Após protestos, repressão e maconha convivem dentro da USP

Texto de Dayanne Sousa publicado originalmente no Terra Magazine

Um carro da Polícia Militar passa em ronda pela Universidade de São Paulo a cada 15 minutos. Completamente vazio, um prédio no centro do campus é guardado por dois seguranças particulares e cercado por altas paredes de lata. Um bunker, na descrição de estudantes. Membros da Guarda Universitária circulam em volta – e por cima – de faculdades e áreas de movimento.

Alheio ao homem de farda que olha feio para quem se aproxima do prédio em reforma, futura sede da Reitoria, um grupo acende um baseado no gramado em frente, nos fundos da Escola de Comunicações e Artes. Dois homens e duas mulheres, eles discutem amenidades ao ar livre, numa área em que muitos circulam à luz das 17h do horário de verão.

A USP mudou. O reforço na segurança e a presença da PM eram improváveis há poucos anos e provocaram um conflito entre alunos e policiais depois que estudantes foram detidos por usar maconha. Ao mesmo tempo, há coisas que continuam iguais. Para quem acende os baseados – estopins de uma onda de manifestações contra a “repressão” – não parece ter havido grande alteração na direção dos ventos.

Sempre foi e continua sendo fácil encontrar maconha no campus. Já os policiais e seguranças – antes mais raros de se ver – estão por todos os lados, sem a mesma agilidade dos fumantes. A detenção de três rapazes, que provocou a cizânia do último dia 27, é mais uma encenação uspiana. Assim definiu o professor de direito Jorge Luiz Souto Maior, em entrevista a Terra Magazine: “Droga na USP é ilícita quando convém”. Para ele, tanto quanto para os manifestantes, a questão da segurança e dos entorpecentes é usada como desculpa para manter a polícia a postos e evitar os protestos e greves que naquele espaço são tão frequentes quanto as aulas.

A coexistência entre a polícia e a liberalidade agita os ânimos dos estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). No intervalo entre as aulas de quem tem a grade de disciplinas cheia pela tarde, o prédio da História é palco de todo tipo de reivindicação. Um grupo discute os movimentos negros na periferia de São Paulo, outros pedem liberdade às rádios comunitárias… Mas o tema inevitável, por todo lado, é a polícia. O conflito chamou atenção da imprensa, levou à ocupação do prédio administrativo da FFLCH por uma semana e, mais tarde, da Reitoria. A exigência é o fim da PM no campus.

“A gente não sente orgulho quando a mídia fala da gente”, diz um cartaz na História. A mensagem se encerra com um singelo “pau no cu” destinado a todos os jornalistas. Outra menção especial vai para o reitor João Grandino Rodas e para o apresentador José Luiz Datena.

Ainda por ali, três jovens reclamam da falta de diálogo nas assembleias de estudantes que decidem o rumo do movimento. “De onde eu estava deu pra ver que todo mundo ali era maconheiro”, ataca um. O colega faz ar de reprovação e muda o assunto. “O que eu não entendo é por que, toda vez que tem movimento aqui, mandam a gente ler o mesmo texto do Florestan Fernandes”. Mais à frente, num novo gramado, outro grupo de quatro estudantes compartilha um “back”. Ninguém fala nada. Um quinto jovem se aproxima e basta um “oi” para que ele dê “um tapa”. E segue sua caminhada rumo à aula.

Histórico

Os estudantes da USP ocupam o prédio atual da Reitoria desde a noite de terça-feira (1º), depois de terem deixado a sede da administração da FFLCH. A saída foi uma decisão tomada em assembleia na qual os contrariados decidiram rumar para a Reitoria. O Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu, na noite de quinta (3), a reintegração de posse. A retirada dos estudantes é esperada para esta sexta-feira (4).

A presença mais frequente da Polícia Militar é coisa recente na USP. Ela foi possibilitada por um convênio assinado após o assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva em maio. Na época, grupos reivindicavam melhorias na segurança e o convênio com a PM chegou a receber apoio dos diretores de faculdades, com exceção dos dirigentes da FFLCH e da Faculdade de Educação.

foto: Tiago Queiroz/AE

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