [via Delírios da Alma]
.
Resolvi, por decisão própria, parar de escrever no “Cotidiano”.

Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contraria um dos dois maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Encontrar algum livro seu nas prateleiras da livraria La Selva, nos aeroportos. Confesso: sou vítima dessa vaidade. Mas não aprendo a lição: nos aeroportos vou sempre visitar a La Selva na esperança de lá encontrar um dos meus livros. Mas saio sempre desapontado.

O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante: ser lido por milhares de leitores. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Isso faz muito bem para o ego. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.

Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: “Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas…” E ele se pergunta se “não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas…” Respondo. Sim. Há um cansaço. A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas agora meus 78 anos estão pesando. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar… A obrigação: é isso que pesa. Quereria ser capaz de viver um poeminha do Fernando Pessoa: “Ah, a frescura na face de não cumprir um dever… Que refúgio o não se poder ter confiança em nós…”

Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto – pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto – que já disse tudo o que tinha para dizer. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.

Não é qualquer coisa que se pode publicar num jornal. O próprio nome está dizendo: “jornal”: do Latim “diurnalis”; de “dies” , dia; diurno; o que acontece no dia; diário. O tempo dos jornais é o hoje, as presenças . Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais não há lugar para ressurreições.

Acho que aconteceu comigo coisa parecida com o que aconteceu com a Cecília Meireles. Escrevendo sobre ela Drummond falou o seguinte: ” Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me sempre a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito ” uma certa ausência do mundo”?

Deve ser alguma doença que ataca preferencialmente os velhos e os poetas. A Cecília descrevia o tempo da sua avó com “uma ausência que se demorava”. E Rilke se perguntava:”Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?” O sintoma dessa doença é aquilo que a Cecília disse: uma certa ausência do mundo.

O místico Ângelus Silésius já havia notado que temos dois olhos, cada um deles vendo mundos diferentes: “Temos dois olhos. Com um, vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro, vemos as coisas da alma, eternas, que permanecem” . Jornais são seres do tempo. Notícias: coisas do dia, que amanhã estarão mortas.

E é por isso vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado, porque minha alma anda pelos caminhos do Robert Frost, porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que me conheço por gente…

foto: Sampa Fotos

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Rubem Alves: Essa crônica é uma despedida

4 Comentários

  1. Salerno Neto disse:

    Rubem, que nem você e nem a gente morramos de saudades…

    “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
    Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela…
    Um dia nós percebemos que as mulheres tem extinto “caçador” e fazem qualquer homem sofrer…
    Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável…
    Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples…
    Um dia percebemos que o comum não nos atrai…
    um dia saberemos que ser classificado como “bonzinho” não é bom…
    Um dia percebemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você…
    Um dia saberemos a importância da frase ” Tu se tornas eternamente responsável por aquilo que cativas…”
    Um dia percebemos que somos muito importante para alguém mas não damos valor a isso…
    Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais…
    Enfim… um dia descobrimos que apesar de viver quase 1 século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos que os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer tudo o que tem que ser dito…
    O jeito é: ou nos conformarmos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutarmos para realizar todas as nossas loucuras…
    Quem não compreender um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação”.Mario Quintana.

  2. Grande Rubens. Velho, mas pontual, incisivo, e brilhante.

  3. Pena ter te descoberto tão tarde…

  4. Caro Rubem Alves:

    Talvez seja eu egoísta demais para não aquiescer à sua decisão de parar de escrever no âmbito cotidiano. O seu livro Ostra feliz não faz pérola, adquiri no Aeroporto, numa loja de brinquedos (rsrsrsrs). Ainda que não lhe tenham feito justiça e colocado os seus livros em estantes mais importantes, se descobre nas primeiras páginas a grandiosidade e a generosidade de sua alma. Escreva semanalmente, quinzenalmente, mensalmente, mas não deixe de escrever. Não é a sua vaidade é a sobrevivência de seus milhares de leitores.

Deixe o seu comentário